Auto Conhecimento – A Chave do Bem Viver

Valéria R. de Santana Diniz

INTRODUÇÃO:

O objetivo do presente estudo é refletir sobre a importância do auto conhecimento e de algumas questões relativas a ele, tendo como fim expandir a possibilidade da experimentação de um viver mais pleno, que aqui denominamos Bem Viver.

Portanto, comecemos conceituando:

Viver= Ter vida, estar com vida, existir.

(Também significa: Perpetuar, gozar a vida sabendo aproveitá-la, habitar/residir/morar, sustento/alimentação, dedicação, conviver, forma de existir)

Viver, portanto pode significar Ser e Estar (no sentido de existir). E neste raciocínio Bem Viver seria Bem Ser e Bem Estar. Façamos então algumas reflexões...

DESENVOLVIMENTO:

BEM SER

A partir dos conceitos anteriormente colocados, podemos iniciar uma reflexão (*) sobre o tema e se objetivamos explicitar a importância do auto conhecimento, vale citar algumas características essenciais apresentadas pelos clientes quando buscam a Psicoterapia.

1º: Qualquer pessoa existente (1) é centralizada em si mesma. A isto acrescenta a percepção de que a neurose seria exatamente um recurso que o indivíduo utiliza para preservar seu próprio centro (2), sua própria existência. A neurose seria uma questão de ajustamento e é isto o que podemos perceber de cada paciente que entra pela primeira vez em nosso consultório: ele, como todos os seres humanos, exige centralidade e esta centralidade foi rompida.

2º: Toda pessoa existente possui a característica da auto-afirmação, a necessidade de preservar sua centralidade.

3º: Todas as pessoas existentes têm a necessidade e a possibilidade de sair de sua própria centralidade para participar com os outros seres.

4º: O lado subjetivo da centralidade é a consciência.

5º: A forma exclusivamente humana de percepção é a autoconsciência. Consciência, neste contexto, é a capacidade do indivíduo de reconhecer-se, de viver dentro do possível, transcender a situação concreta imediata. Acrescenta-se que o padrão neurótico é caracterizado pela repressão e bloqueio da consciência. (3)

Façamos um esclarecimento sobre o que vem a ser a consciência do meu ponto de vista:

Consciência (4) é o local onde habitam as leis de Deus. Ela envolve a participação, a atividade e o envolvimento do Ser e podemos dizer que existem níveis de consciência.

O consciente caracteriza o uso do potencial criador ou criativo da criatura.

O inconsciente é um local de armazenamento; não existe deste ponto de vista, inconsciência.

 

Percebemos a nossa existência ou a de outrem, questionando sobre seu conteúdo existencial (o que/quem sou? Ou o que/quem o outro é?), sua forma (como sou?) e significado (para que sou?) a partir das expressões peculiares à sua realidade. Faz-se, portanto, uma diferenciação entre saber (subjetivo) e conhecer (objetivo).

Esta é uma reflexão interessante no que diz respeito à tendência na nossa cultura em acreditar que uma coisa não será real a não ser que possamos expressá-la matematicamente (5). Isto significa abstrair a experiência, retirando sua condição de realidade concreta, segmentando-a para somente depois permitir percebê-la como real. É a negligência da realidade subjetiva, característica unicamente humana, como verdade existencial (6). Desta maneira o homem seria reconhecido não como um Ser, mas através de uma qualidade externa a ele que por este é exercida - por exemplo, sua atividade econômica, porém, “Ser é aquilo que permanece. É isso que constitui esse complexo infinito de fatores determinantes dentro de uma pessoa a quem as experiências acontecem e que possui um mínimo de liberdade, não importa quanto, para tornar-se consciente de que essas forças estão agindo sobre ela.

O termo “Ser humano”fica mais claro se considerarmos que o verbo “ser” implica em alguém estar passando por um processo de ser alguma coisa, de transformar-se. Só será possível compreender um outro ser humano se observarmos a direção que ele toma, no que ele está se transformando e só podemos conhecer a nós mesmos quando projetamos nosso potencial nas nossas ações. Este processo demanda consciência e responsabilidade de si e por si mesmo. Ser e não-ser, é a decisão tomada a cada instante. Discordamos da máxima de Descartes “Penso, logo existo” e a corrigimos: Eu sou, e portanto eu vejo, eu sinto, eu ajo.

A lucidez sobre o “Eu sou” não soluciona diretamente os nossos problemas existenciais, mas é uma condição de acesso à administração. Lembramos aqui que soluções vêem de Deus, a nós é possível administrar e gerir os problemas que vivemos. “A realização do sentimento de ser é uma das metas de qualquer terapia mas, no sentido mais específico, é uma relação consigo mesmo e com o mundo individual, é a experiência da própria existência pessoal, que é um pré-requisito para a possibilidade de trabalhar problemas específicos”.

O fenômeno ser e não-ser impõe-se mutuamente. Para que se compreenda o significado do termo existir, é necessário que haja conhecimento do fato que há a possibilidade de não existir. Assim sendo, a existência nunca é automática, ela pode ser confiscada ou eliminada a cada momento e se faz necessária a consciência do não-ser, de que eu poderia não existir (7). A questão que vem à tona neste momento é como o ser se relaciona com a morte. O confronto com a morte oferece a mais positiva realidade à própria vida, é o que torna a existência individual real, absoluta e concreta. O conformismo do homem moderno talvez seja a forma mais presente do fracasso existencial. Corresponde à perda da condição de uso do consciente, das potencialidades e de tudo o mais que caracterize o ser como único e original. Há certamente o ganho do escape temporário da ansiedade, ao preço contudo, da perda de seus próprios poderes e do sentido existencial.

Estas questões levam ao tratamento de quatro temas básicos da vida humana, que podemos denominar pressupostos básicos da existência. A saber: a morte, a liberdade, o isolamento existencial e a carência de sentido da vida. Em suma, disto tratam inúmeras questões e reflexões sobre a vida humana. Basicamente também é disto que a Doutrina Espírita trata e é no saber sobre isto que devemos nos debruçar.

R. May nos oferece uma reflexão interessante sobre a ansiedade, tão presente nestes tempos modernos. A ansiedade é uma característica ontológica (8) do homem, enraizada em sua existência. Ela representa uma ameaça aos alicerces da existência, é algo que somos e não algo que possuímos, é a experiência da ameaça de iminência do não-ser. Explicando ainda melhor, ele diz que “a ansiedade é o estado subjetivo da conscientização por parte do indivíduo de que sua experiência pode ser destruída, de que ele pode perder o próprio ser e seu mundo.”

A ansiedade ocorre no momento do aparecimento de alguma potencialidade ou possibilidade, a probabilidade do indivíduo preencher sua existência. Entretanto, esta possibilidade implica na destruição da segurança atual, que paradoxalmente provoca a tendência de rejeitar a nova potencialidade. É a presença de um nascimento, de algo novo, que marca o lugar da ansiedade, por sua vez fortemente ligada à liberdade, já que é necessário que haja liberdade para existir a possibilidade de vazão de uma nova potencialidade. As pessoas renunciam à liberdade na expectativa de se livrarem da ansiedade. De qualquer forma esta é uma forma positiva de se compreender a ansiedade: a presença de uma possibilidade. A condição enfim, do ser quando em confronto com a questão de dar vazão às suas possibilidades é a ansiedade. Se a liberdade, as potencialidades e a ansiedade são rejeitadas, a condição do ser passa a ser a da culpa, onde o indivíduo está em débito com aquilo que é dado em sua origem. A culpa é também uma característica ontológica do ser, pois está alojada no fato da autoconsciência. Esta culpa ontológica não deve ser confundida com a culpa neurótica ou mórbida, que acarretam formação de sintomas. A culpa ontológica produz efeitos produtivos na personalidade, como por exemplo, o acesso à condição de administração da própria vida – e não controle – atitudes que geram a vivência da aceitação produtiva e da sensação de conforto íntimo.

Um outro aspecto útil a se observar nesta questão do auto conhecimento é o mundo particular da pessoa. Um dos problemas mais fortes no homem moderno é o fato dele ter perdido seu mundo. Kierkegaard e Nietzsche diziam que os dois focos de ansiedade e desespero no homem ocidental eram a perda do senso de ser e a perda de seu mundo - tanto no que diz respeito ao mundo humano quanto ao mundo natural. Os sintomas de isolamento, alienação e a atitude de indiferença refletem o estado de uma pessoa cuja relação com o mundo foi rompida.

Penso ser muito pertinente a observação que o autor faz de que a manifestação típica do problema psíquico da atualidade não é a histeria, como era na época de Freud, mas o traço esquizóide - marca de problemas em pessoas que se isolam, não se relacionam, perderam o afeto, estão despersonalizadas e escondidas atrás do intelectualismo e do tecnicismo.

Historicamente, esta atitude de isolamento, mostrou-se recuada na Idade Média, onde o homem de alma cristã poderia ser considerado como tendo estabelecido um relacionamento com o mundo. Após Descartes é que ficou rompida a relação entre a alma e a natureza.

A pessoa e o mundo são uma estrutura unitária. O mundo é uma estrutura de relacionamentos importantes no qual a pessoa existe e de cujo plano participa. Diferencia-se do ambiente, pois não podemos ter a compreensão do mundo de uma pessoa através da descrição de seu ambiente. As influências operam da forma como a pessoa se relaciona com elas. Existem tantos espaços e tempos, quantos forem os sujeitos. O mundo não é só acontecimentos , mas as possibilidades com as quais o ser projeta ou constrói o seu mundo. É enfim, um padrão dinâmico que existe desde que o ser possui autoconsciência.

Uma reflexão sobre o tempo também é importante no presente estudo. Situa-se o tempo no centro do quadro psicológico humano - onde existência não “é”, mas deve ser considerada do ponto de vista do “sendo”. A existência emerge, se desenvolve no tempo, e não pode ser definida em pontos estáticos e sim transcendendo as limitações imediatas do tempo. As experiências psicológicas mais profundas são aquelas que abalam a relação do indivíduo com o tempo. A ansiedade grave e a depressão, por exemplo, apagam a noção de tempo e especialmente de futuro. Outro exemplo são os sintomas neuróticos, a repressão e outras formas de anulação da consciência, que objetivam boicotar uma relação normal do passado com o presente. A compreensão de si mesmo depende da projeção para o futuro, num processo de renovação. A memória, neste contexto, segundo Alfred Adler, é um processo criativo, um espelho do estilo de vida do indivíduo: lembramo-nos daquilo que nos é importante para o nosso jeito de viver.

A capacidade de transcender a situação imediata é uma característica complementar da existência do ser. Transcendere significa ultrapassar ou passar além de, que é justamente o que um ser humano normal se empenha em fazer cada instante. É a capacidade de abstrair, de usar símbolos, de orientar-se além dos limites imediatos do tempo e do espaço conhecidos, de pensar em termos do possível. É também o que fazemos quando trazemos ao momento presente tanto o passado quanto o futuro. A auto consciência remete à auto transcendência, e vice-versa. Esta capacidade de transcender a situação imediata não é uma aptidão, e sim outra característica ontológica do ser. É a base da liberdade humana - a liberdade em relação ao mundo é também um sinal da pessoa psicologicamente saudável.

Neste movimento de aprendizado e de busca as emoções têm papel fundamental. Emoção é o ato de mover. As emoções são mestras que têm por objetivo nos ensinar quem somos e o nosso viver. Cada uma delas traz consigo uma lição específica e sua presença em nossas vidas significa o que temos a aprender. É por isto que algumas emoções são mais freqüentes que outras. Elas trazem o nosso tema de vida. “Aprender a aprender a viver” significa aprender com as próprias emoções. E não conhecer as próprias emoções significa não conhecer a si mesmo. Saber de si mesmo relaciona-se com saber de suas emoções. É um suicídio psíquico se privar de se emocionar. (1)

O auto conhecimento envolve a postura de auto dignificação do Ser, onde a compreensão da nossa filiação e merecimento faz-se imprescindível neste processo. Considerando a realidade prática, vale lembrar:

Para fazer por merecer e por merecer-se é preciso:

Acionar a causa e os efeitos positivos (na lei de causa e efeito todo ato e não ato tem conseqüências).

Sair da teoria e passar à prática, testando os conhecimentos (criar uma referência relativa a si mesma confiável - Referência é aquilo que parte de nós, relativa é o que serve para mim mas não serve para o outro e confiável é o que eu já experimentei e sei o resultado).

Fazer uso do próprio potencial (tomar posse do que já é nosso, ter domínio de si, ser dono de si).

Aceitar a realidade tal qual é e não como gostaríamos que ela fosse ( a realidade é o nosso espaço de realização).

Transformar culpas em responsabilidades, remorsos em arrependimentos e erros em acertos (devagar e com certeza).

Recuperar e acreditar na intenção (ação interior, primeira ação que antecede a materialização). (9)

BEM ESTAR

Faz-se necessário diferenciar bem estar de estar bem. Este segundo é circunstancial, depende do lado externo ao ser e nada tem a ver com o que pretendemos abordar, que envolve a intimidade deste ser.

Bem estar equivale a Base (Corpo Físico), Meio (Corpo Mental) e Topo (Espírito), circulando, movimentando com potencial máximo pessoal (pessoal no sentido de que cada pessoa tem um jeito). É aproveitar as situações favoráveis para colocar-se diante de si mesmo e do mundo com o que se tem. Em outras palavras, é uma aceitação produtiva da própria existência – o que sou, como sou e para que eu sou aqui e agora. Aceitação produtiva é ainda a utilização do auto conhecimento, mesmo que restrito, potencializando um máximo de objetivos – é saber usar o que se tem. Difere da postura de acomodação que geralmente produz a insatisfação crônica.

Bem Estar é mudança, é também dúvida já que as mudanças estabelecem questionamentos sobre a existência. São entradas e saídas do sistema, que é o Ser, dúvidas e certezas, onde a cada pergunta caberá também uma resposta, o que estabelece o crescimento.

Considerando então o ser como uma organização triunitária (9), e não apenas unitária com o mundo, bem estar da base é o estado consciente de que o corpo é sustentação, é o cuidado com o corpo, com a respiração, alimentação, sono. É o contato com a vida pelo prazer e pelo brincar. É a escuta atenta dos sinais do corpo, dos sintomas. É o respeito através do bom uso do mesmo. É também a gratidão pela “carteira de trabalho” neste plano da vida, via encarnação neste planeta. É a sensação de singularidade.

Bem estar do meio é o estado consciente de que a mente é o correio entre a base e o topo. Isto é, que leva e traz notícias da energia de baixo para cima e de cima para baixo. É a certeza de que as energias mentais são menos densas que a do corpo e devem ser trabalhadas de forma mais sutil. São energias hierarquicamente superiores à base. É também o respeito ao desconhecido localizado neste nível.

Bem estar com o topo é a vivência da intenção de parceria com Deus. (9)

Ao final destas reflexões fica colocada a importância do auto conhecimento como chave, instrumento de acesso, à possibilidade de um existir mais autêntico e por conseqüência mais pleno, uma vez que: Bem Ser + Bem Estar = Bem Viver.

http://www.psicologiaamemg.hpg.ig.com.br/Auto_conhecimento.htm