O incerto vôo da águia ferida

Semyramis Gomes de Albuquerque

O mundo ainda está chocado por causa da tragédia que atingiu os Estados Unidos no dia 11 de setembro. Foi uma barbaridade sem precedente na História. Aviões lotados de passageiros foram seqüestrados dentro do próprio Estados Unidos e logo foram impiedosamente arremessados contra prédios, onde trabalhavam milhares de criaturas americanas e estrangeiras. O assombroso saldo de mortos e feridos nos dá a dimensão. exata do terror praticado por esses camicases modernos, em nome de um radicalismo político inaceitável. E, agora, o mundo está diante de uma expectativa incerta. O futuro do mundo depende do vôo que a águia ferida irá realizar. Poderemos ter, ou não, uma terceira guerra mundial, pois já não há dúvida de que o nosso planeta é hoje uma aldeia globalizada. A ferida aberta num país, como os Estados Unidos, logo é sentida pelas nações parceiras.

No caso em tela é necessário que se tenha muita cautela para tomar qualquer atitude. É preciso que se ponha a inteligência para funcionar antes da força. Que não se deixem os Estados Unidos sair por aí, jogando bombas em países suspeitos de darem guarida a terroristas internacionais, pois, na verdade, nenhum país assumiu abertamente a culpa pelo atentado terrorista que destruiu o World Trade Center e uma boa parte do Pentágono. Punir os responsáveis é preciso, mas punir civis que, em geral, nada tem a ver com terrorismo não será uma atitude correta. Contudo, este perigo está se desenhando no seio do mundo político norte-americano. As diversas manifestações de seus atuais e ex-governantes revelam essa intenção. Os discursos eivados de ódio e desejo de vingança tem o mesmo tom e a mesma coloração: "Foi um ato de guerra perpetrado contra os Estados Unidos, que precisa uma resposta ampla, enérgica e definitiva." Henry Kissinger, o mais qualificado entre os políticos manifestantes, sintetizou esse consenso. Para ele, foi uma ação integrada. Não adiantaria apenas um golpe retaliatório. "Quem fez isso tem recursos substanciais, organização e apoio."Não bastaria caçar e punir os terroristas. Os Estados Unidos têm que neutralizar os governos que abrigam ou encorajam o terrorismo internacional”.

Como se vê, o orgulho ferido transtorna até as mentes mais esclarecidas que passam a alimentar e a insuflar o desejo de vingança a qualquer custo.

Ninguém dentro do mundo político norte-americano parece interessado em se perguntar: "Por que fomos atacados com essa virulência? Será que temos despertado aí pelo mundo afora ódios tão tenebrosos, que levam alguns homens a pensarem que têm o direito de nos agredir dessa maneira? Não será essa tragédia resgate cármico, por resposta às duas bombas atômicas que jogamos sobre o Japão, , e dizimamos milhões de criaturas? Não será isso uma resposta amarga aos embargos econômicos e às guerras que temos feitos ou simplesmente alimentado? Será que não temos de olhar pó outro ângulo os acontecimentos do mundo? Será que só o nosso ponto de vista é correto? Será que uma violência justifica outra?"

A retaliação norte-americana, seja bélica ou apenas de ordem econômica, não extinguirá o terrorismo internacional, mas trará, não tenhamos dúvidas, muitos desconfortos ao mundo globalizado.

Assim sendo, convém que os governantes mundiais analisem com muita atenção e cautela o vôo da água ferida.

Olhemos agora o reverso dessa tragédia, que me parece positivo: a demonstração de ardente patriotismo do povo norte-americano é surpreendente. O sentimento de solidariedade que esse povo demonstrou também é algo extraordinário e exemplar. Milhares de voluntários vindos de várias partes do país acorreram incontinente para os locais, em que se consumou a tragédia com o objetivo de ajudar no resgate das vítimas. Igualmente vimos o mundo consternado e solidário com os Estados Unidos. De Norte a Sul, de Leste ao Oeste o injurioso ato terrorista foi condenado. Este lado bonito dessa indesejável ocorrência é que deveria ter sido destacado pelos holofotes da mídia internacional, mas infelizmente num mundo acostumado com os escarcéus o bem não dá "IBOPE". Se o mundo quer paz é preciso lembrar que o seu maior investimento não deve ser em estratégias e materiais bélicos. Pois a nação melhor preparada nesse sentido acaba de ser atacada por um punhado de homens armados com canivetes. O melhor que o mundo pode fazer é procurar melhorar o homem moralmente.

Urge a necessidade de se equipar o homem com os valores morais, porque somente o homem preparado moralmente poderá implantar no mundo uma política sadia, sem preconceitos de raça, de credos religiosos, ideológicos etc. Só esse homem poderá desenvolver uma política internacional que enseje o desenvolvimento do amor entre os povos, e que leve os mais ricos a ajudar os menos favorecidos, que extingua, de vez, a exploração do homem pelo homem.

Essa meta, porém, não será atingida pelas religiões tradicionais que aí estão há milênios, sem conseguirem os objetivos previstos em suas cartilhas sagradas.

O Espiritismo, praticado segundo as regras de Kardec, sem o bolor de sacristia, tem tudo para ser esse instrumento educacional que poderá preparar esse novo homem que irá comandar a nova política internacional, a qual deverá trazer à tona valores esquecidos como estes: "Amai-vos como eu vos tenho amado "Ou este outro tão profundo quanto o primeiro: "O sândalo perfuma o machado que o fere". Esse será o verdadeiro homem de bem, que segundo a Doutrina Espírita, "é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e de caridade em sua maior pureza. Quando interroga sua consciência a respeito de seus próprios atos, pergunta-se não violou essa lei; se não fez o mal; se fez ao outro tudo o que queria que se fizesse por ele.

Ele tem fé em Deus, em sua bondade, em sua justiça e em sua sabedoria. Sabe que nada acontece sem sua permissão, e submete-se à sua vontade em todas as coisas.

Tem fé no futuro; é por isso que coloca os bens espirituais acima dos bens temporais. Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas as decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem reclamar.

O homem compenetrado pelo sentimento de caridade e de amor ao próximo faz o bem pelo bem, sem esperar retorno. Devolve o mal com o bem; toma a defesa do fraco contra o forte, e sempre sacrifica seu interesse pela justiça.

Ele se satisfaz com o benefício que espalha, com os serviços que presta, com os que torna felizes, com as lágrimas que seca, com as consolações que leva aos aflitos. Seu primeiro movimento é de pensar nos outros, antes de pensar em si mesmo, de ir atrás do interesse do outro antes do seu próprio. O egoísta, ao contrário, calcula os proveitos e as perdas de toda ação generosa. Ele é bom, humano, benevolente com todo mundo, sem distinção de raças nem de crenças, pois considera todos os homens como irmãos. Respeita no outro todas as convicções sinceras, e não lança anátemas àqueles que não pensam como ele. Em todas as circunstâncias, a caridade é seu guia. Os modelos educacionais e religiosos que vigem no mundo há séculos são arcaicos e insuficientes para formar esse homem de que o mundo precisa com urgência. Somente o Espiritismo, uma doutrina nova e inovadora, está apta para modelar esse homem de bem.

(Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 369 de Outubro de 2001)