A Análise do Amor

Paulo Roberto dos Santos

Normalmente se pensa no amor como um sentimento único, uma meta a ser atingida num futuro remoto. Entretanto, o amor é multifacetado e apresenta-se em diversos níveis, estando ao alcance de todos os seres. Entre os animais, a fêmea que zela pelos filhotes, tendo unicamente o instinto como fio condutor, pratica um tipo de amor. Os animais gregários estabelecem esquemas de defesa baseados ainda nesse nível de amor primário.

A confusão em torno da palavra fez-se tão grande que já é comum dizer-se "fazer amor". Não se faz amor, se faz sexo, que é também um tipo de amor. O corpo carnal é veículo de sensações. Prazer e dor são sensações conduzidas pelo sistema nervoso ao cérebro e daí a informação segue para o Espírito via perispírito. As emoções, os sentimentos, são atributos do ser espiritual. A alegria e o sofrimento moral não são propriedades da matéria, embora possam ter, e freqüentemente têm seus reflexos no corpo carnal.

Todos os sentimentos mais elevados tais como a amizade, simpatia, consideração, generosidade e altruísmo, são manifestações desse amor multifacetado a que nos referimos. O próprio ato sexual pode ser praticado com ou sem amor em suas diferentes nuances. O mais comum ainda é o sexo feito unicamente como mecanismo de vazão de exigências vitais. Uma descarga nervosa e emocional que contribui para o (re)equilíbrio do psiquismo humano, dada nossa condição evolutiva.

Jesus amou incondicionalmente a humanidade e igualmente a todos, exercendo o Amor-síntese, só possível a uma criatura que reúne em si todos os sentimentos nobres. Amou também a Maria Madalena, a cortesã iludida pelos prazeres mundanos, cuja alma migrou do amor sensual para o amor espiritual sob a influência do Cristo.

Allan Kardec abordou a questão inserindo-a em O Evangelho Segundo o Espiritismo (Introdução, item XVI) apoiando-se em Sócrates e Platão: "O amor, que deve unir os homens por um laço fraternal, é uma conseqüência dessa teoria de Platão sobre o amor universal como lei natural. Sócrates, tendo dito que "o amor não é um deus nem um mortal, mas um grande demônio", quis dizer que um grande Espírito preside ao amor universal. Esta afirmação lhe foi sobretudo imputada como crime. Como se vê, por amor e pelo amor muitos já deram a vida.

Não nos parece razoável buscar o amor crístico sem antes nos exercitarmos nos níveis menores do amor, praticando-o nas pequenas coisas ao ponto de, como Francisco de Assis, integrar-se no todo chamado o sol, a lua, a estrela, a água e o fogo de irmãos. Deveremos ainda lutar contra o exagerado egocentrismo, tão profundo e comum como há dois mil anos. Este é o trabalho do tempo e do esforço pessoal. Os filósofos e os poetas têm o poder de superar as barreiras do convencionalismo e dos preconceitos enxergando ao longe e em profundidade, tal como Thiago de Melo ao escrever seu Arabesco: "Já próximo escutamos o rumor dos cavalos que correm pela treva.

Até agora, porém, nada aprendemos:

Não conquistamos nem a paz dos loucos, nem a mudez das fragas solitárias.

E enquanto a noite enorme nos ronda estende suas mão para afagar-nos, na areia das palavras desenhamos o arabesco invisível desta mágoa: Somos frágeis demais e não sabemos sequer o que nos falta para sermos completos como um deus - ou como um pássaro" (Thiago de Melo, Narciso Cego, página 31).