A ordem dos fatores (I)

Helda Suriam Rozembergh

...O aprimoramento do homem através de crenças espiritualistas só começou a emergir
quando ele descobriu o fogo. Esta descoberta, que remonta ao homem primitivo das cavernas,
permitiu que se acendesse também uma outra chama, a da divinização....

Qual é a ordem exata dos três fatores que compõem a nossa Doutrina? Ciência, Filosofia e Religião, ou Filosofia, Religião e Ciência? Há ainda quem se refira a essa ordem colocando a Religião como primeiro fator, deixando a temática científica em último lugar dentro da formação do tríduo.

Para que este assunto possa pelo menos ser analisado mais generalizadamente, necessário se torna a realização de um estudo mais suscinto de todos os seus componentes, a fim de que os pormenores envolvendo essa colocação possam ser interpretados de acordo com a lógica e proporcionalmente imparciais às suas naturais características, respeitadas as devidas conotações materiais, espirituais e demais compostos formatizadores.

Através da ótica universalista, aquela que interpreta a realidade pura da Criação Divina e toda a sua Natureza, expressada amplamente pelos espíritos nos compêndios codificados e integrantes da Doutrina dos Espíritos, o que vem em primeiro na escala tridual é a Ciência, pois foi por meio dela que tudo começou, tendo se estabelecido o princípio inteligente ativo. A fase filosófica e religiosa é uma seqüência desse acontecimento primeiro. A Filosofia surge sempre após eventos científicos, como conseqüência de uma necessidade conciliadora e até disciplinadora de normas e condutas humanas em face de um fato inusitado, inovador, alternativo e que terá que ser absorvido pela sociedade. O papel fundamental da ciência filosófica nesse momento é o de facilitar o entendimento do ser humano, e, ao mesmo tempo, alertá-lo para as conseqüências dos erros que possam vir ser cometidos pelo mau uso dessa ciência colocada à disposição da humanidade para o seu progresso social, intelectual e moral. Fazendo uso indevido dela, fica o homem a mercê de suas Leis implacáveis, regidas pelos movimentos de Causa e Efeito; Ação e Reação, que enquadra todos os excessos do livre arbítrio e mantém sob rígido controle todo a imensa estrutura do Universo infinito, onde o amor é peça chave e principal, regendo o elo da Criação Suprema.

Para uma apreciação mais suscinta, torna-se de suma importância a decorrência destes três módulos, Ciência, Filosofia e Religião através desta ordem já delineada pelo Professor de Lyon Allan Kardec, que, intuitivamente, resolveu dispor estas três palavras dentro da seqüência mencionada, que todos os confrades muito bem conhecem.

CIÊNCIA.

O aprimoramento do homem através de crenças espiritualistas só começou a emergir quando ele descobriu o fogo. Esta descoberta, que remonta ao homem primitivo das cavernas, permitiu que se acendesse também uma outra chama, a da divinização. O endeusamento do fogo foi o início de tudo, e com ele vieram numa outra escala de sucessão, novas descobertas científicas, que acabaram criando concomitantemente uma série de outras curiosidades introdutivas à ciência, como o olhar as estrelas, o Sol, a chuva, os raios com seus trovões e assim sucessivamente todo o grande e harmônico conjunto da natureza. A ciência, por assim dizer, foi a precursora da religiosidade e posteriormente da filosofia. Pode-se dizer que a descoberta pelo homem primitivo de que poderia obter grandes vantagens com o uso do fogo, influiu de tal modo no progresso da humanidade, que hoje figura ao lado de outros elementos tão importantes como a linguagem, a escrita e as primeiras noções sobre o cultivo da terra. Até nossos tempos atuais, o fogo ainda se constitui em objeto simbólico de adoração e muitas crenças religiosas, ditas até modernas, não concebem afastá-lo de seus cultos, simbolizando ele a matéria principal e inequívoca presença que faz o ser humano recordar o seu passado longínquo, aborda também o mistério das origens e o símbolo da sobrevivência, tanto da matéria como do espírito. Sem o fogo o homem não teria conseguido sobreviver às muitas transformações por que passou a Terra, como ondas de frio, chuvas e escuridão; com o fogo pôde haver aperfeiçoamento no sistema de preparação de alimentos, propiciando ao corpo uma melhor absorção e assepsia. Além do que, o fogo inspirou o homem a meditar, a transcendentalizar-se e a buscar resposta para certos fenômenos que ele começou a perceber acontecerem ao seu redor, como a sensibilidade, a intuição, e até a presença dos mortos, que ele passou a venerar e a respeitar. Enfim, o fogo é um fenômeno científico tão comum, que dificilmente existirá um ser humano que com ele não esteja familiarizado.

As primeiras grandes contribuições documentadas sobre conhecimentos científicos datam dos gregos.

Em conseqüência, os maiores filósofos da história também são gregos. Essas contribuições são, em sua maior parte, observações de natureza qualitativa, e as explicações para os fenômenos naturais verificados envolvem argumentos de natureza filosófica com muitas abordagens estético-matemática.

A influência do pensamento grego influiu tanto, que ainda hoje, diante das complexidades dos estudos que estão sendo desenvolvidos, prefere-se aliar a ciência à filosofia, como forma de amenizar o que não se consegue explicar só pela ciência. É por isso que em muitas ocasiões, a filosofia tenta atropelar a ciência-espírita, forçando a sua secundarização dentro da Doutrina, visando até atender a interesses bizarros, como fortalecer a idéia de Jesus fluídico lançada por Roustaing e apoiada pela atual direção da FEB.

(Continua na próxima edição)

(Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 365 de Junho de 2001)