Pletora de tolices

Nazareno Tourinho

Gostaríamos que os irmãos de fé, ou de ideal, alheios ao detido exame de sutilezas filosóficas, considerassem a importância destes artigos versando sobre Deus, porque eles lançam luz em torno do problema doutrinário de maior magnitude para o Espiritismo, em terras brasileiras.

Com efeito, a falsa concepção do Criador da Vida que está se espalhando em nosso movimento ideológico, se não for combatida e detida em seu avanço infelizmente até então vitorioso, acabará destruindo pela base a crença que professamos. Em pouco tempo seremos, sem nos dar conta desse fato, espíritas agnósticos, não dizer ateus, pois negar à "inteligência suprema, causa primária de todas as coisas", os predicados ou atributos que a Codificação kardequiana lhes confere significa adotar uma postura mental materialista.

Francisco Cândido Xavier anos atrás fez-nos um interessante e oportuno alerta, proclamando:

- "Querem tirar Jesus do Espiritismo!"

Nós já avisamos alhures que a realidade é muito pior:

- Querem tirar Deus do Espiritismo!

Sim, porque Deus inteiramente despersonalizado, que se confunde com as leis da Natureza (toda lei é um princípio universal inflexível que age sempre de forma mecânica), um Deus sem vontade própria para se ocupar paternalmente, com sabedoria e amor, do direcionamento dos destinos humanos, um Deus, enfim, impassível diante de nossas dores e esperanças, é apenas uma figura de retórica, aliás de mau gosto, não é Deus nenhum, é uma fraude, uma mentira de quem, por orgulho inconfessável, rejeita o sentimento de religiosidade pura.

Veja agora o leitor em que pé (ou com que pés) andam os sofismas sustentadores do Espiritismo laico.

Na revista A Reencarnação mencionada em textos precedentes (N.º 407, editada pela Federação Espírita do Rio Grande do Sul no segundo semestre de 1993), o mais conceituado cientista das nossas fileiras, admirado pela sua imensa cultura e pelo seu nobre caráter, um homem realmente digno de apreço (sentimo- nos honrado em tê-lo como velho e generoso amigo), começa o seu escrito à página 12 encimando-o com esta frase de Albert Einstein:

"Deus é a Lei e o Legislador do Universo".

E se esmera em demonstrar que o inventor da teoria da relatividade nunca aceitou um Deus pessoal...

Outro cientista das nossas fileiras publicou no jornal A Voz do Espírito, edição de novembro de 1996, página 4, um trabalho no qual reafirma que a expressão "Deus é pai" tresanda a um clericalismo que nós espíritas deveríamos abolir, posto que, o conceito de paternidade não cabe às posições científicas dos seres e das coisas que, segundo os fundamentos energéticos, tem mesma origem..." (e por aí vai...).

Tal companheiro diz em outro texto de sua lavra estampado na edição de dezembro de 1996 do Jornal Espírita, também na página 4, que "Deus, o verdadeiro Criador do Universo, não intervém na vida das criaturas". (e novamente por aí vai...).

Para onde vamos nós, com tantas tolices?

(Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 357 de Outubro de 2000)