O membro fantasma

Bernardino da Silva Moreira

Foi o médico norte-americano Silas Weir Mitchell que cunhou a expressão “membro fantasma” depois da Guerra Civil. Ainda não havia, naquela época, os antibióticos, daí as amputações de milhares de membros infectados pela gangrena e muitos soldados voltavam para casa com membros fantasmas.

O cirurgião francês Ambroise Paré (1509-1590) considerado o “pai da cirurgia moderna”, 1 também foi testemunha da persistência da sensação em membros depois de amputados.

Depois de perder o braço direito em um ataque que não deu certo a Santa Cruz de Tenerife, Lord Nelson (1758-1805] sofreu dores terríveis no membro fantasma com a inconfundível sensação de dedos se fincando na palma da mão inexistente. Essas sensações fantasmagóricas levou o ilustre almirante dizer que o membro fantasma era “uma prova direta da existência da alma.” 2 Se um braço pode existir depois de retirado, por que a pessoa inteira não pode sobreviver à aniquilação física do corpo?

O ilustre pensador e Codificador Espírita Allan Kardec vem ao encontro do notável almirante britânico, ratificando e complementando:

“O perispírito é o laço que à matéria do corpo prende o Espírito, que o tira do meio ambiente, do fluido universal. Participa ao mesmo tempo da eletricidade, do fluido magnético e, até certo ponto, da matéria inerte. Poder-se-ia dizer que é a quintessência da matéria. É o princípio da vida orgânica, porém não o da vida intelectual, que reside no Espírito. É, além disso, o agente das sensações exteriores. No corpo, os órgãos, servindo-lhes de condutos, localizam essas sensações.” 3

E mais adiante volta a esclarecer:

“Do mesmo modo, se o Espírito não tivesse perispírito, seria inacessível a toda e qualquer sensação dolorosa.” 4

Segundo o neurologista V. S. Ramachadran não são apenas pernas e braços fantasmas, há muitos casos de seios fantasmas em muitas pacientes que sofreram uma mastectomia radical (retirada da mama). O renomado neurologista registra também um caso de apêndice fantasma onde o paciente se recusava a acreditar que o cirurgião o tinha retirado devido as dores que persistiam.

O neurocirurgião norte-americano Wilder Graves Penfild (1891-1976) durante as décadas de 1940 e 1950, estabeleceu uma distribuição topográfica detalhada das áreas sensoriais e motoras do cérebro, isto é, um mapa desenhado com informações compiladas de cérebros humanos reais. Penfild fez várias cirurgias de cérebro em pacientes sob anestesia local e como em muitas vezes grande parte do cérebro ficava exposta durante a operação, ele aproveitava a oportunidade para fazer experiências que nunca tinham sido tentadas antes. Estimulando regiões específicas dos cérebros de pacientes com um eletrodo e simplesmente perguntando o que sentiam, Penfild trouxe a tona todos os tipos de sensações, imagens e lembranças, e as áreas do cérebro puderam ser mapeadas. Penfield descobriu surpreso que a área envolvida com os lábios ou com os dedos, ocupava tanto espaço quanto a área envolvida com todo o tronco do corpo e concluiu que assim seria porque os lábios e os dedos são altamente sensíveis ao toque e capazes de discriminação muito apurada, enquanto o tronco seria menos sensível. Muito bem!

Essas questões levaram Tim Pons e seus colegas a entrarem na pesquisa:

“Sua estratégia foi registrar sinais dos cérebros de macacos que tinham sido submetidos a uma rizotomia dorsal – um procedimento em que todas as fibras nervosas que transportam informações sensoriais de um braço para a medula espinhal são completamente cortadas. Onze anos depois da cirurgia, eles anestesiaram os animais, abriram seus crânios e fizeram registros a partir do mapa somatossensório. Como o braço paralisado do macaco não estava enviando mensagens ao cérebro, não se esperava registrar quaisquer sinais quando você tocasse na mão inútil do macaco e registrasse a partir da “área da mão” no cérebro. Deveria haver um grande nesga de córtex silenciosa correspondente à área afetada.

De fato, quando os pesquisadores bateram na mão inútil, não houve nenhuma atividade nesta região. Mas, para sua surpresa, eles descobriram que, quando tocaram no rosto do macaco, as células cerebrais correspondentes à mão “morta” começaram a se excitar vigorosamente. (O mesmo aconteceu com as células correspondentes à face, mas isso já era esperado.) Aparentemente, a informação sensorial da face do macaco não somente ia para a área da face no córtex, como aconteceria num animal normal, mas também tinha invadido o território da mão paralisada!” 5

O Dr. Ramachadran resolveu também embarcar na pesquisa e descobre no rosto de Tom (um de seus pacientes com membro fantasma), um mapa completo da mão fantasma e concluiu que a maneira de explicar o toque, que gerou sensações na mão fantasma numa área tão distante do tronco (o rosto), seria no mapeamento peculiar das partes do corpo no cérebro, como rosto se localizando logo abaixo da mão.

Não satisfeito o Dr. Ramachadran continuou a explorar a superfície do corpo de Tom. Quando tocava seu tórax, o ombro direito, a perna direita ou a parte inferior das costas, ele tinha sensações apenas nesses lugares e não no fantasma. Mas pesquisa vai, pesquisa vem e o Dr. Ramachadran descobri um segundo e bem traçado mapa de sua mão desaparecida, agora na parte superior do braço esquerdo, acima poucos centímetros da linha da amputação. Quando tocava a superfície da pele deste mapa no braço de Tom, o Dr. Ramachadran provocava sensações localizadas precisamente em cada dedo. Uau!

Não demorou muito e o neurologista italiano, Dr. Salvatore Aglioti descobriu que muitas mulheres submetidas a mastectomia radical sentiam nítidos seios fantasmas. Procurando por respostas ele resolve pesquisar e descobre que estimulando regiões adjacentes no tórax, isto é, partes do esterno e da clavículas, produzia sensações no mamilo do seio fantasma.

A causa destes fenômenos não é o cérebro, como querem os acadêmicos reducionistas e sim o Espírito via perispírito. Com a palavra Allan Kardec:

“...Ora, não sendo o perispírito, realmente, mais do que simples agente de transmissão, pois que no Espírito é que está a consciência, lógico será deduzir-se que, se pudesse existir perispírito sem Espírito, aquele nada sentiria, exatamente como um corpo que morreu.” 6

Lamentamos profundamente pelo descaso dos neurocientistas que pensam que o cérebro é tudo. As vezes parecem mágicos tentando tirar da cartola não apenas coelhos, mas sim, o segredo da vida. Outras vezes parecem malabaristas e com contorcionismos mentais tentam agradar a gregos e troianos. Parece que agora temos uma neofrenologia!

Mais uma vez vamos ao encontro de Kardec, para ouvir suas advertências:

“Tomando em consideração apenas o elemento material ponderável, a Medicina, na apreciação dos fatos, se priva de uma causa incessante de ação. Não cabe, aqui, porém, o exame desta questão. Somente faremos notar que no conhecimento do perispírito está a chave de inúmeros problemas até hoje insolúveis.” 7

Vale a pena lembrar que no fenômeno da amputação o que é cortado ou retirado é a parte física do corpo. A chave para explicação dos membros ou sensações fantasmas, é o perispírito e fim papo!

Bibliografia: