Palestra espírita paga?

Geziel Andrade

No dia 12 de Maio de 2001, estava lendo o "Jornal de Vinhedo", (cidade onde resido), quando constatei um convite para os amantes da pintura mediúnica: uma médium estaria realizando, no dia 17, a partir das 19h30, num restaurante muito conhecido da cidade, (pela excelente gastronomia servida geralmente com bebida alcoólica), uma sessão espírita, para a qual as telas em branco seriam vendidas antecipadamente para depois serem pintadas de acordo com a necessidade espiritual de cada comprador. Ironicamente, a nota dizia que era uma oportunidade imperdível para um encontro com a alma. Porém, como o convite público não citava nem o nome da médium e nem envolvia nenhuma instituição espírita local, deixei o caso para lá.

Porém, no dia 2 de junho, ao estar lendo outra edição do citado jornal, constatei uma nota a respeito de uma palestra espírita que seria realizada, no dia 23 de junho, às 15h num Centro de Convivência, sobre o tema "Obsessão até quando?", com ingressos vendidos por R$ 3,00 nas Casas Espíritas. Tal fato chocou-me profundamente ao notar que só teria acesso a uma palestra espírita quem pudesse pagar a entrada.

Não tive a menor dúvida, liguei imediatamente para o telefone citado no convite para obter informações mais detalhadas a respeito. Foi então que a minha surpresa aumentou: tratava-se realmente de uma palestra espírita que seria realizada pelo conhecido médium Francisco do Espírito Santo Neto e que contava com a participação de três Centros Espíritas muito conhecidos na cidade. Além disso, fiquei sabendo que dos R$ 3,00, R$ 1,00 destinava-se ao pagamento dos custos da viagem do médium e orador e os outros R$ 2,00 (portanto, um lucro de aproximadamente 70%) destinavam-se ao caixa dos Centros Espíritas que estavam vendendo os ingressos.

Não me contive: "soltei os cachorros" nos organizadores de tal palestra espírita paga. Porém, não consegui demovê-los de tal idéia, que a meu ver fere profundamente os princípios espíritas. Apenas, o que consegui foi que os organizadores criassem uma opção para os que não pudessem pagar os R$ 3,00: entregar na entrada 1kg de alimento não perecível (como se isto não fosse uma forma disfarçada de cobrança ou de pagamento).

Refletindo melhor sobre este fato, percebi "uma estratégia maligna": alguns dirigentes espíritas estão tirando dos Centros Espíritas certas atividades inerentes a eles, que devem ser realizadas e financiadas com recursos próprios para poderem cobrar dos participantes, com lucros, a entrada em tais eventos. Dessa forma, acham que não transgridem os ensinamentos de Allan Kardec contidos no Capítulo XXVI do "O Evangelho Segundo o Espiritismo": "Dar de Graça o que de Graça Receber".

Será que as ações de Jesus sobre os vendilhões expulsos do templo não estão mais sendo ensinadas e praticadas em alguns Centros Espíritas? Será que alguns espíritas ardilosos encontraram uma forma de contornar "a condenação do tráfico das coisas santas, sob qualquer forma que seja?"

Outro ponto que me pareceu uma ironia foi o tema da palestra: "Obsessão até quando?". Espero que o orador não tenha se esquecido de tratar de um tópico muito importante para alguns dirigentes de Casas Espíritas.

(Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 366 de Julho de 2001)