Grupo de desobsessão

Mario Franco

Se o Espiritismo é a doutrina que prevê o intercâmbio com o mundo espiritual, todo problema de inter-relacionamento com os espíritos deve ser analisado e tratado no meio espírita. Ora, observa-se que os casos de obsessão espiritual persistem em todos os níveis espíritas, além naturalmente de sua proliferação fora do circuito espírita. Porém não se fala em atualizar e criar novos grupos de desobsessão, com a finalidade de tratamento da obsessão espiritual.

Toda casa espírita que se preza deveria ter um grupo de desobsessão, fechado e restrito, formado por um pequeno número de médiuns reconhecidamente experientes, escolhidos com o critério do bom senso, para a delicada tarefa de conscientização e esclarecimento do espírito obsessor, por via da palavra oral. Deve-se evitar o crescimento exagerado do grupo de desobsessão, para não se tornar heterogêneo, fugindo das características de um grupo especializado para o tratamento da obsessão espiritual.

Além das controvérsias doutrinárias no meio intelectual espírita, verifica-se que os trabalhadores da seara também não se entendem quanto à melhor forma de trabalho prático. Ora, torna-se difícil encontrar um denominador comum no sentido de nortear uma lógica clara para o tratamento da obsessão, porque surge uma série de idéias contraditórias, preconceitos religiosos e opiniões sempre vinculadas a conselhos de certos espíritos em determinadas obras mediúnicas.

De modo que, ao se admitir, no meio espírita, que os espíritos possam isoladamente resolver tudo, a participação do trabalhador da seara espírita nas atividades de intercâmbio mediúnico ficou muito reduzida, a ponto de considerar-se um mero instrumento passivo, inclusive no caso específico de um necessário trabalho de suporte no tratamento da obsessão. Tudo parece identificar-se com um fundo de catolicismo, contido na maioria das obras mediúnicas.

Penso ser oportuno refletir melhor sobre o assunto, pois tudo indica tratar-se de um equívoco, por força de uma mentalidade predominantemente religioso que se instalou no meio espírita, levando a acreditar-se na infalibilidade dos espíritos protetores ou superiores, o que seria uma nova forma de crença em milagres. Trata-se de uma postura que se assemelha ao dogmatismo católico, que considera infalível a proteção dos santos canonizados.

Estou certo de que esse tipo de constatação abala profundamente os alicerces da crença religiosa que alcançou a maioria dos espíritas. No entanto se torna imprescindível repensar a dimensão do trabalho da seara espírita. Não basta entregar aos espíritos a responsabilidade pessoal de curar os obsediados e a tarefa de "limpar" o ambiente espiritual no seio das respectivas famílias, como se, num passe de mágica, tudo pudesse ser resolvido através de uma força estranha, inatingível ou milagrosa.

Penso que as atividades dos espíritas não se poderia restringir apenas à simples assiduidade nas reuniões doutrinárias, aos passes mediúnicos, às preces de louvor e ao trabalho de evangelização. Torna-se inadiável caminhar para um trabalho de busca daqueles que passam por graves problemas espirituais, procurando uma forma de reuni-los, com a maioria de seus familiares, dentro da própria casa espírita, que aliás deveria permanecer aberta por mais tempo, no sentido de permitir as tarefas de reeducação fraterna e apoio espiritual específico à família do paciente obsedado.

Observa-se que, por falta de melhor compreensão da essência dos ensinamentos contidos no primitivo Cristianismo, a maioria dos lares passa atualmente por profunda crise de convivência, enquanto a violência e a injustiça social se alastram por conta da negligência e corrupção no meio político. Ora, os casos de obsessão espiritual constituem um fator agravante de desarmonia e infelicidade, porque envolvem situações de desajustes comportamentais entre os próprios membros dessas famílias, por desconhecerem a natureza dos mecanismos de inter-relação com o mundo espiritual.

Portanto, tenho a convicção de que se poderia desenvolver um novo tipo de trabalho espírita em conjunto com a espiritualidade, no sentido de socorrer espiritualmente a família do paciente obsedado. Seria um trabalho de convivência fraterna dentro da própria casa espírita, onde todos ali reunidos pudessem manifestar os seus sonhos, idéias, opiniões e problemas espirituais e existenciais, de modo que tudo pudesse ser enfocado e analisado à luz do Espiritismo, num ambiente de fraternidade, esperança e alegria, conforme preconizado no seio do primitivo Cristianismo.

(Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 361 de Fevereiro de 2001)