Chico Xavier - O Servidor

Nancy Puhlmann di Girolamo

Atribuem a Mark Twain a citação da seguinte frase: “Não gosto de elogios. Nunca acho que falaram o suficiente”.

Essa frase é pitoresca mas tem  autenticidade social.

Diante de pessoas que realmente respeitamos, os qualificativos elogiosos são descabidos e, mesmo, impossíveis.

Vemos em Chico Xavier - homem, médium e obra - um modelo atual concreto para a escalada humana de evolução, sobre base evangélica à luz do Espiritismo.

Sentimos Chico Xavier sintetizando esse modelo no seu característico de servidor. Veio à Terra nesta existência preparado para servir conscientemente e está conseguindo realizar essa meta, em todas as direções.

Não encontramos, em nosso pensamento, nada mais respeitável do que isso.

A primeira prestação de serviços à humanidade, feita pela Doutrina Espírita, foi a revelação dos Espíritos tornada patrimônio da cultura humana através do trabalho do Codificador.  Nela, a síntese do conhecimento, o básico ponto de referência, formulado de modo a se colocar ao alcance e à disposição de todos.

O amor evangélico apresentou novas variações de aplicabilidade, abrindo campo aos servidores sem fronteiras.

Conseqüentemente surgiu a possibilidade - enfim - de participação plena de todos os envolvidos na Terra, encarnados e desencarnados, ajudando-se mutuamente na escalada comum, através da união de esforços e da permuta de experiências.

O Brasil foi sendo chamado: o país da mediunidade e Chico Xavier, o homem simples e bom de Pedro Leopoldo, ficou considerado o mais querido e o mais respeitável dos médiuns brasileiros.

Médium desde criança, não aceitou passivamente a mediunidade como quem se deixa usar.

Afirma que, diariamente, desde a adolescência, estuda e reestuda Jesus e Kardec. Coloca-se à disposição dos desencarnados dentro da mais exata e completa adequação aos princípios kardequianos.

Recebeu milhares de mensagens e centenas de livros e continua ainda no mesmo ritmo de serviço, sem dar importância à sua deficiência visual, ao cansaço das mãos e à debilidade de sua saúde.

Diz: “Todo o trabalho dos livros se deve apenas à bondade do plano espiritual”.

À luz dos esclarecimentos espíritas o que ele diz é certo.  Embora certo, é incomum e desconcertante diante dos hábitos de acomodação e das omissões ao serviço que cada um deve prestar na Terra..

Ele tem dito que se esforça continuamente para viver de acordo com os princípios que aceita.

Essa é uma afirmação muito lógica e até bastante freqüente.  A diferença é que ele tem conseguido pleno resultado.

Sem nenhum artificialismo nem falsa modéstia disse várias vezes: “Sou menos que um grão de areia”, e o disse com acerto porque é isso mesmo que cada ser é, em relação ao universo do Criador.

A maioria dos homens se casa e gera filhos, aprendendo por esse meio a transitar do egocentrismo para a expansão, através da interdependência e da afetividade familiar.

Algumas vezes ele repetiu que seus filhos são os livros. Pensamos que teve de fazer uma opção, E fez essa, para felicidade nossa.  Ao contrário da maioria, que limita suas doações sob critério de consangüinidade, os “filhos” desse “pai” são doados à humanidade sem quaisquer limites ou discriminações.

Pelos seus livros, traduzidos em vários idiomas, tornou-se uma pessoa célebre e, inevitavelmente, um homem de notoriedade pública, requisitado pelos meios de comunicação e de cultura de seu país e de países estrangeiros.

Denominaram-no: paranormal, homem-psi, santo, portador de fenômenos do próprio inconsciente ou do inconsciente coletivo, etc.,etc.

Estudaram seu eletroencefalograma, observaram se seus olhos permaneciam fechados durante as psicografias, compararam letras, estilos e notícias, levaram seus livros até aos tribunais, tentaram testes comuns da recém-nascida parapsicologia, intencionando medir a existência ou não de capacidades determinadas, etc.,etc.

Chico Xavier permaneceu sempre o mesmo, diante de qualquer circunstância: um médium espírita a serviço das necessidades humanas.

Seu exato posicionamento se afirmou no seu próprio depoimento: Um  humilde servidor da doutrina codificada por Allan Kardec.

Convidado, atendeu às solicitações - a todas permitidas pela sua agenda de serviços - algumas vezes “para não ser descortês com amigos”.

Através de suas entrevistas públicas, dos diálogos abertos e de suas atividades, sempre homogêneas entre si, Chico Xavier se expôs como pessoa e pôde-se perceber nele a exemplificação viva do conteúdo de suas psicografias.

Alguns comentaram, durante as interrogações do povo: “Como podem ser feitas perguntas tão banais?” Foram comentários prematuros diante das suas respostas sábias que conseguiram encontrar o valor oculto como quem perfura um poço até achar água pura.

Quantos disseram, piedosa e ingenuamente: “Por que o sacrifício de sair da intimidade de seu grupo e do recolhimento na oração e na comunhão com os bons espíritos?”

Pensamos que a resposta é mais um decalque no seu característico de servidor. Coerentemente, fez o que devia e o que precisava ter feito.

O conteúdo de sua obra mediúnica não se destina somente ao esclarecimento teórico, à consolação dos que choram ou ao sonho de um mundo melhor.

Apresenta subsídios e bases para um plano concretizável, imperioso e urgente, se o que se busca é a paz e a felicidade.

Os homens precisam de idéias que se mostrem verdadeiras e tenham ilustrações vivas, para que não pareçam utópicas.

Em Chico Xavier não se percebe a mínima discrepância entre o homem, o médium e o conteúdo da obra. Esses três aspectos estão unificados na sua personalidade.

O “Livro dos Espíritos, em 1857 marca o primeiro impacto da doutrina espírita no século”, disse o Prof. J. Herculano Pires.

Pensamos que Chico Xavier, na sociedade atual, envolvida pela ansiedade, pela insegurança, pelo sofrimento e pela expectativa, representa absolutamente sem o desejar, um novo impacto.

Não se manifesta como se fosse a projeção das aspirações da época, tal como os líderes das várias áreas de expressão humana.  Ao contrário (daí o impacto), surpreende pela identificação das necessidades básicas partindo de direção oposta às direções costumeiras.

Sua vida, sua mediunidade e sua obra surpreendem porque são respostas inesperadas que, de repente, se tornam reconhecidas como as únicas verdadeiras.

Digamos melhor, traz identificações e respostas que ultrapassam as barreiras dos raciocínios comuns e atingem a raiz espiritual da vida interior. Ligam-se às causas fundamentais e então tudo fica clarificado. Voltam aos efeitos, modulando um novo estilo de vida que é o exatamente adequado às necessidades identificadas.

Esses característicos, a nosso ver, impedirão, a quem quer que seja, de o transformar, agora ou mais tarde, em um “mito”.

Os “mitos” não são pessoas. São partes da pessoa, qualidades, tipos de expressões supervalorizadas por grupos irrequietos, na época em que vivem. A preservação dos mitos está na medida em que se ocultam sob a capa dessas qualidades.

Interesses variados proporcionam as situações e comumente as criam, com descaso pela pessoa, que passa a viver dicotomizada.

Quando alguém tornado “mito” fica conhecido em seus outros aspectos, na vida familiar, no cotidiano, nos hábitos e nos pensamentos próprios, o “mito” pode cair como louça lançada ao chão.

Mais frequentemente, o passar do tempo os reduz às proporções de resquícios do passado e raramente ultrapassam uma década.

Nos tempos antigos, a mitologia concentrava símbolos que, de certa forma, enriqueceram a cultura e preservaram  valores dignos de nota.

Atualmente, o mito ligado a uma coletividade ou fechado em etnocentrismos só é explicado como reforço necessário para sustentar a insegurança.

No campo religioso, o fanatismo, a sofisticação externa, o ritualismo, o isolamento ou as atitudes místicas, podem abrir campo às  “mitificações”.

Chico Xavier não apresenta nenhuma relação com o assunto acima. Sua vida de homem e de médium encontra perfeita explicação inserida na sua identidade espírita.

Se “o pensamento é o homem” diremos que a doutrina codificada por Allan Kardec é que justifica a personalidade de Chico Xavier.

A sua capacidade de empatia, colocando-se no lugar do outro para compreender e desculpar sempre: a valorização de todas as  variedades, até as que nos parecem mais negativas; o autêntico respeito pela dignidade das pessoas e de suas funções; a indiscriminação total; a aptidão para descobrir a pérola na  rocha e a flor na lama; o equilíbrio de suas sublimações... tudo isso que, na verdade, poderiam caracterizar “um santo de nosso dias”, são  absolutamente coerentes com o programa de vida superposto aos princípios doutrinários do Espiritismo.

Dissemos que Chico Xavier é um impacto para a nossa sociedade porque  mostra a ela uma nova concepção de vida.

Honestamente, achamos que é um impacto maior para o nosso meio espírita que, sendo capaz de compreender suas motivações, permanece tão arrastadamente aquém de sua exemplificação.  No dia 2 de abril Chico Xavier completou 90 anos de uma vida repleta de amor.

Nosso sentimento de gratidão é ilimitado e nossa homenagem ao emérito servidor excede a qualquer palavra.