Espiritismo e Religião

Bernardino da Silva Moreira

Com a filosofia de René Descartes (1596-1650) e as três leis da cinética codificadas pelo cientista e matemático inglês Sir Isaac Newton (1642-1727), o pensamento humano dá um salto gigantesco para o futuro.

A evidência da própria existência, levou Descartes a uma primeira certeza: “Penso, logo existo”. A razão seria a única coisa verdadeira, da qual se deve partir para alcançar o conhecimento. Para garantir que a razão não se deixe pela realidade, tomando como evidência o que de fato não passe de um erro de pensamento ou ilusão dos sentidos, descartes formula sua segunda certeza; a existência de Deus. Entre outras provas, usa a idéia de Deus como ser perfeito. A noção de perfeição não poderia nascer de um ser imperfeito como o homem, mas de outro ser perfeito, argumenta Descartes. Logo, se um ser é perfeito deve ter a perfeição da existência. Caso contrário, lhe faltaria algo para ser perfeito. Portanto, Deus existe. O método cartesiano revoluciona todos os campos do pensamento de sua época, possibilitando o desenvolvimento da ciência moderna e abrindo caminho para o homem dominar a natureza. A realidade das idéias claras e distintas, que Descartes apresenta a partir do método da dúvida e de evidência, transforma o mundo em algo que pode ser quantificado. Com isso, a ciência, que até então se baseava em qualidades obscuras e duvidosas, a partir do início do séc. XVII, se torna matemática, capaz de reduzir o universo a coisas e mecanismos mensuráveis que a geometria pode explicar.

Nas três leis da cinética, primeiramente Newton enuncia o princípio da inércia: um corpo em repouso permanece em repouso e um corpo em movimento com uma velocidade constante até que surja a interferência de uma força externa. A Segunda lei da cinética define a força em termos de massa e aceleração. Constitui portanto a primeira distinção clara entre a massa de um corpo (que representa sua resistência à aceleração; em outras palavras, a quantidade de força de gravidade que existe entre esse corpo e um outro, habitualmente a Terra). Finalmente, a terceira lei reza que para cada ação aparece uma reação igual e que se exerce em sentido oposto. A partir das 3 leis, Newton foi capaz de deduzir como atuava a força da gravidade entre a Terra e a Lua. Representou espantoso golpe de intuição o fato de Newton ter afirmado ser essa lei válida entre dois corpos celestes situados em qualquer região do Universo. Tornou-se assim conhecida sob o nome de Lei da Gravitação Universal.

Devido as contribuições valiosas à História da humanidade,o filósofo René Descartes e o cientista Isaac Newton, são considerados como os precursores do iluminismo .

Foi na França no reinado de Luís XIV, o “Rei Sol” (1661-1715), que o absolutismo chegou ao auge, mas as sucessivas guerras expansionistas minam a supremacia francesa na Europa. Sob o reinado de Luís XV (1715-1774), desenvolvem-se as idéias do iluminismo através de Voltaire (1694-1778), Diderot (1713-1784) e Rousseau (1712-1778), que combatem a intolerância religiosa e o absolutismo.

Voltaire é o mais importante pensador iluminista, símbolo da liberdade de pensamento. O suíço Rousseau torna-se o iluminista mais radical, precursor do socialismo e do romantismo. Na obra “O Contrato Social (1762), defende o Estado democrático, voltado para o bem comum e a vontade geral, que inspira os ideais da Revolução Francesa.

Para o iluminismo, Deus está na Natureza e no homem, que pode descobri-lo através da razão, dispensando a função da Igreja. Afirma que as leis naturais regulam as relações sociais, assim como os fenômenos da Natureza. Considera os homens naturalmente bons e iguais entre si – quem os corrompe é a sociedade. Cabe, portanto, transformá-la, tendo como norte a busca da felicidade, garantindo a todos liberdade de expressão e culto, igualdade perante a lei e defesa contra o arbítrio e a prepotência.

Os ideais iluministas estão presentes no mundo contemporâneo, sob variadas formas, tais como: democracia, fraternidade, liberdade, igualdade e principalmente nas leis que regulam os direitos e deveres do cidadão em relação ao Estado.

No Espiritismo e no Iluminismo, Deus está na Natureza e no homem e para descobri-lo temos a razão para nos guiar de forma segura. Vamos exemplificar com a questão 4 de “O Livro dos Espíritos” codificado por Allan Kardec:

“Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?

- Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.”

Daí podemos concluir que: a fé no Espiritismo é racional e não dogmática, por isso não limitamos ou aprisionamos Deus nas páginas da Bíblia, e muito menos a sistemas ditos religiosos, porque a religião no Espiritismo é natural.

Vamos a outro exemplo, isto é, a questão 621:

“Onde está escrita a lei de Deus?

- Na consciência.”

Mais uma vez voltamos a dizer, no Espiritismo a religião é natural, não há liturgia, rito ou qualquer formalidade praticada pelas religiões instituídas pelos homens, daí afirmamos em coro com os iluministas, que a melhor forma de amar a Deus, é respeitar suas leis inscritas na Natureza e na consciência do homem.

Será o Espiritismo o mesmo que Cristianismo?

A resposta está inserida em O Livro dos Espíritos e no O Evangelho segundo o Espiritismo, primeiramente vamos a questão 625:

“Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo?

- Jesus.”

E para fechar a questão, iremos às primeiras palavras da introdução do Evangelho segundo o Espiritismo:

“Podem dividir-se em cinco partes as matérias contidas nos Evangelhos: os atos comuns da vida do Cristo; os milagres; as predições; as palavras que foram tomadas pela Igreja para fundamento de seus dogmas; e o ensino moral. As quatro primeiras têm sido objeto de controvérsias; a última, porém, conservou-se constantemente inatacável.”

Daí podemos concluir que: Jesus e Cristianismo não é a mesma coisa, essa confusão é devida aos teólogos que dizem ser o Cristianismo, uma religião fundada por Jesus Cristo, ora, Jesus não disse que era fundador de nenhum sistema religioso, e muito menos, que tenha nomeado Pedro, papa da Igreja. Acta est fabula!

Voltamos a dizer, só a moral do Cristo nos interessa, pois, é nela que encontramos a perfeição de Jesus, não temos nada com as religiões instituídas pelos homens, Jesus é o nosso modelo e não os que dizem serem seus emissários.

O Espiritismo é um só, isto é, o codificado por Allan Kardec, daí não haver, Espiritismo-religioso e muito menos, Espiritismo-cristão ou espírita-cristão, afinal, não podemos esquecer que os roustanguistas também dizem serem espírita-cristãos. Jesus não é monopólio de nenhuma religião, nem mesmo do Cristianismo.

No Espiritismo a Religião é natural porque “Deus está na Natureza e no homem, que pode descobri-lo através da razão”. A fé não é cega porque é iluminada pela luz da razão, e Kardec deixa bem claro essa questão fundamental, quando diz que “o argumento supremo deve ser a razão”, na pág. 493 de “O Livro dos Espíritos”.

O biógrafo Jean Vartier,naobra “Allan Kardec, la naissance du spiritisme” (Allan Kardec, o nascimento do Espiritismo), na pág. 27, declara:

“Pestalozzi pode ser considerado como o pai espiritual de Rivail, da mesma forma que Jean-Jacques Rousseau foi o pai espiritual de Pestalozzi.”

Na Revista Espírita de Agosto de 1865, nas dissertações espíritas, há uma mensagem do Espírito de Lacordaire, de 5 de janeiro, onde Rousseau é citado como exemplo de homem bom, na declaração que foi transcrita por Lacordaire:

“Para mim sei que todos os nobres são meus irmãos e que não posso, sem uma inescusável dureza, lhes recusar o fraco socorro que me pedem. Na maioria são vagabundos, concordo; mas conheço bem as penas da vida para ignorar por quantas desgraças o homem honesto pode encontrar-se reduzido em sua sorte. E como poderia eu estar certo de que o desconhecido que me vem implorar assistência em nome de Deus, talvez não seja esse homem honesto, prestes a perecer de miséria, e que minha recusa vai reduzir ao desespero? Quando a esmola que se lhes dá não for para eles um socorro real, é ao menos um testemunho de que se participa de suas penas, um abrandamento da recusa, uma espécie de saudação que lhe faz.”

J. Guillaume via em Pestalozzi “um filósofo que aceitava as formas do cristianismo, mas permanecia estranho a seus dogmas,particularmente àqueles do pecado original, da graça e da redenção”.

Gabriel Compayré, confirma o dito por Guillaume e acrescenta:

“Não lhe perdoavam por contentar-se com uma RELIGIÃO NATURAL, com um deísmo filosófico à Rousseau, com um cristianismo racionalista.”

Para Pestalozzi “a verdadeira religião, não é outra coisa senão a moralidade”.

Para os espíritas a religião natural é a única que realmente satisfaz a razão, porque é uma inerência da alma humana, porque Deus está na Natureza em suas Leis perfeitas. A religiosidade espírita não depende de formalidades, mas sim, de moralidade. Nada de religiosismos, esoterismo e tantos outros ismos que andam por aí... o Espiritismo não é sincretismo!

(Publicado no CORREIO FRATERNO DO ABC, Ano XXX, nº 317, Junho de 1997).