A Preparação do Homem no Centro Espírita

Milton Felipeli

1º - O centro espírita prepara o homem para a vida.

Se isso não ocorre hoje, certamente ocorrerá no futuro, posto que o progresso é lei inexorável.

O ideal contido nas obras básicas da doutrina, não encontra, por hora, identificação com a nossa realidade. E isso tem uma explicação muito simples, em relação ao desenvolvimento do Espiritismo aqui no Brasil. É que na prática, a atividade espírita ressentiu-se da enorme influência dos cultos religiosos da Igreja Católica e das manifestações mediúnicas trazidas da África pelos escravos.

Desse sincretismo, surgiu uma realidade, em termos de prática mediúnica, sendo a atividade espírita mesclada no culto religioso do catolicismo e nos ritos africanos, mais tarde caracterizadas pela atividade formalística da umbanda.

Historicamente, nas primeiras décadas deste século, esse era o panorama dos centros espíritas, misturado em toda a sua essência com os ritos católicos e africanos (das tribos dos bantôs). Mas isso também tem uma explicação sociológica bem evidente: o Brasil reflete, por herança, a cultura e a religião dos países colonizadores. Recebemos e assimilamos a forte influência da Europa.

2º - No início deste século, poucos eram os centros espíritas que não se ressentiam dos ritos, aparatos e práticas essencialmente religiosas. Como pretender, então, que não fosse dado um caráter excessivamente seitista ao momento mediúnico no centro espírita?

Essa mistura exótica, deturpadora dos reais objetivos do Espiritismo (surgido para libertar o homem das correntes religiosas que escravizam o pensamento humano, impedindo-o de raciocinar e dirigir por conta própria a sua vida), acabou por apresentar, em sua organização, o centro espírita sob as condições próprias de um povo místico e a quem foi ensinado que o homem necessita de pertencer a uma religião, caso contrário não encontrará salvação, mas cujas características espirituais já se delineavam como propícias para recepcionar a semente da Doutrina dos Espíritos.

Nesse tempo a que estamos nos referindo, os centros espíritas, em sua maioria, mantinham práticas ritualísticas, que eram facilmente identificadas; casamentos, velórios, batizados, crismas, adivinhações, apadrinhamentos.

A maioria dos centros introduziria em suas dependências, o altar e as imagens, além de outros aparatos para a prática de suas atividades: uso de incenso, roupas brancas, símbolos e sinais especiais.

O motivo específico disso tudo era o grande desconhecimento que os chamados adeptos tinham de todo o conteúdo da obra doutrinária de Kardec. Por esse fato, não lhe emprestavam quase nenhuma seriedade.

A ausência do estudo da doutrina, foi o grande responsável pela manutenção do "continuum mediúnico", divorciado do verdadeiro conteúdo filosófico do Espiritismo.

Vencida essa fase em que pouco a pouco as coisas foram sendo colocadas em seus devidos lugares - o problema ainda não foi resolvido, mas foi diminuído - com as campanhas dirigidas, de caráter esclarecedor do público (dentro e fora do meio espírita), mostrando à sociedade as práticas verdadeiramente espíritas daquelas misturas ritualísticas.

3º - Porém, se de um lado, pela inteligência, providências e ações de espíritas lídimos, esse perfil sócio-doutrinário foi sendo alterado, por outro lado, a atividade espírita ressentiu-se em seu interior, no miolo do próprio movimento, de um outro fenômeno tão grave quanto aquele do fenômeno sincrético: a introdução de teorias estranhas às bases doutrinárias e que estão sendo assimiladas e introduzidas nas práticas dos centros.

4º - Não será o caso, neste artigo, de comentar cada um desses movimentos estranhos à doutrina e que se encontram infiltrados nos centros espíritas. Basta dizer que são atividades que envolvem conceitos não espíritas e que se apresentam apenas para satisfazer o culto à personalidade de seus iniciadores - parecem espíritas mas não o são. E por que os que dirigem os centros ainda aceitam essas teorias não espíritas? Porque ainda não conhecem profundamente as bases da doutrina que abraçaram, e tampouco compreendem o importante papel do centro espírita na atualidade.

Entretanto, esses espíritas passarão e a doutrina permanecerá.

Novos espíritas surgirão. Novos dirigentes assumirão a direção das casas espíritas, o que, ao contrário do que alguns supõem, não é reduto apenas do Homem encarnado: é o ponto de encontro entre os homens e os Espíritos com vistas ao aprimoramento de ambos os planos da vida. Os dirigentes do futuro terão que pensar seriamente nisso para colocar os centros no lugar em que precisam estar, a fim de que atendam às finalidades essenciais de educação espiritual do homem.