Afinal, De onde nos vêm as idéias?

José B. Campos

"As idéias me vêm à cabeça.
É isso que me deixa maluco!
De onde elas vêm?"

Meu pai, quando era "vivo", era católico fervoroso. Arrepiava-se todo, e até sofria calafrios, só de imaginar ver uma "alma" perto dele. Embora houvesse posto vinte delas no mundo.

Muita gente, em virtude dos dogmas humanos de suas crenças, têm o mesmo comportamento. Outros sequer se referem ao assunto, por cepticismo ou por não lhes convir. Isto, no entanto, não significa que essas pessoas sejam desprovidas de inteligência (que é uma faculdade do Espírito e constitui a sua individualidade moral), trata-se, apenas, da manifestação do instinto.

"O instinto independe da inteligência?

- Precisamente, não, por isso que o instinto é uma espécie de inteligência. É uma inteligência sem raciocínio. Por ele é que todos os seres provêem às suas necessidades." 1

"Pode-se estabelecer-se uma linha de separação entre o instinto e a inteligência, isto é, precisar onde um acaba e começa a outra?

- Não, porque muitas vezes se confundem. Mas, muito bem se podem distinguir os atos que decorrem do instinto dos que são da inteligência." 2

"O instinto é uma inteligência rudimentar, que difere da inteligência propriamente dita, em que suas manifestações são quase sempre espontâneas, ao passo que as da inteligência resultam de uma combinação e de um ato deliberado.

O instinto varia em suas manifestações, conforme às espécies e às suas necessidades. Nos seres que têm a consciência e a percepção das coisas exteriores, ele se alia à inteligência, isto é, à vontade e à liberdade." 3

Esclarecem-nos, ainda, os Espíritos Superiores, que o instinto também pode conduzir ao bem e algumas vezes nos guia com mais segurança do que a razão, porque jamais se transvia. Enquanto, à medida que crescem as faculdades intelectuais do homem, a razão pode ser falseada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo.

"Espírito é sinônimo de inteligência?

- A inteligência é um atributo essencial do Espírito." 4

"A inteligência é atributo do princípio vital?

- Não, pois que as plantas vivem e não pensam: só têm vida orgânica. A inteligência e a matéria são independentes, porquanto um corpo pode viver sem a inteligência. Mas, a inteligência só por meio dos órgãos materiais pode manifestar-se. Necessário é que o Espírito se una à matéria animalizada para intelectualizá-la." 5

"A inteligência é uma faculdade especial, peculiar a algumas classes de seres orgânicos e que lhes dá, com o pensamento, a vontade de atuar, a consciência de que existem e de que constituem uma individualidade cada um, assim como os meios de estabelecerem relações com o mundo exterior e de proverem às suas necessidades.

Podem distinguir-se assim: 1°, os seres inanimados, constituídos só de matéria, sem vitalidade nem inteligência: são os corpos brutos; 2°, os seres animados que não pensam, formados de matéria e dotados de vitalidade, porém, destituídos de inteligência; 3°, os seres animados pensantes, formados de matéria, dotados de vitalidade e tendo a mais um princípio inteligente que lhes outorga a faculdade de pensar." 6

No americano David Lynch, diretor de cinema, autor da frase em epígrafe, o instinto cientificara-o de que as idéias que se lhe chegavam à cabeça tinham origem extra-corpórea; a razão, ou inteligência, comprometida pela falta de esclarecimento espírita, quando questionara a procedência de tais idéias, e faltando-lhe respostas racionais, levara-o à loucura. No meu pai, todavia, o dogma obliterava a razão e o instinto.

A preexistência do espírito (conseqüentemente, a reencarnação também) foi abolida do cristianismo por imposição do Imperador Justiniano (acuado, ante a forte influência da esposa sobre si), no Sínodo de Constantinopla (em 543), cuja decisão (3 votos contra 2) foi anexada ao V Concílio Ecumênico de Constantinopla II (em 553).

Um sínodo só tem valor regional, e um concílio vale para toda a Igreja, por isso, foi feita a indevida anexação.

Interessante é o motivo pelo qual Justiniano intrometeu-se nos assuntos da religião, propondo um artigo de fé que fere a própria Justiça Divina:

Como Teodora, esposa do imperador, fora meretriz (e não, imperatriz), e aborrecida pelo fato de suas ex-colegas estarem sempre à lembrar tal honra, mandara matar quinhentos delas, provocando a revolta do povo, que passara a afirmar a necessidade da imperatriz ser assassinada em quinhentos reencarnações sucessivas, para pagar tal delito. Passando, Teodora, à odiar a doutrina da reencarnação.

Por determinação de Justiniano (que jamais fora justo), após o concílio, foram mortas mais de um milhão de pessoas (reencarnacionistas), só no Oriente Médio.

"Ora veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Antes que eu te formasse no ventre de tua mãe te conheci, e antes que saísses da madre de tua mãe te santifiquei e te estabeleci profeta entre as nações" 7

Jeremias narra, em seu livro, que o próprio Senhor afirmara de modo absoluto a preexistência do Espírito.

"Ora, Samuel já havia morrido, e todo o Israel o tinha chorado, e o tinha sepultado em Ramá, que era a sua cidade. E Saul tinha desterrado as necromantes e os adivinhos (como eram denominados os médiuns).

Ajuntando-se, pois, os filisteus, vieram acampar-se em Suném; Saul ajuntou também todo o Israel, e se acamparam em Gilboa.

Vendo Saul o arraial dos filisteus, temeu e estremeceu muito o seu coração. Pelo que consultou Saul ao Senhor, porém o Senhor não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas. Então disse Saul aos seus servos: Buscai-me uma necromante, para que eu vá a ela e a consulte. Disseram-lhe os seus servos: Eis que em En-Dor há uma mulher que é necromante.

Então Saul se disfarçou, vestindo outros trajes; e foi ele com dois homens, e chegaram de noite à casa da mulher. Disse-lhe Saul: Peço-te que me adivinhes pela necromancia (mediunidade), e me faças subir aquele que eu te disser.

A mulher lhe respondeu: Tu bem sabes o que Saul fez, como exterminou da terra os necromantes e os adivinhos; por que, então, me armas um laço à minha vida, para me fazeres morrer?

Saul, porém, lhe jurou pelo Senhor, dizendo: Como vive o Senhor, nenhum castigo te sobrevirá por isso.

A mulher então lhe perguntou: Quem te farei subir (comunicar-se)? Respondeu ele: Faze-me subir Samuel.

Vendo, pois, a mulher a Samuel, gritou em alta voz, e falou a Saul, dizendo: Por que me enganaste? pois tu mesmo és Saul.

Ao que o rei lhe disse: Não temas; que é que vês? Então a mulher respondeu a Saul: Vejo um deus que vem subindo de dentro da terra.

Perguntou-lhe ele: Como é a sua figura? E disse ela: Vem subindo um ancião, e está envolto numa capa. Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra, e lhe fez reverência.

Samuel disse a Saul: Por que me inquietaste, fazendo-me subir? Então disse Saul: Estou muito angustiado, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus se tem desviado de mim, e já não me responde, nem por intermédio dos profetas nem por sonhos; por isso te chamei, para que me faças saber o que hei de fazer.

Então disse Samuel: Por que, pois, me perguntas a mim, visto que o Senhor se tem desviado de ti, e se tem feito teu inimigo?

O Senhor te fez como por meu intermédio te disse; pois o Senhor rasgou o reino da tua mão, e o deu ao teu próximo, a Davi. Porquanto não deste ouvidos à voz do Senhor, e não executaste e usou o furor da sua ira contra Amaleque, por isso o Senhor te fez hoje isto.

E o Senhor entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus. Amanhã tu e teus filhos estareis comigo, e o Senhor entregará o arraial de Israel na mão dos filisteus." 8

Esse relato, extraído da Bíblia, demonstra a veracidade da sobrevivência do espírito, após o falecimento do corpo material; comprova ser possível a comunicabilidade entre os mundos espiritual e físico, por intermédio da mediunidade; e, para não restar dúvidas, Samuel (desencarnado) vaticina a morte de Saul e de seus filhos, asseverando que eles (por serem imortais) estariam naquele mesmo dia com ele (no plano espiritual). Vale ressaltar, ser esse texto bíblico muito usado pelas religiões e seitas que se opõem ao Espiritismo, para condenar a mediunidade, afirmando que Saul morreu porque consultou uma médium. Quando, na verdade, Saul morreu porque não dera ouvidos à voz do Senhor.

"Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor." 9

Malaquias anuncia (mais de quatrocentos anos antes de João Batista nascer) a volta do profeta Elias (falecido há mais de seis séculos antes da profecia, portanto, só poderia voltar reencarnado);

"Tendo Jesus chegado às regiões de Cesaréia de Felipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?

Responderam eles: Uns dizem que és João, o Batista; outros, que és Elias; outros, que Jeremias, ou algum dos profetas que ressuscitou." 10

O diálogo, reproduzido acima, atesta a convicção dos judeus quanto à pluralidade das existências. Dizer é afirmar, e só se afirma aquilo que se crê.

"(Após a transfiguração) Seus discípulos então o interrogaram desta forma: ‘Por que dizem os escribas ser preciso que antes volte Elias?’ – Jesus lhes respondeu: ‘É verdade que Elias há de vir e restabelecer todas as coisas – mas, eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve. É assim que farão sofrer o Filho do Homem.’ – Então, seus discípulos compreenderam que fora de João Batista que ele falara." 11

Para complementar, o próprio Jesus ratifica a reencarnação do profeta Elias, na personalidade João Batista, e, ainda mais, assevera que ele virá de novo ao orbe terrestre (reencarnado, é claro!).

O Espírito é um dos seres inteligentes que povoam o mundo invisível (ou mundo dos espíritos); seu corpo natural é o perispírito (numa imagem grosseira: uma espécie de vapor: mais denso se o espírito é inferior, e muito sutil quando evoluído moralmente); temporariamente utiliza um invólucro material (corpo) modelado pelo perispírito (numa figura: o laço que o prende ao corpo), inerente ao globo que vá habitar, para se esclarecer e purificar. Tanto quanto tudo em o Universo, obedece, também, a lei imutável de Deus: a lei de evolução, voluntária ou compulsória.

Alma é o Espírito encarnado, isto é, o Espírito fazendo uso do veículo físico. Portanto, meu pai não deveria temê-la.

Quando se dá a desencarnação (morte do corpo), o Espírito retorna à sua dimensão primitiva (o plano espiritual).

Há no homem três partes essenciais: o corpo ou ser material, análogo ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital; a alma (Espírito encarnado) que tem no corpo a sua habitação temporária; e o princípio intermediário, ou perispírito, substância semimaterial que serve de primeiro envoltório ao Espírito e liga-o ao corpo.

"Desde que cessa a vida do corpo, o Espírito o abandona. Antes do nascimento, ainda não há união definitiva entre o espírito e o corpo; enquanto que, depois dessa união se haver estabelecido, a morte do corpo rompe os laços que o prendem ao espírito e este o abandona. A vida orgânica pode animar um corpo sem espírito (por exemplo, as plantas), mas o espírito não pode habitar um corpo privado de vida orgânica." 12

"Que seria o nosso corpo, se não tivesse alma?

"Simples massa de carne sem inteligência, tudo o que quiserdes, exceto um homem." 13

A inteligência proporciona o livre-arbítrio ao Espírito, ou seja, a liberdade de escolha, segundo a sua vontade, e o poder de agir por determinação própria. Sendo que, o livre-arbítrio sujeita-o à lei de causa e efeito, dando-lhe responsabilidade íntima sobre as suas decisões e as suas ações. Responderá, assim, por todo o mal que pratique e por todo o bem que deixe de fazer.

O instinto, por outro lado, orienta-o conforme a lei de conservação. Em verdade, é um acréscimo de misericórdia, do nosso Pai Celestial.

Mas, afinal, de onde nos vêm as idéias?

Ora, se somos Espíritos, imortais, e temos reencarnado sucessivamente, adquirimos, através das várias existências, inúmeros conhecimentos científicos, filosóficos e religiosos. Mas, quando estamos reencarnados, Deus, na sua misericórdia infinita, permite que esqueçamos as reencarnações anteriores, a fim de que o nosso passado delituoso não nos afete o desejo de redimirmo-nos.

Havendo, como verdadeiramente há, a possibilidade do intercâmbio espiritual entre os planos de vida, é natural que recebamos conselhos dos espíritos amigos, por inspiração ou processo mediúnico.

Quando na existência corpórea, em determinadas ocasiões (durante o sono, principalmente), volvemos à dimensão espiritual e encontramo-nos com seres simpáticos, travando diálogos acerca de assuntos que nos agrada. Os sonhos (no fenômeno de desdobramento), muitas vezes, são lembranças desses encontros.

É bom não confundirmos o fenômeno de desdobramento (emancipação da alma) com os sonhos e pesadelos, frutos de clichês mentais (imagens do dia a dia, gravadas no nosso subconsciente).

Logo, qualquer idéia que nos venha à cabeça é o despertar de recordações de nossa conversação no mundo espiritual ou experiência congênita que se nos aflora, no momento ideal.

Porém, saibamos discernir quais as idéias devamos aproveitar e pôr em prática, conscientizados de que os nossos atos refletirão, mais cedo ou mais tarde, a luz ou a sombra, da qual somos portadores.

Ademais, nossas atitudes definem qual a classe de Espírito nos situamos atualmente, a de seres iluminantes, ou a de noctívagos.

Notas:

  1. Questão 73, de "O Livro dos Espíritos";
  2. Questão 74, de "O Livro dos Espíritos";
  3. Comentário de Allan Kardec, parte 1, cap IV, "Inteligência e Instinto", de "O Livro dos Espíritos";
  4. Questão 24, de "O Livro dos Espíritos";
  5. Questão 71, de "O Livro dos Espíritos";
  6. Comentário de Allan Kardec, questão 71, de "O Livro dos Espíritos";
  7. Jeremias, cap 1, vv 4 e 5;
  8. Samuel, cap 28, vv 3 a 20;
  9. Malaquias, cap 4, v 5;
  10. Mateus, cap 16, vv 13 a 14;
  11. Mateus, cap 17, vv 10 a 13;
  12. Resposta à questão 136 – a, de "O Livro dos Espíritos";
  13. Questão 136 – b, de "O Livro dos Espíritos";

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