A transitória maldade humana

Abel Sidney de Souza

E as paixões hoje são quase as mesmas de ontem,
senão mais açuladas, mais violentas e devastadoras,
no homem que prossegue inquieto.
Joanna de Ângelis

A maldade dos homens sempre inquietou os pensadores dos mais diversos campos do saber e da ação humana: filosofia, ciência, arte, religião.

Recentemente o Jornal do Brasil publicou em seu caderno Idéias uma resenha sobre uma obra que trata deste tema. O livro em questão é O mal no pensamento moderno, de Susan Neimam e o título e subtítulo da matéria, assinada por Joel Macedo, é também expressivo: “O mal nosso de cada dia - Filósofa parte do terremoto de Lisboa para mostrar como o mal deixou de ser divino para se tornar criação do homem”.

Para a autora, o terremoto de Lisboa em 1755 é um divisor de águas nas concepções sobre o mal. Antes deste evento que abalou a Europa, prevalecia “a visão de males naturais como punição para males morais”.

Nas palavras do resenhista:

Lisboa aboliu as causas morais, absolveu Deus e os pecados coletivos, e os terremotos passaram a ser vistos como desastres naturais, algo fora da intenção divina ou responsabilidade humana. Explicar o mal como processos naturais, implicando mais a natureza em si, foi uma forma de tornar o mundo menos ameaçador.

Deus não é mais agente punitivo, causa de males que retornam aos homens como forma de castigo. O mal depois de Lisboa é reduzido ao seu aspecto moral, aquele praticado pelo homem, por deliberação de sua vontade.

Dentro de certos padrões previsíveis os males humanos pareciam não mais destinados a inquietar os filósofos, pois que o mal parecia ter limites... O Holocausto (extermínio dos judeus e outras vítimas durante a Segunda Grande Guerra), no entanto, reavivou a discussão sobre os limites da barbárie, da perversão humana, lançando na atmosfera intelectual européia e mundial uma onda de pessimismo e descrença.

Apesar da descrença na Providência Divina, que se acentuaria no pós-guerra, vozes se levantaram para absolver Deus, por sua possível omissão diante das atrocidades.(Não se acredita muito Nele, mas quando ocorre algo grave, O acusamos de não se fazer presente, quando Ele na verdade, nem mesmo fora convidado a participar de nossas vidas, antes das tragédias...)

Estamos nos referindo particularmente a Hanna Arendt. Filósofa judia, radicada nos Estados Unidos, ela estudou profundamente as questões do mal e suas discussões estão presentes no livro Eichmann em Jerusalém, que trata do julgamento do carrasco nazista, responsável pela morte de milhares de pessoas.

Partindo do caso Eichmann ela pondera que o mal pode tornar-se banal e espalhar-se pelo mundo dos homens como um fungo, porém apenas em sua superfície. As raízes do mal não estão definitivamente instaladas no coração do homem e por não conseguirem penetrá-lo profundamente a ponto de fazer nele morada, podem ser arrancadas.

A sua defesa da Divindade encontra-se no trecho de uma carta enviada a um amigo, na qual afirma que “O mundo como Deus o criou parece-me um mundo bom.''

Com Deus absolvido (mesmo que parcialmente) pela criação do mal e suas conseqüências, vejamos a visão espírita sobre esta questão.

A visão espírita do mal

Para a doutrina dos espíritos o mal é criação do próprio homem e não tem existência senão temporária, transitória, pois no arranjo maior da Vida não tem sentido a permanência do mal. O mal, desta forma, faz parte do aprendizado, porém na condição de resíduo; por isso, ele deve ser descartado em algum momento.

Conforme Kardec aponta em Obras Póstumas “Deus não criou o mal; foi o homem que o produziu pelo abuso que fez dos dons de Deus, em virtude de seu livre arbítrio.” Este pequeno trecho compõe um dos mais belos ensaios que Kardec deixaria, não intencionalmente, para publicação posterior. Trata-se de O egoísmo e o orgulho: suas causas, seus efeitos e os meios de destruí-los.

O mestre lionês, ao desenvolver o tema, parte do pressuposto de que o instinto de conservação, natural e necessário para a sobrevivência do homem está na origem do egoísmo e do orgulho. Este e outros instintos têm a sua razão de ser. No entanto, o homem abusa destes instintos, por conta do apego às sensações que as impressões da matéria lhes causam.

Vive então, (e aqui começa nossa análise), a sua longa epopéia rumo à maturidade, devendo liberar-se de tudo que signifique retenção a esta fase infantil, de imaturidade, de apego ao ego, em que tudo deve girar ao nosso redor.

Na mensagem “A lei de amor”, de Lázaro, presente em O Evangelho Segundo o Espiritismo, o autor afirma que

Em sua origem, o homem só tem instintos; quando mais avançado e corrompido, só tem sensações; quando instruído e depurado, tem sentimentos. E o ponto delicado do sentimento é o amor...

Os instintos, as sensações e os sentimentos estarão presentes na existência humana em determinadas combinações, durante todo o processo evolutivo, com a preponderância de alguns sobre os outros.

Na fase inicial de sua jornada – na condição de simples e ignorante – é possível que o instinto lhe seja o melhor guia; à medida que desenvolve as potências da alma – a inteligência, a vontade – ele tende a apegar-se às sensações, pois não desenvolveu ainda, na mesma proporção os sentimentos, que permanecem como presença latente e promessa futura; como a inteligência desenvolve-se mais rapidamente, na ausência de sentimentos como a fé, a esperança, a caridade, o homem tende a prender-se à sensações materiais; por fim, aliando a inteligência (instruído) e as experiências de vida (depurado), o sentimentos começam a ocupar maiores espaços de manifestações anímicas no homem.

Podemos, assim, afirmar que os instintos e as sensações ainda convivem conosco hoje, pois como espíritos encarnados, imersos em um corpo físico, estamos sujeitos às leis e às atrações da matéria, porém os sentimentos tendem a dominar-nos a alma, aliado à inteligência, que já temos desenvolvido sob as suas diversas modalidades.

Retomando o ensaio de Kardec, este vai insistir no debate em torno do egoísmo e do orgulho, situando-os como causa de todos os males.

Um outro conceito precisamos analisar, porém, neste momento, antes de prosseguirmos e aprofundarmos esta questão. Trata-se do conceito de paixão.

O conceito de paixão

A definição de paixão encontrada nos dicionários pode nos ajudar a compreender, antecipadamente, o que desejam expressar os espíritos e Kardec quando se utilizam deste termo. Segundo o Aurélio paixão é um: “Sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se à lucidez e à razão; Amor ardente; Inclinação afetiva e sensual intensa; Entusiasmo muito vivo por alguma coisa; Atividade, hábito ou vício dominador”.

Lendo um pequeno trecho das páginas iniciais de O Livro dos Espíritos (Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita), encontramos Kardec a expressar-se nestes termos (p. 25):

O Espírito encarnado se acha sob a influência da matéria; o homem que vence esta influência, pela elevação e depuração de sua alma, se aproxima dos bons Espíritos, em cuja companhia um dia estará. Aquele que se deixa dominar pelas más paixões, e põe todas as suas alegrias na satisfação dos apetites grosseiros, se aproxima dos Espíritos impuros, dando preponderância à sua natureza animal. (grifo nosso)

Na mesma Introdução, quando trata da escala, das classes em que podemos situar os espíritos em sua trajetória evolutiva, o codificador afirma (p. 24):

Os [espíritos] das outras classes se acham cada vez mais distanciados dessa perfeição, mostrando-se os das categorias inferiores, na sua maioria eivados das nossas paixões: o ódio, a inveja, o ciúme, o orgulho, etc. Comprazem-se no mal. (grifo nosso)

Cabe-nos agora, destacar que o egoísmo e o orgulho compõem o que Kardec designa como sendo as paixões. O que podemos confirmar quando lemos mais adiante, ainda na Introdução (p. 27):

Ensinam-nos que o egoísmo, o orgulho, a sensualidade são paixões que nos aproximam da natureza animal, prendendo-nos à matéria; que o homem que, já neste mundo, se desliga da matéria, desprezando as futilidades mundanas e amando o próximo, se avizinha da natureza espiritual. (grifo nosso)

No capítulo em que trata da escala espírita, Kardec ao situar os Espíritos imperfeitos na terceira ordem, traça como seus caracteres gerais (p. 89): “Predominância da matéria sobre o Espírito. Propensão para o mal. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as paixões que lhes são conseqüentes.” (grifo nosso)

Será necessário darmos agora um salto e nos localizarmos na parte terceira de O Livro dos Espíritos (Das Leis Morais), no capítulo XII, Da perfeição moral, no item denominado justamente Paixões. Abrangendo seis questões (907 a 912), Kardec faz um estudo breve, porém aprofundado deste tema, no diálogo que trava com os espíritos superiores que colaboram com a Codificação.

Em resumo eis o que apreendemos:

Como já comentado por Kardec em linhas atrás, certas paixões “nos aproximam da natureza animal”; desligando-se, porém, o homem da matéria e suas atrações, por meio da ação de amor ao próximo, ele se aproxima “já neste mundo” de sua natureza espiritual. (grifo nosso)

Podemos inferir, pois, que as paixões, este “entusiasmo muito vivo por alguma coisa” ou este “sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade” na definição do Aurélio, transita na visão espírita da natureza animal à natureza espiritual. Do instinto de conservação que nos impele a buscar tudo para nós mesmos, no desejo de preservarmos nossa vida a qualquer custo, em detrimento da vida alheia (quando próximos da natureza animal, nos primórdios das experiências humanas) transitamos para um outro extremo, que é a abnegação, que também na definição do Aurélio significa “renunciar a; sacrificar-se, mortificar-se, em benefício de Deus, do próximo, de si mesmo”. Não à toa, o próprio sacrifício de Jesus, mormente na tradição católica (a morte na cruz) é denominado de Paixão (o próprio Aurélio indica o uso da maiúscula para assim o designar).

Na resposta dos espíritos a Kardec é ainda dito que as paixões se assemelham a um corcel , um cavalo veloz, “que só tem utilidade quando governado e que se torna perigoso desde que passe a governar”. A própria sabedoria popular nos ensina que a vaidade, ou o egoísmo ou o orgulho não causam mal desde que em doses adequadas. Frases como “um pouco de vaidade faz bem à pessoa” e outras do gênero (quando ditas com sinceridade) correspondem exatamente ao que os espíritos em outras palavras referem-se ao domínio das paixões.

É dito também que as paixões, além de ampliar as forças humanas, “auxiliam na execução dos desígnios da Providência”.

A paixão, como define o Aurélio, é também um ”entusiasmo muito vivo” e o termo entusiasmo corresponde a “exaltação ou arrebatamento extraordinário daqueles que estavam sob inspiração divina”, também significando “dedicação ardente, ardor”. Logo, o homem quando se torna entusiasmado, no sentido mais elevado do termo, pode auxiliar nas tarefas que a Providência Divina lhe designa e de que o homem é instrumento.

Kardec e os espíritos relacionam nesta questão a má utilização das paixões e as más inclinações, tendências, tornando-as sinônimas. Os espíritos então nos afirmaria, de outra forma, que o governo, o domínio que pode se pode ter sobre as paixões não exige, comumente, grandes esforços, mas apenas dedicação, persistência.

Há uma inscrição no pórtico de Delfos, na Grécia, dizendo que “invocado ou não ele estará sempre presente”; a divindade ou Deus sempre está presente em nossas vidas, mesmo que não solicitemos... O mesmo ocorre com os bons espíritos, que nos assiste, nos auxiliando sempre. A despeito de nossa rebeldia e, às vezes, do nosso mergulho deliberado no mal, eles esperam pacientemente uma oportunidade para nos reerguer, colocando-nos em condições de retomar a caminhada no rumo do Bem. Se invocados (e invocar é solicitar ajuda ou intercessão de alguém) ou se evocados (evocar é chamar a si, reclamar a presença de alguém) os espíritos amigos haverão de nos auxiliar a vencer nossas más paixões ou más tendências, inclinações.

É mais fácil, cômodo enganar-se, iludir-se do que se enfrentar nas lutas sem quartel que se tem que travar para a vitória sobre si mesmo, contra o mal existente dentro de nós mesmos. A alavanca férrea da vontade, que nos pode ajudar a remover todos os obstáculos do caminho, precisa ser forjada todos os dias, retemperada pela oração e pela vigilância.

É necessário, portanto, estarmos atentos e em comunhão com o Alto, para não nos amolentarmos, pois é comum nos deixarmos arrastar pelos cantos de sereia da preguiça, da acomodação e dos prazeres que a isto conduz ou implica.

A própria definição do que é abnegação indica o que nos cabe fazer: “renunciar a; sacrificar-se, mortificar-se, em benefício de Deus, do próximo, de si mesmo”. Os verbos de que o dicionarista se utiliza para definir abnegação nos sugere dois tipos de atitude: a ativa e a passiva. Renunciar a alguma coisa é, aparentemente, uma atitude passiva, de deixar-se, abandonar-se, apagar-se ou até de fugir de alguma situação. No entanto, ninguém pode renunciar às coisas do mundo em favor de algo ou alguém sem que mobilize as forças do pensamento e do coração, com “dedicação ardente, ardor” próprio de quem mobiliza o entusiasmo naquilo em que se empenha. A abnegação é, enfim, um sentimento de renúncia, de sacrifício, de anulação do ego para a vivência ativa do amor ao próximo.

Bem, depois de termos examinado as questões 907 a 912, sobre as paixões, cabe-nos indicar que as questões que se seguirão trata do egoísmo. Da questão 913 a 917 Kardec e os espíritos dialogam sobre esta “verdadeira chaga da sociedade”. Às más paixões ou más inclinações Kardec designará agora como vícios como se vê na questão 913: “Dentre os vícios, qual o que se pode considerar radical?”

A resposta é naturalmente o egoísmo, que está na raiz de todos os males (daí o adjetivo radical utilizado na pergunta). E continuam os espíritos “Por mais que lhes deis combate, não chegareis a extirpá-los, enquanto não atacardes o mal pela raiz, enquanto não lhe houverdes destruído a causa. Tendam, pois, todos os esforços para esse efeito...” (grifos nossos)

E ao final da resposta os espíritos são claros:

Quem quiser, desde esta vida, ir aproximando-se da perfeição moral, deve expurgar o seu coração de todo sentimento de egoísmo, visto ser o egoísmo incompatível com a justiça, o amor e a caridade. Ele neutraliza todas as outras qualidades.

A idéia de que o egoísmo e o orgulho possam ser situados como causa de todos os males humanos pode causar mal estar a muitos que se propõe a examinar estas questões. Os espíritos e Kardec, de modo simples e coerente, são muito felizes em situar no campo das causas últimas, o papel das paixões ou dos sentimentos do egoísmo, do orgulho e outros assemelhados. Tudo o mais estaria no campo dos efeitos. (que podem se tornar causa de outros efeitos). A miséria sócio-econômica, por exemplo, pode ter sua origem na extrema concentração de renda em determinado país ou região. Na visão espírita, sem desprezar as análises sociológicas, econômicas ou quaisquer outras, a causa deste fenômeno está no egoísmo e no orgulho dos homens, em última instância. A extrema concentração de renda, alegada como causa, na verdade seria um efeito da causa primordial que são as más paixões.

Sentir é causar

Pesquisando na Internet sobre este tema que estamos tratando, encontramos uma interessante dissertação de mestrado, na área da Psicologia Social, que em resumo trata da relação entre maturidade, estabilidade emocional e altruísmo. A autora deste trabalho investigou o perfil daqueles que adotam crianças, tendo comparado o grupo que adota crianças ainda bebês e aqueles que o fazem com crianças maiores. Ao final conclui-se que “os adotantes tardios realmente mostraram-se mais maduros, estáveis emocionalmente e mais altruístas do que os adotantes convencionais”.

Buscando a equivalência do conceito de abnegação e altruísmo, podemos inferir que aqueles que se devotam ao próximo, esquecidos de si mesmos, têm por resposta, em decorrência direta, uma maior maturidade e estabilidade emocional (enfim, os sentimentos de plenitude, de paz, tão almejados por todos). Abnegar-se, no caso específico das adoções tardias, isto é, de crianças maiores, com 2 ou mais anos, é romper com as convenções, assumir o sacrifício da adaptação, dar-se em maior cota de amor para integrar a criança à nova família.

Podemos parafrasear Martin Claret e afirmar que sentir é causar. Isto é, aqueles que experimentam, exercitam sentimentos elevados, aqueles voltados ao bem-estar do próximo, modificam suas próprias vidas. Causam transformações no campo de manifestações das emoções, adquirindo o que se denomina freqüentemente de equilíbrio ou centramento psicológico (fulano é uma pessoa centrada, equilibrada).

Por outro lado, sentimentos pouco elevados, carregados de apego ao ego, causam também, ou seja, promovem também modificações em nossas vidas – pessoais e coletivas. A discriminação étnica, racial que tem causado tantos problemas no mundo, é exemplo disto. Os resultados, no mais das vezes, são tragédias, quer pessoais, grupais ou coletivas (o extermínio dos judeus, já citado; a perseguição aos ciganos no leste europeu; as sutis discriminações aos negros brasileiros e outros lamentáveis exemplos).

O combate ao mal

Por não sabermos ainda produzir, em nossos pensamentos, atitudes e ações o bem em toda a plenitude, estamos às voltas com as sobras, com os resíduos das nossas paixões, de que devemos nos livrar, conforme propomos no início deste texto. Não é simples, porém, nos livrarmos do mal que produzimos. Mal que nasce em nós, nos impregna e temporariamente passa a fazer parte de nossa personalidade.

Para atingir tal intento é preciso vigiar, como sentinelas atentos, as fontes do próprio coração, de onde afinal provém todo o mal, como nos ensinou Jesus, quando lançou uma pergunta que continua atual: “...como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca.” (Mateus 12:34)

Paulo de Tarso na sua carta aos romanos (7:19) tece comentários sobre as lutas que se deve travar para combater o mal em nós mesmos, em frase já célebre: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço”.

Prosseguindo nesta linha de argumentação podemos levar a pensar que o mal de que estamos falando é algo medonho, terrível, execrável – e poderíamos citar aqui certas manifestações do mal que tenham realmente uma tal face. Alguém poderia dizer a si mesmo: “Bem, deste tipo de mal felizmente eu estou livre...”

Pois bem, o mal porém, de que estamos a tratar não se restringe às suas manifestações mais grotescas, trágicas. E por isso está tão presente em nós... O mal de que fala o Paulo em suas epístolas é o mal corriqueiro que vive em nós e é alimentado por nós mesmos. E que, em certa medida, nos proporciona prazer. Daí a nossa dificuldade de nos desembaraçarmos dele...

Retomando a questão do abuso dos instintos, temos um mal tão comum hoje, que a ninguém repugna em princípio: o comer em excesso. Nele está presente o instinto de conservação. A natureza estabeleceu para algumas das funções deste instinto a sensação de prazer, reconforto, saciedade, como forma de regulá-lo. E ao extrapolarmos os instintos, abusando deles, nos apegamos às sensações e nos viciamos literalmente no hábito de comer em demasia, não mais para nos alimentarmos, mas para extrairmos prazer – bruto ou sofisticado deste ato. É preciso ainda acrescentar que podemos nos dar aos excessos apoiados confortavelmente em mil dissimulações, disfarces, desculpas, prontamente aceitas pelos outros, condescendentes que somos com os desvios alheios, tanto quanto como os nossos...

Os maus hábitos de cada dia por vezes tendem a se perpetuar em nossas vidas por diversos motivos, entre outros, a própria aprovação social dos mesmos. Vivendo em uma sociedade ainda marcadamente materialista e hedonista, não é de surpreender que nos vejamos impelidos a aceitar como natural todas as atrações da matéria e todos os prazeres que isto proporciona.

A luta sem tréguas e sem quartel contra o mal que existe ainda em nós, exige não tão somente conhecimento, mas sobretudo um grande esforço de vontade deliberada e consciente, pois estagiamos ainda próximos das nossas experiências no reino da animalidade; daí nos sentirmos atraídos, arrastados por certas facetas das más paixões. Por isso, não raro, apesar de toda a consciência do bem e do mal, nossos atos de rebeldia ou de invigilância nos embaraça nas tramas de experiências totalmente dispensáveis que trazem por conseqüência direta ou indireta, dores e responsabilidades...

Muitos de nós sucumbimos a estas experiências dispensáveis por estarmos desatentos ao cumprimento dos deveres que nos cabe realizar, às vezes penosos. Para fugirmos à rotina, que nos constrange mas também nos livra de muitos problemas, nos lançamos em certas aventuras que nos causam problemas sem fim.

Outros, desejando testar inconseqüentemente suas próprias resistências, findam por abrir a caixa de Pandora (que segundo a mitologia grega continha todos os males), despertando sentimentos, sensações que deveriam permanecer soterrados, a espera de melhor oportunidade para serem trabalhados, lapidados. Portanto, não tenhamos nunca a mórbida curiosidade de conhecer em toda a extensão a "maldade humana" (a nossa própria e a alheia), cabendo-nos, antes, mantermo-nos em alerta, para evitar que o mal que brota de nós mesmos se alastre e por contágio encontre afinidade com o mal que nasce em outros corações...

Conhecer-se para transformar-se

Para todos que desejem sustentar-se na luta sem tréguas, encontramos em Santo Agostinho uma das estratégias mais eficazes de autotransformação (e por conseqüência de vitória sobre nós mesmos). Trata-se da meditação diária sobre os próprios atos, fundamental se desejamos combater o mal em nós mesmos sistematicamente. A lição agostiniana está inserida na última questão (919 e 919-a) da Parte Terceira Das leis morais, no capítulo XII, Da perfeição moral de O Livro dos Espíritos.

Na primeira parte da questão (919) Kardec indaga dos espíritos: “Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?” A resposta, muito direta e clara é também concisa: “Um sábio da antigüidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.”

Muito arguto, Kardec desdobra a questão buscando solucionar a questão prática que envolve o tema: o como fazê-lo: ”Conhecemos toda a sabedoria desta máxima, porém a dificuldade está precisamente em cada um conhecer-se a si mesmo. Qual o meio de consegui-lo?

Santo Agostinho, como resposta, tece muitas considerações, que resumiremos a seguir:

O comentário breve de Kardec a esta resposta é digno também de exame. E para tanto tomamos a liberdade de transcrevê-lo literalmente:

Muitas faltas que cometemos nos passam despercebidas. Se, efetivamente, seguindo o conselho de Santo Agostinho, interrogássemos mais amiúde a nossa consciência, veríamos quantas vezes falimos sem que o suspeitemos, unicamente por não perscrutarmos a natureza e o móvel dos nossos atos. A forma interrogativa tem alguma coisa de mais preciso do que qualquer máxima, que muitas vezes deixamos de aplicar a nós mesmos. Aquela exige respostas categóricas, por um sim ou não, que não abrem lugar para qualquer alternativa e que são outros tantos argumentos pessoais. E, pela soma que derem as respostas, poderemos computar a soma de bem ou de mal que existe em nós.

A título de conclusão

Diante da banalização do mal que se espalha pelo mundo dos homens, resta-nos individual e coletivamente nos lançarmos ao bom combate, que é constante, exigindo-nos disciplina e perseverança. A guerra do bem contra o mal, tema de incontáveis livros e filmes, deve ser travada nos domínios dos nossos próprios corações, acima de tudo.

Lembrando-nos da alegoria dos ovos da serpente, devemos quebrá-los todos ainda no ninho, antes que libertemos o mal que ainda teima em fazer morada em nós. Se já desencadeamos o mal, somente nos resta sofrer-lhe as conseqüências, com serenidade e resistência.

Se nos embaraçamos nas tramas do mal, não basta arrependermo-nos de nossos atos e nos comprometermos à mudança por desencargo de consciência (ou por quaisquer formas de promessas); é necessário meditarmos profundamente no móvel de nossas ações; é preciso, enfim, mergulharmos a sonda da investigação em nosso espírito para o exame de nossos mais profundos sentimentos e pensamentos.

Se a nossa má ação decorreu, por exemplo, do exercício da violência, devemos buscar em nosso coração as raízes desta violência, esteja ela onde esteja; e somente há um meio de extirparmos definitivamente as raízes de todos os males: estarmos de permanente prontidão para domar, controlar-lhes as expressões... Aprende-se nas reuniões dos Anônimos (alcoólicos, em particular) que nossos vícios (as más paixões) não tem propriamente cura, mas tão somente controle. As lutas sem fim e sem quartel contra o mal exige-nos, desta forma, uma plena disponibilidade de vigilância e oração.

Caso nossa "meditação" acerca das raízes e frutos do mal seja superficial; caso não examinemos com rigor as causas de nossas ações, fatalmente incorreremos nos mesmos erros, quando as circunstâncias mudarem, quando forem outros os cenários. O motivo da reincidência está em que nós não exercitamos nosso "raciocínio moral", que também se desenvolve como o raciocínio lógico, matemático, etc.

Por outro lado, mesmo que não estejamos às voltas com as expressões mais visíveis do mal, como as paixões humanas tornaram-se mais “violentas e devastadoras, no homem que prossegue inquieto”, segundo Joanna de Ângelis, é possível que as conseqüências destas paixões nos atinjam, diretamente ou indiretamente. A tendência de nos refugiarmos no nosso mundo ainda preservado do contágio de tantos males pode nos tornar alheios a este mundo de provas e expiações. Mantermo-nos sensíveis à dor do próximo, por mais que isto nos possa incomodar ou constranger é atitude genuinamente cristã... Refugiar-se na indiferença, como fuga aos incômodos que as dores, as paixões e erros alheios nos causam, não é medida salutar.

Necessário se torna que aprendamos com nossas vivências práticas e com os exercícios do “raciocínio moral” e com um farto material de aprendizagem: os erros próprios e os alheios. O aprimoramento ético-moral exige, enfim, reflexão e mergulho em si mesmo. E se necessário for, que revisemos periodicamente nossas quedas e deslizes no campo moral, ativando a memória para nos lembrarmos dos tantos espinhos que já trazemos cravados na "carne do espírito", tal como ensina Paulo de Tarso. Estes espinhos nos lembrarão a nossa condição de enfermos em estágio de longa recuperação, necessitados de cautela...

E no mais, que acreditemos, como em Juízo Final, canção de Nelson Cavaquinho, que “do mal será queimada a semente / o amor será eterno novamente”, tendo a certeza de que todo o império do mal ruirá quando rompermos os elos que mantemos com as porções inferiores de nossa própria individualidade!

Referências Bibliográficas