O Espiritismo ante o gnosticismo e seus afluentes

Bernardino da Silva Moreira

A corrente de idéias denominadas de gnosticismo, tem sua nascente na teoria da harmonia das esferas de Pitágoras (582-510 a.C.), bem como na estrutura das sociedades aristocráticas secretas que se fundaram nas colônias gregas da Itália. As antigas concepções de astrologia, assim como elementos persas e idéias do orfismo, também foram incorporadas pelo gnosticismo. A confirmação de um gnoticismo pré-cristão, veio com descobertas e pesquisas modernas sobre os essênios, os mistérios egípcios e principalmente sobre a filosofia espiritualista de Filon (c. 20 a.C.-50 d.C.), da escola de Alexandria, que em seu ecletismo foi influenciado pelo budismo e pelo zoroastrismo.

Na gnose helenística o dualismo metafísico do bem e do mal, é caracterizado na oposição total entre o corpo e a alma. Embora a idéia de Deus fosse ainda panteística, era forte a influência do Deus oriental do Antigo Testamento e dos mitos da origem e queda do homem.

Na gnose judaica o dualismo entre os princípios do bem e do mal, diferia da gnose helenística, pois, segundo sua concepção, o Deus único embora permitindo a existência do mal, um dia o eliminará por completo. O gnosticismo judaico pode ter sido uma das fontes do gnosticismo cristão; depois sobreviveu na Cabala.

A fundação do gnosticismo cristão, segundo a tradição, deve-se a Simão Mago, com o qual o apóstolo Pedro travou polêmica em Samaria (At.8, 9-24). Simão dizia-se manifestação do Deus supremo – o que é repetido pelo seu sucessor Menandro. Seu sistema parece baseado na cosmologia sírio-fenícia e compreendia uma elaborada angelologia e astrologia.

O caudal gnóstico inundou o mundo antigo, fertilizando os pensadores de antanho paranovas idéias. Ireneu (Adversus haereses c.180) faz referências a vários grupos gnósticos, como os nicolaístas, ofitas, setianos e cainitas, que, entretanto, não constituíram ameaça mais séria à Igreja; isso só aconteceu em meados do séc. II. Dentre às várias seitas que surgiram ou foram popularizadas na época, a que deu maior dor de cabeça à Igreja, foi sem dúvida nenhuma, o docetismo, que afirmava que Jesus não teve corpo verdadeiro,mas que descera do céu em corpo aparente, passando pelo seio da Virgem Maria como a água por um canal, sem que dela tivesse recebido a mínima partícula. Com essas idéias foi combatida e condenada pelos partidários do dogma da Encarnação e da Presença Real. Os docetistas (hoje roustanguistas), julgavam por demais realista, senão chocante, a noção de Encarnação e propunham uma interpretação do problema da salvação pela qual o elemento carnal não viesse a comprometer o espiritual. O docetismo foi combatido por santo Ireneu, Tertuliano e Santo Agostinho, sendo definitivamente condenado pelo concílio da Calcedônia (451). Seus vestígios são encontrados em escritos de autores cristãos até o séc. VI.

Passada a febre docetista, foi a vez do maniqueísmo,proveniente do atual Iraque através de Mani ou Manes (215/216-274?), cuja pregação se realizou sob o patrocínio do rei sassânida Shapur ou Sapor I (242-273). Com Bahram I (274-277), sucessor desse monarca, o sacerdócio ligado ao zoroastrismo empreendeu um movimento contra Mani, que foi aprisionado em Gundeshapur, morrendo nessa cidade.

Através de rígida moral, os maniqueístas devem atuar no sentido de promoverem a separação dos dois elementos físicos (luz e trevas). Para tanto, os homens – cuja alma é pura e o corpo impuro – estão sujeitos ao cânone moral dos três selos, apostos permanentemente sobre a mão, os lábios o peito: o selo da mão o impedirá de matar e guerrear, o da boca obrigar-lo-á a dizer a verdade e a não comer alimentos impuros, e o do peito afastará os desejos profanos.

A penetração do maniqueísmo nas fronteiras do império romano realizou-se entre c. 280 e c. 330, com a adesão de grande número de intelectuais e de partidários de heresias gnósticas. Sua polêmica com a Igreja Romana tornou-se a tônica, e até Santo Agostinho (354-430) foi durante nove anos discípulo maniqueu, antes de tornar-se cristão.

Sob os imperadores romanos e bizantinos o maniqueísmo passou por muitos reveses, mas de 370 a 440 logrou instalar-se na própria cidade de Roma, onde foi professado tanto por intelectuais como por membros das camadas humildes da população. Valentiniano III (419-455) chegou a decretar extradição contra os praticantes maniqueus, e Justiniano (483-565) aplicou pena de morte aos heréticos. Na África do Norte, a irrupção dos vândalos (435) obrigou à fuga elevado número de adeptos do maniqueísmo.

A história dessa religião estende-se da época de seu fundador até o séc. XIII, difundida tanto no mundo ocidental (sobretudo até a Itália a sul da França) como no Extremo Oriente. Em razão do conflito com outras religiões, principalmente com o cristianismo, seus adeptos sofreram acirradas perseguições.

A seita dos albigenses ou cátaros surgiu no séc. XI naProvença, em torno da cidade de Albi, como movimento regional de oposição à dominação econômica e religiosa dos senhores feudais francos.

Baseados nos princípios maniqueístas do Bem e do Mal, os albigenses pregavamo ascetismo e o despojamento dos bens materiais. Condenavam a Igreja Católica; negavam a divindade e a humanidade de Jesus; repudiavam o culto dos santos e a adoração de imagens; rejeitavam o Antigo testamento, só aceitando os Evangelhos em tradução para o provençal e com interpretação diferente da católica.

Apoiada pelos nobres provençais, considerada herética pela Igreja, expandiu-se por todo o sul da França, dos Alpes aos Pirineus, e provocou reação da Igreja e dos senhores feudais, que, com o apoio do papado, organizaram em 1209 uma cruzada de aproximadamente 500.000 participantes. Chefiada por Simão de Montford, essa cruzada combateu os albigenses, saqueou e incendiou as cidades de Béziers, Narbona, Carcassone e toulouse, matando grande parte de seus habitantes. A seita albigense foi definitivamente extirpada em meados do séc. XIII.

No séc. XIX surge o Espiritismo codificado por Allan Kardec, sob a orientação dos Espíritos superiores, através da mediunidade de diversos médiuns, até aí tudo bem! Eis que entra em cena o Sr. J.B. Roustaing com a obra “Os Quatro Evangelhos”, onde os disparates docetistas e outros absurdos, são ditados pelos Espíritos mistificadores, que se aproveitam da credulidade do Sr. Roustaing e de sua médium obsediada.

O roustainguismo não foi levado a sério na França, mas no Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, foi bem diferente. O pieguismo dos místicos pseudo-espíritas, que eram maioria na época, trataram logo de traduzir amaçuda obra e publicá-la,para grande alegria dos espírita-cristãos ou evangélicos.

Até hoje a dita obra é reeditada pela FEB (o mesmo que federação roustanguista brasileira), que tenta a todo custo colocá-la na bibliografia espírita, apesar dos protestos dos espíritas.

Kardec em “A Gênese”, comentando sobre o “desaparecimento do corpo de Jesus”,no item 65, deixa bem claro:

“Após o suplício de Jesus, seu corpo se conservou inerte e sem vida; foi sepultado como o são de ordinário os corpos e todos puderam ver e tocar. Após a sua ressurreição, quando quis deixar a Terra, não morreu de novo, seu corpo se elevou, desvaneceu e desapareceu, sem deixar qualquer vestígio,prova evidente de que aquele corpo era de natureza diversa do que pereceu na cruz; donde forçoso é concluir que, se foi possível que Jesus morresse, é que CARNAL era o seu CORPO.”

E agora José?

Kardec não caiu na lalácia roustainguista e prudentemente adverte os espíritas, para que tomem cuidado com os plágios de idéias antigas, no item 67:

“Não é nova essa idéia sobre a natureza do corpo de Jesus. No quarto século, Apolinário, de Laodicéia, chefe da seita dos apolinaristas, pretendia que Jesus não tomara um corpo como o nosso, mas um corpo impassível, que descera do céu ao seio da santa virgem e que não nascera dela; que, assim, Jesus não nascera, não sofrera e não morrera, senão em aparência. Os apolinaristas foram anatematizados no concílio de Alexandria, em 360; no de Roma, em 374; e no de Constantinopla, em 381.

Tinha a mesma crença os Docetas (do grego dokein, aparecer), seita numerosa dos Gnósticos, que subsistiu durante os três primeiros séculos.”

Tentando desviar a atenção do leitor, eis que aparece uma nota da editora febiana, com a dialética maquiavélica de sempre:

“Não somente foram anatematizados os apolinaristas, mas também os reencarnacionistas e os que se põem em comunicação com os mortos.”

Ora bolas! a reencarnação e a comunicação com os mortos são realidades comprovadas pela Ciência Espírita, por isso são princípios básicos da doutrina, quanto ao apolinarismo é bem diferente, porque não passa de uma idéia absurda. Kardec coloca os apolinaristas em pé de igualdade com os docetistas, é claro que os febianos não gostaram, pois os roustainguistas são filhotes dos apolinaristas e dos docetistas, daí a roustainguice de sempre.

(Publicado no CORREIO FRATERNO DO ABC, Ano XXXI, Nº 321, Outubro de 1997).