Espiritismo e assistencialismo

Bernardino da Silva Moreira

Na Antigüidade, a pobreza era o estado daqueles que não contavam com meios de subsistência, ou porque eram velhos ou doentes ou porque não tinham arrimo para sustentá-los, como e as crianças órfãs ou abandonadas. O sistema socioeconômico – nômade, semi-sedentário ou sedentário, baseado na pecuária e agricultura de subsistência – oferecia trabalho para todos os membros da tribo ou clã. A miséria só aparecia em época de crise econômica, causada pelas invasões, guerras, catástrofes, que, destruindo cidades, habitações e lavouras, provocavam a falta de alimentos e trabalho.

A assistência aos pobres, aos velhos, aos abandonados constituía então, responsabilidade da família, clã ou tribo; cada um tomava conta dos seus e a maneira de assisti-los variava de uma tribo para outra, segundo os usos, os costumes, as crenças etc.

Em relação ao auxílio ao próximo, a Bíblia nos fornece informações sobre muitos dos costumes, que provavelmente eram também os das nações vizinhas. Assim, no Êxodo (21 e 23 – 3) encontramos normas contra o roubo, a sedução, a calúnia e a magia; no Levítico, cuidados com os leprosos (13 e 14) e os deveres para com os viajantes (19, 33 – 36); no Deuteronômio, regras para auxiliar os pobres e escravos (15,17,18), para prática de caridade (22, 1 – 14), a recomendação de deixar aos pobres o resíduo das colheitas (15, 7 –18), etc. deus castigava duramente os que não observavam os preceitos da caridade. Os judeus deviam lembrar-se constantemente de que eles também tinham sido pobres, destituídos e escravos na terra do Egito e, mais tarde, na Babilônia. Dentro deste contexto, a caridade se revestia de um conceito utilitário: “Faça o bem para que, quando precisar, encontre quem o ajude”.

Os governos não intervinham, salvo nos períodos dac alamidade pública. Por exemplo: no Egito, durante os anos de fome, José distribuiu, em nome do Faraó, alimentos armazenados os anos de abundância. Por ocasião de grandes festejos, quando o soberano queria mostrar seu poder e magnificência, repartiam-se esmolas com fartura.

Talvez tenha sido o Império Romano o único governo a estabelecer um plano sistemático de distribuição de espórtulas, entretendo desse modo grande quantidade de pobres e desempregados com víveres e espetáculos. As famílias aristocráticas seguiam o exemplo do Imperador e contavam com numerosa “clientela”, que vivia exclusivamente dos donativos de seus protetores. Evidentemente, este sistema só podia gerar abusos e levar a graves conseqüências sociais.

O advento do Cristianismo transformou o conceito de caridade: todos os homens, de qualquer nacionalidade ou raça, são irmãos. Ser pobre ou doente não constitui castigo de Deus, mas conseqüência da imprevidência individual ou das circunstâncias; a pobreza e a doença são consideradas como provação, da qual se poderiam haurir grandes merecimentos. Ajudar o pobre, recebê-lo, é meritório, pois ele representa a própria pessoa do Salvador. A caridade constituía, assim, para quem a dispensava, um meio de alcançar méritos para a vida eterna: era uma “virtude”.

Com a Reforma Protestante rompe-se a unidade religiosa; instaura-se a era da secularização do humanismo e, mais tarde, do racionalismo.

Surge nova concepção da caridade: até então a caridade representava um meio de santificação para aquele que a praticava. Sobre a influencia de alguns escritores, entre eles Jean-Jacques Rousseau, nasce a “filantropia”, ou seja, a caridade secularizada, separada muitas vezes da idéia religiosa, e considerando o auxílio ao outro como um dever de solidariedade natural.

Com o advento do Espiritismo, a caridade além de ser uma virtude, também é “um dever de solidariedade natural”, o que levou o Codificador Allan Kardec a dizer: “Fora da caridade não há salvação”.

No “O Evangelho segundo o Espiritismo”, cap.XI, item 4, Kardec explica:

“Amar o próximo como a si mesmo: fazer pelos outros o que quereríamos que os outros fizessem por nós”, é a expressão mais completa da caridade, porque resume todos os deveres do homem para com o próximo. Não podemos encontrar guia mais seguro, a tal respeito, que tomar para padrão, do que devemos fazer aos outros, aquilo que para nós desejamos. Com que direito exigiríamos dos nossos semelhantes melhor proceder, mais indulgência, mais benevolência e devotamento para conosco, do que temos para com eles? A prática dessas máximas tende à destruição do egoísmo. Quando as adotarem para regra de conduta e para base de suas instituições, os homens compreenderão a verdadeira fraternidade e farão que entre eles reinem a paz e a justiça. Não mais haverá ódios, nem dissenções, mas, tão-somente, união, concórdia e benevolência mútua.”

Amar o próximo, eis o “x” da questão. Muitos dirão que isso é muito difícil, outros fingirão amar o próximo, porque não conseguem amar a si mesmos e por uma questão religiosa, procuram manter o rótulo de um religiosismo inconseqüente.

Na questão 888 de “O Livro dos Espíritos”, São Vicente de Paulo, adverte:

“Em vez de votardes desprezo à ignorância e ao vício, instruí os ignorantes e moralizai os viciados.”

Sublinhamos o instruí e o moralizai, por estar aí o cerne de todo escopo doutrinário espírita, e para não ficar dúvidas, a instrução do Espírito Verdade, no cap. VI, no item 5 de “O Evangelho segundo o Espiritismo”:

“Espíritas: amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, esse o segundo.”

Sabemos que a maioria das pessoas adentram no centro espírita na esperança de sanar todos seus sofrimentos e procuram com sofreguidão, pelo passe, água magnetizada e pelas preces, mas, se dermos só isso, não estaremos praticando a caridade de forma íntegra. Precisamos instruir o intelecto dessas pessoas com a Doutrina Espírita, revigorando-as com a Moral de Jesus. Se assim fizermos, não haverá mais papa-passes, roustainguistas, ramatistas, Pietro-Ubaldistas, etc. No Espiritismo a caridade não é sinônimo de assistencialismo, porque sabemos que a “força” da Doutrina “está na sua filosofia, no apelo que dirige à razão, ao bom senso”.

(Publicado no CORREIO FRATERNO DO ABC, Ano XXXIII, Nº 354, Julho de 2000).