Sim, Chico Xavier foi Kardec. E daí?

Alan Souza

Antes de mais nada, a todos que dediquem seu tempo para ler estas despretensiosas linhas, peço desculpas pela agressividade do título. Mas foi uma agressividade calculada, dessas sacudidas que às vezes levamos para despertar de um certo torpor – ou embriaguez, se assim quiserem – ao qual nos entregamos.

Continuando, digo logo que não pretendo defender nenhuma das duas correntes que se embatem – embora com educação e civilidade, como sói ser – na polêmica-tema do momento do Movimento Espírita: teria sido Chico Xavier a reencarnação de Allan Kardec, o genial Codificador de Lyon?

Digo, sim, e com todas as letras – perdoem-me a franqueza – que a discussão é estéril. Algo virtualmente impossível de se confirmar. E, por ser estéril, é perigosa e desgastante, como toda polêmica sempre é. Além do mais, do ponto de vista do avanço doutrinário, a perlenga é absolutamente inútil.

Iniciemos pela esterilidade da questão: o fato de ser Chico Xavier a reencarnação de Allan Kardec é algo de uma magnitude tão ampla que somente uma “investigação” espiritual muito séria e aprofundada poderia afirmar, sem sombra de dúvidas. Somente uma mensagem abalizada, de uma entidade espiritual de porte poderia atestá-lo. Nada contra nossos inúmeros irmãos que atuam, nos auxiliando no Mundo Espiritual. Mas informação dessa natureza, a causar tamanha comoção na Obra Espírita – como de fato tem causado – somente os Coordenadores da tarefa teriam autorização para fazê-lo. Lembremo-nos de que no Mundo Espiritual existe uma Ordem e uma Hierarquia tais que, a mais prefeita organização terrena é apenas um mero e muito imperfeito simulacro...

Avançando, diremos que a questão é inútil. Porque em nada nos acrescenta como Espíritas. Dá-nos a certeza da reencarnação? Não, nós já a tínhamos há muito. Dá-nos mais alento para prosseguir na caminhada? Não, esse alento nos é dado diariamente, pelas obras e pela lembrança não só de Chico Xavier, mas também de Yvonne Pereira, Hermínio C. Miranda, Herculano Pires, Batuíra, enfim, tantos irmãos conhecidos na Doutrina, e por tantos outros anônimos, que seria impossível referir ao menos à decima parte.

A certeza de que Chico Xavier seria Kardec reencarnado somente nos daria uma certeza a mais daquilo que o inesquecível médium das Geraes colocou no papel, através do espírito de Humberto de Campos: o Brasil é a Pátria do Evangelho. Mas, repito, seria apenas uma certeza a mais. Apenas colocaria mais um único tijolo no edifício de nossa fé raciocinada.

O próprio Chico, das resplandecentes regiões onde se encontra, deve estar docemente sacudindo a cabeça, de um lado a outro, com um sorriso de reprovação pela contenda em torno de sua pessoa. Ele, que dedicou boa parte da sua última existência a promover o Espiritismo, e a esquivar-se de qualquer homenagem pessoal, na sua infinita humildade, jamais aceitaria que se fizesse tanto barulho por isso, com irmão ilustres do Movimento mobilizando forças e esgrimindo artigos na imprensa espírita, de lado a lado, cada qual defendendo sua tese...

Aliás, toda vez que alguém levantava a hipótese de que Chico teria sido Flávia, a filha do senador Públio Lêntulo, curada da doença pelo Cristo, o médium mineiro recusava-se a confirmar tal fato, dizendo que o importante era o aqui e o agora, o esforço de cada um para sua própria melhoria e a busca do auxílio aos irmãos necessitados.

Se Chico foi ou não Kardec, isso não terá qualquer influência na obra colossal do Mineiro do Século, que nos legou uma coleção de livros de honrar qualquer doutrina religiosa, abordando os temas mais diversos, com caracteres científicos, filosóficos, morais e religiosos profundos e variados. Chico veio com uma missão, uma missão da qual se desincumbiu com perfeição, e que em tudo independeu de quem ele fora em suas vidas anteriores.

Chico Xavier veio para não deixar dúvidas. Para dar testemunho da mediunidade, escancarando as regiões onde vivem os espíritos à nossa insaciável sede do Divino. Psicografou cerca de 20 mil cartas dos desencarnados a seus parentes, mitigando dores e dando a todos o conforto, além de reforçar a necessidade da caridade – ajude e será ajudado, era seu bordão franco nesses casos.

Chico veio para converter as mais incrédulas e endurecidas inteligências, todas tão ensoberbecidas e inchadas de sí mesmas, veio para provar ao homem que o Além é logo alí, que o desencarne não demora e que, quando vemos, esta vida já passou, às vezes rápido demais para nossos relutantes e teimosos hábitos de perder tempo com coisas inúteis e discussões estéreis...

Que bom seria, para a Doutrina Espírita e para todos nós, se lembrássemos diariamente que Chico veio ao mundo para isso. Para nos consolar. Para nos reacender o sentimento de amor, humildade e renúncia. Para ilustrar o significado da palavra doação, quando aplicada ao próprio homem. Para nos instruir, através dos Espíritos Superiores. Para nos fazer mais felizes, por ele ter existido.

Que bom se todos pensassem que, quando veio ao mundo, Chico veio pensando exatamente nisso, e fez tudo isso sem se preocupar consigo mesmo. E olhem que ele veio sem olhar para trás...

(Advogado e Professor, Alan Lacerda de Souza tem 33 anos e é espírita há 15, em Belém/PA)