Uma falha: Sim ou Não?

Celso Roberto Saad

A origem da Vida é um problema que tem desafiado os homens desde as mais remotas eras. Conclusões precipitadas foram apresentadas durante muito tempo, como verdadeiras até o surgimento da moderna Ciência, que com seus laboratórios de pesquisa propiciam ao Homem um melhor entendimento, pelo menos de sua vida orgânica. É claro que estamos nos referindo e essa referência persiste por todo este escrito - à origem orgânica da Vida.

Em "A Gênese", pilastra do aspecto científico do Espiritismo, vinda a lume nos idos de 1858, Kardec traça o ponto de vista da Doutrina sobre o assunto, tocando-o de leve na parte de "Uranografia Geral", e mais a fundo no capítulo 10. A primeira parte deste capítulo é uma verdadeira aula de Química, levando-se em consideração o pouco que se sabia dessa ciência naquela época.

Com concisão e didática, Kardec descreve algumas leis estequiométricas, conceitos aclarados por Lavoisier e Proust. Na segunda parte, entretanto, o Codificador dá ênfase demasiada à teoria do "vitalismo", conceito advindo dos representantes do neo-platonismo, descrevendo o chamado "princípio vital" como "presente em toda matéria viva", admitindo-o como "não passível de definição", limitando-se a dá-lo como “existente, pois seus efeitos são observados". Sobre sua permanência nos seres vivos, Kardec afirma que é graças a ação do conjunto de órgãos, como o "calor à rotação de uma roda".

Duas questões se levantam então: se cessarmos a rotação de uma roda, o calor se esvai; se cessarmos o funcionamento dos órgãos, o "princípio vital" também se esvairá? Se isso acontece, como explicar a procriação de gérmens após a completa inércia dos órgãos físicos? Essas duas interrogações persistem sem resposta dentro da obra "A Gênese".

A geração espontânea

Logo após, Kardec toca no problema da "geração espontânea", que era a "coqueluche" dos sábios da época, pelo menos na área biológica. A interrogação que se faziam os biólogos era : como surgira o primeiro ser vivo, sem o concurso dos "gens" paterno e materno? Em o outras palavras: era possível advir-se a Vida sem pai nem mãe?

Duas correntes existiam para explicar: uma, partidária da geração espontâneas afirmando que sim. A outra, defendendo a teoria de uma união de materiais inorgânicos inicialmente, e posterior descendência obrigatória desse ser vivo pré-existente.

Embora incompleta, esta última teoria e a mais correta. No entanto, Kardec, neste ponto, apóia a primeira teoria, embora o faça veladamente, mas de uma maneira plenamente perceptível. São suas as afirmações:

"Se o musgo, o líquen, o zoófito, os infusórios, os vermes intestinais podem se produzir por geração espontânea, por que o mesmo não seria possível com as árvores, os peixes, cães e cavalos?"

Naturalmente como homem de ciência que era, e plenamente consciente de que poderia estar incorrendo em erro, deixou em aberto a questão, mas não sugeriu uma segunda hipótese, o que vem confirmar a sua simpatia pela teoria da geração espontânea. Isso fica bem claro em sua afirmação no final dessa parte:

"A teoria da geração espontânea é uma hipótese não definitiva, mas provável, e que um dia talvez venha a ocupar par lugar entre as verdades reconhecidas. "

Acontece que não ocupou. A teoria da geração espontânea, bem como a do "princípio vital", caíram por terra muito mais cedo do que se esperava. Pasteur, em 1860, dois anos após a publicação de "A Gênese", provou estarem essas teorias em desacordo com a Ciência.

Como? Um caldo de carne (eliminada a possibilidade de "princípio vital", (pois não haviam órgãos vivos para mantê-lo), quando exposto ao ar, ficava cheio de germens, enquanto que estando fechado e fervido permanecia indefinidamente sem eles. Com algumas outras experiências simples, provando o transporte dos germens pelo ar, ficou definitivamente provada a não existência das teorias de geração espontânea e princípio vital, ambas constantes em "A Gênese".

Além do mais, outro estudioso, Spallanzani, provou que os infusórios (antigo nome dado aos protozoários) não surgiam espontaneamente, mas de protozoários pré-existentes. E muito menos os parasitas intestinais, que provinham do exterior, através da ingestão de água ou de alimentos contaminados.

A verdade sobre o surgimento da Vida orgânica na Terra, só foi aclarada em 1953, quando Muller reproduziu em laboratório a provável atmosfera reinante na Terra quando de sua formação. Uma massa gasosa e pulveriforme, rica em hidrocarbonetos (metano principalmente), amoníaco, vapor d'água e hidrogênio. Após algum tempo, fazendo circular faíscas elétricas em tal atmosfera, do mesmo modo que os raios fizeram na época da formação, Muller obteve ácidos aminados. Esses ácidos arruinados são os formadores das cadeias proteícas: proteínas. No oceano primitivo (formado provavelmente com o de gelo), as proteínas foram reagindo entre si, formando substâncias de alto peso molecular chamadas "coacervados".. Causas puramente mecânicas fragmentavam os coacervados, transformando-os em gotas filhas, com a mesma propriedade do original. Por um processo seletivo foram sobrevivendo aquelas em que as reações químicas eram mais rápidas, sobrevindo a substituição dos catalisadores minerais mais elementares, por enzimas, muito mais específicas.

Assim, em linhas gerais, está traçado um pequeno esboço de como surgiu o primeiro ser vivente organicamente na Terra. Numa fase posterior, criou-se a célula. Daí para a frente tudo seguiu o caminho da constante evolução biológica.

Kardec errou?

Ora, se tudo o que dissemos acima, através de estudos científicos foi comprovado e analisado, fica a seguinte interrogação: teria Kardec errado nesta parte?

Aí depende de interpretação. Se formos daqueles que julgam a Doutrina Espírita como uma obra terminada, que nada deve absorver, que Kardec disse tudo sobre tudo, então ele realmente errou. Se, no entanto, encararmos os fatos de uma maneira dialética, isto é, tudo num eterno "vir a ser", então podemos dizer apenas que Kardec analisou esta questão como um sábio do século passado, e, como tal, não poderia estar a par dos avanços tecnológicos de nosso século, e, portanto, não errou, ruas sim deixou incompleta esta questão, para que a própria Ciência, no futuro, melhor aparelhada, restabelecesse a verdade dos fatos, Secundo o próprio Kardec, "caminhando par e passo com o progresso o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas forem mostrar que ele está em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificará neste ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará".

Isso responde suficientemente a questão, mas não explica a inércia dos espíritas em deixar permanecer em uma de suas obras básicas, erros tão crassos como es vistos anteriormente. É incrível a nossa indolência ante teorias com mais de cem anos de superação, que permanecem como se ainda estivessem certas, permitindo que homens de Ciência a riam-se às custas do nosso codificador, taxando-o de "ultrapassado".

Por que não atualizamos os escritos de Kardec trazendo-o ao século XX, ás conquistas espaciais, às experiências biológicas modernas? Seria medo de tomarem-nos por herejes? Acredito que não. Acredito sim num excesso de misticismo que impede os espíritas de verem o "outro lado" da Doutrina, isto é, seu lado científico. Onde estão as experiências de Bozzano, de Croockes, de Rochas? Tudo deixa transparecer que a "fé raciocinada" do Espiritismo, cada vez mais fé e menos razão.

Até quando ficaremos discutindo bizantinamente entre nós mesmos, no nosso próprio meio, esquecendo de comparar, estudar a verdade, e não simplesmente uma confirmação? Afirmações como “nada deterá a marcha do Espiritismo”, que “somos o futuro da Humanidade”, e tantas outras que ouvimos por aí, nada valem se não arregaçarmos as mangas e partirmos para um enfoque mais racional das verdades espíritas.

(Revista Internacional de Espiritismo – Agosto de 1972)