Espiritismo e mediunismo

Bernardino da Silva Moreira

Eis um tema bastante atual, pois, o mediunismo é usado constantemente pelos meios de comunicação com o sensacionalismo estardalhante, que confunde o povo sequioso por novas informações sobre tão palpitante assunto, e como sempre o Espiritismo, sai perdendo nessa guerra de audiência, onde tudo vale, até mesmo sonegar a verdade.

À primeira vista a solução do problema parece fácil, mas não é. A mediunidade para muitos ainda continua sendo entendida como sinônimo de Espiritismo, e como são muitos os médiuns nesse grande país chamado Brasil, a confusão é geral entre espíritas e não espíritas.

O Espiritismo é a Doutrina fundada sobre a crença na existência dos Espíritos e em suas manifestações. O acreditar na existência dos Espíritos e em suas manifestações, não fará ninguém espírita, mas sim, o estudo sério e profundo com a devida prática, do conjunto de princípios que servem de base ao sistema científico e filosófico com as devidas conseqüências religiosas, ditadas pelos Espíritos Superiores em “O Livro dos Espíritos” e demais obras basilares, codificadas pelo egrégio mestre Allan Kardec.

Não se deve confundir mediunismo com Espiritismo ou Doutrina Espírita, mas a realidade é outra, pois basta como exemplo os inumeráveis centros de Umbanda, ditos “espíritas” por grande parte de seus fundadores e freqüentadores.

Consultando o livro “O Que é Umbanda”, do Sr. Cavalcante Bandeira, na pág. 107, fiquei surpreso com o que li, como também ficou o Sr. Erasto de Carvalho Prestes, que registra seu espanto no livro “Kardec X Roustaing”. Na verdade, essa questão é uma espinha atravessada na garganta do espírita sério e consciencioso. Eis a bomba:

“A Umbanda é caracteristicamente um culto espírita... Claro que é um espiritismo com ritual e ritmado ao som de cânticos... esse ponto definitivo já fora assentado, desde 1941, quando se realizou o I Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, como a própria denominação define...” e, apoiando-se em Benedito da Silva, continua com sua peroração: “Umbanda é espiritismo prático, é magia branca, é sessão de espiritismo, realizada em mesa ou terreiro, para a prática do bem, e foi trazida para o Brasil pelos pretos africanos.”

Espiritismo de Umbanda?! Que história é essa? Fiquei estupefato diante deste final infeliz, mas dando prosseguimento a minha pesquisa, quase tombei da cadeira estarrecido, pois, o Sr. Cavalcante Bandeira defendia sua tese baseado, pasmem leitores, na Federação Espírita (?) Brasileira, pois é! E dando continuidade a seus propósitos o Sr. Cavalcante, recorre ao Parecer da Comissão de Doutrina indicada pelo Conselho Federativo Nacional (?) da Federação Espírita (?) Brasileira, reunida no Rio de Janeiro em 1926, com os diretores da Casa de Ismael onde sempre reconheceram Umbanda como espiritismo, eis a conclusão dos notáveis da Casa Mater: “É Espiritismo, mas não é Doutrina Espírita”. E agora José? E para que não fique dúvida sobre tamanha batatada, cita ainda o trabalho com o título de “Conceitos Elucidativos”, do Comando,ou melhor, da Diretoria da F.E.B., onde está escrito: “A atual Diretoria da F.E.B., dando publicidade ao trabalho “Conceitos Elucidativos” nada mais fez do que se colocar em sintonia com as Diretorias da Casa de Ismael e com o Conselho Federativo de 1926, que sempre reconheceram Umbanda como Espiritismo... os umbandistas são espíritas... a Umbanda é Espiritismo, mas não é Doutrina Espírita” (Ver o “Reformador”, de julho de 1953, pág. 148).

De lá para cá a multiplicação de centros pseudo-espíritas foi surpreendente. Inserido no Livro “Kardec X Roustaing” encontramos o testemunho do Sr. Romário Ferraz de Campos, no artigo do “Diário de Notícias, intitulado “Procurando a Verdade” de janeiro de 1971, com as afirmações: “A Umbanda de sentido religioso só existe no Brasil de uns cinqüenta anos para cá... Até então, falava-se de Macumba, como sinônimo de feitiçaria e curandeirismo, e perseguida pela polícia como nociva à saúde, aos bons costumes, à boa-fé alheia... De 1927 para cá, o nome Umbanda tomou conta da cidade...”

O mediunismo grassava na época com rituais de magia negra e outros quejandos, os jornais daquele tempo registraram alguns casos com vítimas fatais, algumas delas crianças. Diante de tamanho mal a F.E.B. sai pela culatra ripostando, no “Reformador” de maio de 1978: “... a Federação, para evitar que o nome do Espiritismo continue a ser mal interpretado e confundido com doutrinas e práticas que em nada estão conformes com a Doutrina Espírita, resolveu reivindicar na teoria e na prática, a legitimidade do uso do nome Espiritismo somente para caracterizar Doutrina Espírita e não para ser usado abusivamente como sinônimo de toda e quaisquer práticas fenomênicas, nem sempre bem conduzidas, ou para acobertar simples mediunismo, às vezes, francamente condenável pelos seus propósitos e pelas suas conseqüências.”

Tarde demais, a vaca já tinha ido pro brejo!

Isso me faz lembrar a história de um garoto que ia tomar banho em um lago com seus colegas, e sempre fingia que estava morrendo afogado, e fazia o maior escândalo para chamar a atenção dos colegas, que sempre iam socorrê-lo e como sempre ele morria de rir. Um dia por ironia do destino, ele estava morrendo afogado mesmo, mas, seus colegas se cansaram de seus fingimentos e não deram a mínima importância para seus gritos de socorro e quando descobriram a verdade, já era tarde demais.

Com o hábito de alguns espíritas se intitularem “espíritas Kardecistas”, a confusão continua a grassar de forma avassalante, pois, isso faz com que muitos pensem que há espíritas umbandistas, espíritas Roustainguistas, espíritas Ramatistas e outras tantas criações do vulgo.

Mas qual seria o motivo pra tantas confusões? Acredito que a falta de método no estudo espírita faz com que muitos ainda confundam Espiritualismo com Espiritismo. Para que isso não aconteça, é necessário muito cuidado com as palavras, Kardec na “Introdução ao estudo da Doutrina Espírita”, cuidadosamente inicia o estudo com as palavras “Para se designarem coisas novas são precisos termos novos”, o que vem depois dessas primeiras é de vital importância para o espírita, pois, com as palavras seguintes afasta o perigo anfibológico, que faz do mediunismo sinônimo de Espiritismo e principalmente do espiritualismo, daí a advertência eivada de bom-senso:

“Os vocábulos espiritual, espiritualista, espiritualismo têm acepção bem definida. Dar-lhes outra, para aplicá-los à doutrina dos Espíritos, fora multiplicar as causas já numerosas de anfibologia. Com efeito,o espiritualismo é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria. Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os seres do mundo invisível.”

O Espiritismo é a Doutrina ditada pelos Espíritos superiores e codificada por Allan Kardec em “O Livro dos Espíritos” e demais obras basilares. O fenômeno espírita é mediunismo que sempre existiu em todas as épocas, o Espiritismo ou Doutrina Espírita somente surgiu a partir de 1857 e não deve ser confundida com africanismo ou seja lá o que for.

Já tivemos uma Federação de Espiritismo de Umbanda do Brasil, hoje temos uma Federação Roustainguista Brasileira, quando teremos uma Federação Espírita Brasileira de verdade?

(Publicado no CORREIO FRATERNO DO ABC, Ano XXXII, Nº 344, Setembro de 1999).