O espírito e o perispírito

Bernardino da Silva Moreira

Segundo Virgílio o espírito seria: “Sopro, vento, hálito, respiração, exalação.” (Eneida, 12, 365).

Temos que convir que a explicação de Virgílio é bastante confusa, mas levando em consideração a época em que viveu...

Não é menos confusa a definição de Cícero, que dizia que o espírito seria “o ar” (Pro Róscio Amerino, 72).

Os dicionaristas Aurélio Buarque de Holanda e Antônio Geraldo da Cunha diriam que o Espírito seria a “parte imaterial do ser humano, alma” e Antenor Nascentes acrescenta palavras, dizendo ser o Espírito a “alma, essência; ser incorpóreo; parte incorpórea e imaterial do ser humano.”

Afinal, “que é o espírito?”

“- O princípio inteligente do Universo.”

Aqui nesta resposta temos o elemento inteligente universal; na perg. 76 Kardec insiste dizendo:

“Como podemos definir os Espíritos?

- Podemos dizer que os Espíritos são os seres inteligentes da Criação. Eles povoam o Universo, além do mundo material.”

E para que não fique dúvida,na perg. 79, os Espíritos esclarecem as perguntas anteriores, afirmando que “os Espíritos são a individualização do princípio inteligente.” Esta individualização só pode ser firmada admitindo-se “a progressão dos Espíritos” ou a sua “evolução.”

Por isso ditaram os Espíritos na perg. 540:

“... É assim que tudo serve, que tudo se encadeia na natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, que também começou por ser átomo...”

Diante do exposto acima, chegamos à conclusão de que não há como, nem meios, de podermos imaginar o Espírito em sua essência. Isto só é possível através de sua individualização, ou melhor,por meio de um corpo de natureza intermediária, um corpo fluídico: o perispírito.

O que é o perispírito?

Se fôssemos fazer esta pergunta ao prof. Aurélio, por certo ele nos responderia:

“- Perispírito (de peri + espírito) S.M. Organismo homogêneo que desempenha, conforme os espíritas, todas as funções da vida psíquica ou da vida separada do corpo, funções essas correspondentes, na vida terrena, a outros tantos sentidos.”

Ao abrir o Dicionário Ilustrado da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras encontrei a seguinte resposta:

“- Perispírito S.M. Segundo o Espiritismo, envoltório fluídico que uniria a alma humana ao corpo físico, e através do qual o espírito atuaria na matéria.”

Sem dúvida alguma, é a resposta do prof. Antenor, que vem ao encontro aos postulados espíritas,principalmente no “... e através do qual o espírito atuaria na matéria.” Dizemos isto por saber que é o espírito a causa de todo fenômeno inteligente, e não podemos esquecer que o perispírito tem sua origem no fluido cósmico universal, e o espírito é uma criação de Deus que é inteligência suprema.

Pela resposta do prof. Aurélio e do prof. Antenor, é possível identificar esse “organismo” ou “envoltório” em outras filosofias religiosas da Antigüidade e mesmo da atualidade. No livro “Da Alma Humana” de Antonio J. Freire, encontramos uma sinonímia interessante. Vejamos:

“Mano-maya-kosha (Vedanta); kama-rupa (Budismo esotérico); baobhas (Zend-Avesta); kha (Egito); rouach (Cabala hebraica); imago (Tradicionalismo grego); khi (Tradicionalismo chinês); carne sutil da alma (Pitágoras); corpo sutil e etéreo (Aristóteles); astroeidê (Neoplatônicos da escola de Alexandria; evestrum (Paracelso); corpo fluídico (Leibnitz); duplo (Lepage Renour); alma (dr. H. Baraduc); aerassoma (Neognósticos); corpo astral (Hermetistas e Alquimistas).”

Atualmente esta lista está incompleta, pois, depois da descoberta da kirliangrafia pelo eletrotécnico russo Semion Davidovich Kirlian, em 1939, possibilitando o estudo mais profundo da aura humana e com os avanços da Parapsicologia, outros termos foram criados pelos pesquisadores, tais como, corpo bioplasmático, campos estruturadores da forma, corpo energético,corpo de plasma biológico, modelo organizador biológico, etc.

Diante de toda essa parafernália terminológica, temos que dar razão a Allan Kardec, quando na introdução de “O Livro dos Espíritos”, escreveu estas primeiras palavras:

“Para as coisas novas necessitamos de palavras novas, pois assim o exige a clareza de linguagem,para evitarmos a confusão inerente aos múltiplos sentidos dos próprios vocábulos.”

Foi por isso que Allan Kardec criou uma palavra nova para falar de uma coisa antiga, e isso se torna patente, na perg. 93, nela inserindo o “como pretendem alguns”. Senão vejamos:

“O Espírito propriamente dito vive a descoberto, ou, como pretendem alguns, é envolvido por alguma substância?

- O Espírito é envolvido por uma substância que é vaporosa para ti, mas ainda bastante grosseira para nós; suficientemente vaporosa, entretanto, para para que ele possa elevar-se na atmosfera e transportar-se para onde quiser.

Daí conclui Kardec:

“Como a semente de um fruto é envolvida pelo perisperma, o Espírito propriamente dito é revestido de um envoltório que, por comparação, se pode chamar ‘perispírito’.”

Assim sendo, temos peri + espírito que quer dizer o seguinte:

“Peri” – elem. Comp., do grego perí “movimento em torno” “acerca de, ao redor de”.

(Publicado no CORREIO FRATERNO DO ABC, Ano XXXII, Nº 336, Janeiro de 1999).