Os herdeiros de Chico

Sônia Theodoro

Chico Xavier se foi. Mansamente, serenamente, como sempre viveu. Em noite de festa, de alegria, como um guerreiro que retorna da intensa batalha. A nossa festa, contudo, era outra. Nossos heróis expressavam outra luta. Não menos intrépida, pois resultante da disciplina no exercício do esporte e do amor à representatividade brasileira. Nessa noite, todos estávamos envolvidos com a bandeira verde-amarela.

Todos lembrávamos do Brasil querido, embora maltratado em sua diversidade, em suas matas, em sua fauna, em seu povo, com milhões de famintos de pão e de luz. Noite importante esta, pois nos fez lembrar como é bom ser brasileiro. Não se trata de nacionalismo doentio, de entusiasmo passageiro, da alegria esfuziante que busca uma forma de compensar as notícias graves e preocupantes do cotidiano. Mas daquela alegria que conduz à retomada das atividades e dos compromissos com mais certeza de que as coisas vão melhorar.

Contudo, essa mesma alegria conduz-nos à reflexão: ao ver pela TV as diversas cidades brasileiras, o homem, a mulher, o jovem, o idoso, o pobre, o rico, o mediano, refletimos sobre muitas coisas. A começar sobre o quanto este povo persevera na luta, embora os obstáculos; na constância do sorrir ante as perplexidades da existência; na competência de enfrentar com coragem e com espírito de partilhamento as inúmeras adversidades da existência, mas, sobretudo, na imensa aptidão para o amor.

Não foi ao acaso (aliás, acaso, segundo Téophile Gautier, é o pseudônimo de Deus quando Ele não quer assinar a Sua obra), que os Espíritos Superiores para cá conduziram a 3a. revelação cristã, corporificada na Doutrina Espírita. Contudo, é preciso refletir ainda mais. Sim, pois estamos na pré-história da regeneração de nossos Espíritos, portanto, esse amor latente precisa de cuidados. Algumas vezes receberemos a perda, a nos ensinar o desapego, a calúnia e a traição, a nos ensinarem a compreensão, veremos o escândalo, a nos ensinar a necessidade da ética, a dor e o sofrimento para desbastarem o diamante que jaz, bruto, em nós. Porém, receberemos também a presença dos Amigos da Humanidade que tomarão para seus corações, intensificado, potencializado pela ignorância, o nosso lado sombra personificado nos sentimentos citados. Estes, trarão em si, a Misericórdia, inerente aos grandes corações; a Humildade, peculiar àqueles que se reconhecem como eternos aprendizes da Vida; a Coerência no falar e no viver, atributo exclusivo aos reais Apóstolos da Verdade; a Compreensão, pois sem ela, revidariam prontamente à imensa pequenez dos atos humanos que se expressam, bastas vezes, através do revide e da vingança, pois estes "não sabem o que fazem"; a Sabedoria, que os torna luzeiros para as trevas em que jazem os sentimentos da humanidade; o Amor, pois sem ele, sabem que nada, nada seriam, visto que o contrário do Amor é o desamor, é a ausência do Bem, segundo Kardec, portanto, vacuidade que seria ocupada pelos atavismos de toda sorte.

Hoje, mais um Amigo da Humanidade se vai. Sentimo-nos vazios de sua presença amiga e carinhosa, mas séria e expressiva. Representante na Terra de milhares de Espíritos do Bem, cristaliza em nós a certeza de que somos seus herdeiros. Herdeiros do trabalho que nos compete realizar; das lutas interiores a travar; da tolerância para com os inimigos, da troca amorosa com os amigos e companheiros.

Temos, em nossa natureza, a perseverança não obstante os obstáculos - brasileiros, sim, todavia, não importa a nacionalidade mas a natureza do sentimentos que nos caracteriza.

Nacionalidades, instituições, partidos, são apenas rótulos. A nossa real natureza nos identifica perante a própria consciência.

Certamente, 30 de junho será lembrado como um dia de festas. Alegria maior estão os seus amigos, companheiros e mentores que certamente o recebem com o Amor que ele merece. O mesmo Amor que ele doou através do trabalho humilde, da paciência e da tolerância para com os maus, da compreensão para com o Império da Dor a escravizar as almas comprometidas com o passado obscuro; sobretudo, da imensa capacidade de assimilar Jesus - por isso compreendeu e distribuiu a todos, indistintamente, os seus potenciais e as suas conquistas.

Aqui, ficamos nós. E agora? É Emmanuel quem nos convida:

"Os apóstolos, em todas as grandes causas da Humanidade, são instituições vivas do exemplo revelador, respirando no mundo das causas e dos efeitos, oferecendo em si mesmos a essência do que ensinam, a verdade que demonstram e a claridade que acendem ao redor dos outros. Interferem na elaboração dos pensamentos dos sábios e dos ignorantes, dos ricos e dos pobres, dos grandes e dos humildes, renovando-lhes o modo de crer e de ser, a fim de que o mundo se engrandeça e se santifique. Neles surge a equação dos fatos e das idéias, de que se constituem pioneiros ou defensores, através da doação total de si próprios a benefício de todos. Por isso, passam na Terra, trabalhando e lutando, sofrendo e crescendo sem descanso, com etapas numerosas pelas cruzes da incompreensão e da dor.

Representando, em si, o fermento espiritual que leveda a massa do progresso e do aprimoramento, transitam no mundo, conforme a definição de Paulo de Tarso, como se estivessem colocados pela Providência Divina, nos últimos lugares da experiência humana, à maneira de condenados a incessante sofrimento, pois neles estão condensadas a demonstração positiva do bem para o mundo, a possibilidade de atuação para os Espíritos Superiores e a fonte de benefícios imperecíveis para a Humanidade inteira."

05-07-2002