Jesus louro e de olhos azuis? É possível?

José Benevides Cavalcante

Várias vezes me surpreendi - preocupado com as imagens de Jesus aproveitadas para ilustrarem livros, "posters" e cartazes de eventos espíritas. Cheguei a comentar a respeito com alguns companheiros, mas, ainda não havia escrito nada a respeito.

Surgiu, entretanto, a oportunidade de manifestar publicamente essa preocupação, face à recente divulgação do trabalho do Dr. Richard Neave, que teve a coragem de dizer ao mundo que a compleição física de Jesus não podia se parecer com aquelas que os artistas da Renascença pintaram e esculpiram para a Igreja. O porte físico do Cristo, imaginado nos séculos XVI e XVII, nada tem de judeu semita, mas, sim, de europeu ariano, pois eram os europeus que mandavam no mundo e, para eles, tudo o que havia de bom na raça humana tinha que obedecer aos seus padrões étnicos.

Antes da 2ª Guerra Mundial, o nacionalista Paul Lagarde, passou a divulgar na Alemanha a tese de que Jesus tinha sido um judeu ariano da Galléia, perseguido e sacrificado por judeus semitas da judéia. Convencia assim seus compatriotas de que Jesus não podia descender de um povo do deserto, culturalmente pobre, de tez e olhos escuros - os semitas - mas provinha da raça superior dos nórdicos, cujas características faciais exibem traços nobres e bem delineados, pele, olhos e cabelos claros Esse movimento nacionalista, envolvendo um valor religioso de profundo significado para a fé popular, é tido como precursor do nazismo, uma vez que, acusando os semitas de perseguidores e algozes de Jesus, propunha na época o exílio de todos os judeus da Alemanha para a Ilha de Madagascar, na África. Com habilidade e perspicácia, não foi difícil realimentar um velho preconceito racial e religioso, a partir de uma justificativa apoiada na fé. Claro que essa teoria, sem base científica, teve grande repercussão no espírito da massa e contribuiu para que os judeus alemães passassem a ser vistos como descendentes de uma raça maldita, desencadeando contra eles todo o ódio que se misturou aos horrores da guerra, numa das mais vergonhosas e sangrentas exterminações raciais de que já tivemos notícia. Tudo em nome de Jesus!...

Não foi por mero capricho ou somente para dar uma dose maior de humor à sua obra que Ariano Suassuna, em "O Auto da Compadecida", apresentou um Jesus negro, causando impacto, e até mesmo risos nas platéias. O artista, se integrado em valores humanos universais, através de sua rara sensibilidade, lê na alma do povo seus reais anseios e necessidades, e compreende que precisa quebrar todos os ídolos e tabus que, através dos tempos, se detiveram apenas nas aparências, disseminando valores que atenderam às conveniência da classe opressora. Mas, se por um lado, é fácil erigir um preconceito, como fez Lagarde em relação aos judeus, por outro, difícil é conseguir demoli-lo principalmente porque esse câncer, enraizado na mente humana, alimenta- se da acomodação e da alienação de suas próprias vítimas.

Por isso, a imagem da cabeça de Jesus construída por Richard Neave, através de um processo científico de levantamento do biótipo do judeu no século 1º não podia deixar de causar espanto, indignação e decepção em muita gente e até mesmo nos espíritas, como vimos pelo artigo "Retrato de Jesus", publicado na edição de maio do CORREIO FRATERNO.

Apesar de Neave ser especialista em reconstrução forense da Universidade de Manchester, Inglaterra, e, por isso mesmo, de não estar jogando dados aleatoriamente, mas buscando a verdade através de processos confiáveis, a idéia arraigada na mente coletiva ainda é de que Jesus realmente foi um ariano, um homem branco, alto e, se possível, de cabelos louros e olhos azuis, sempre impávido e limpo, a deslizar suavemente pelos desertos da Galiléia. A doutrina da superioridade da raça, inculcada na mente popular através dos tempos pela predominância do europeu na civilização, entra aqui de forma inequívoca roubando da religião aquilo que ela tem de mais elevado e sublime, que é o princípio de que todos os homens são iguais perante Deus.

Os espíritas, pelos ideais que dizem defender, não podem compactuar com este preconceito, e se tiverem que optar entre o que os renascentistas imaginaram e a tese científica de Richard Neave, certamente ficarão com a ciência, creio eu.

(Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 366 de Julho de 2001)