Os limites da ciência

Paulo Roberto Santos

Após a falência das religiões tradicionais, devido ao (quase) fim da fé cega, a ciência passou a ocupar o lugar deixado por elas, embora dentro da mesma mística. Antes, só era verdade aquilo que fosse admitido pelas religiões; depois, só é verdade o que é sancionado pela ciência. E como a ciência, digamos ortodoxa, tem cometido erros! Tantos quanto as próprias religiões que a antecederam em pretensa autoridade sobre o que é ou não é Verdade.

O período no qual as religiões são postas em dúvida e a ciência se arvora em dona da Verdade é o século XIX. No final daquele século, cientistas afirmaram que os passageiros de uma locomotiva a vapor ou de um automóvel, recém inventados, morreriam por hemorragia devido às velocidades pretendidas: 30 a 60 Km/h. As coisas não mudaram muito de lá para cá; naturalmente os erros são de outro nível e natureza, mas continuam acontecendo. Há décadas não existe mais ciência pela ciência, a busca do conhecimento pelos benefícios que ele possa eventualmente trazer. O mercantilismo ganancioso e avassalador dominou a ciência ao ponto de ser "verdade" aquilo que melhor convém a determinados interesses, sempre transitórios. Com isso a verdade tornou-se relativa.

A Realidade não se restringe àquilo que nós humanos queremos. A ciência é apenas o conhecimento organizado. Isso é bom por um lado, mas por outro é pernicioso e limitador, pois fragmenta essa mesma Realidade investigada. Passamos a vê-la e compreendê-la como quem olha por buracos de fechaduras.

Muitas vezes numa visão monocular e, por isso, limitada. Isso explica porque teorias contrárias podem ser elaboradas a partir de um mesmo material. Depende da interpretação que o investigador dá ao que foi visto pelo 'buraco da fechadura'.

Mas, e a porta nunca se abre? As portas se abrem sim quando estamos prontos para compreender o que está além delas. A ciência é um meio e não um fim em si mesmo. É objetiva e experimental, pondo à nossa disposição recursos para compreendermos, mesmo que parcial, fragmentária e imperfeitamente, a realidade que nos rodeia.

É intelectiva por natureza e pode sancionar ou não tudo aquilo que está ao alcance do intelecto. A questão é que nem toda a Realidade está contida no que é objetivo e experimental. Existe muita coisa além, no campo subjetivo e intuitivo e que também constituem verdades e realidades, mesmo que apenas em parcelas condizentes com nossa capacidade de entendimento ainda tão limitada.

Allan Kardec ao codificar, organizar, o Espiritismo, dando-lhe um corpo teórico consistente, usou os melhores recursos científicos de seu tempo. Lançou mão da metodologia positivista de então para que esta viabilizasse, desse as necessárias credenciais à nova doutrina no momento em que ela fosse levada ao conhecimento público. Isso significa que Kardec lançou mão da ciência para que esta sancionasse o novo conhecimento. Entretanto, ele foi prudente o suficiente para não submeter a evolução doutrinária espírita somente aos critérios da ciência humana, limitadora e eivada de conveniências. Condicionou a evolução do Espiritismo ao bom senso e à lógica, que são variáveis subjetivas. Se tivesse criado uma dependência absoluta a fatores objetivos e experimentais, típicos da ciência convencional, teria colocado o Espiritismo no campo dos interesses e conveniências humanos. Portanto, a metodologia positivista usada por Kardec foi um meio, um recurso, e não uma camisa de força que condicionasse a doutrina que nascia.

Consequentemente, a Doutrina Espírita progride em função de descobertas da ciência e sancionadas por esta e vai além em vários campos onde apenas a lógica e o bom senso subjetivos são possíveis. Claro que esta característica abre inúmeras possibilidades de discordâncias e interpretações diferentes, mas dá ao Espiritismo o seu dinamismo próprio, só cerceado pelas limitações e imperfeições do homem, origens do espírito sectário, do fanatismo, do conservadorismo, do religiosismo piegas e de tantas outras mazelas humanas que assolam o movimento espírita.

No futuro o conhecimento intelectivo se associará ao conhecimento intuitivo, dando ao homem a possibilidade de alcançar o conhecimento holístico, global, por inteiro, e não necessariamente fragmentário como agora. Enquanto isso, ainda nos veremos divididos, defendendo teses parciais, às vezes absurdas, provenientes do que vemos através de buracos de fechaduras.

(Publicado no Jornal A Voz do Espírito - Edição 89: Janeiro - Fevereiro de 1998)