Crer em Tudo

Valentim Lorenzetti

Paulo de Tarso, em uma das mais completas definições de que até hoje se tem conhecimento, diz, entre outras coisas; que a Caridade em tudo crê.

Ao espírita, ou ao homem afeito ao uso sistemático do raciocínio, isto parece uma farsa, uma afirmação intolerável. Apenas aparência. Na realidade, ou, melhor, do ponto-de-vista espiritual, a afirmação do Apóstolo dos Gentios é das mais justas, das mais verdadeiras, das mais evangélicas.

A caridade em tudo crê. Tomemos um exemplo. Um homem esfarrapado e sujo nos aborda na rua; pede-nos ajuda. E, como todo pedinte, esse homem acompanha seu pedido de uma explicação. Me dá uma ajuda para comprar pão para meu filhinho e remédio para minha mulher doente".

Suponhamos que esse homem já tenha abordado, num dia, dez indivíduos. Oito lhe deram alguma coisa, mas nem sequer ouviram sua arenga, a sua explicação. Isto é, oito deram para se ver livres. Duas outras pessoas, entretanto, nada deram: não tinham recursos ou não acreditaram na história que o homem ia contar. Sim, ia contar, porque geralmente abanamos a cabeça negativamente a qualquer gesto de súplica.

Pois bem! Suponhamos agora que esse homem - o pedinte - encontre a Caridade descrita por Paulo de Tarso. É claro que a Caridade neste caso será o dom de um Espírito encarnado. A Caridade ouvirá a história contada pelo homem e nela crerá. Dará o auxílio que estiver a seu alcance, e uma palavra de conforto. Sim, uma palavra de conforto, porque a Caridade acreditou naquilo que o homem lhe disse. E, se acreditou, se achou realmente verossímil o drama exposto, será lógico que ofereça uma vibração de estímulo à pessoa necessitada.

"Foi no conto do mendigo", dirá muita gente. Acreditamos mesmo que na maioria das vezes, a Caridade seja levada a aceitar o "conto do mendigo". E daí? Não sabemos nós - pela palavra de Emmânuel, André Luiz e outros instrutores - o valor da caridade ? Vejam o que acontecerá ao mendigo mistificador após o desencarne:

Depois de sofrer nas zonas purgatoriais em que será atirado pela própria consciência culpada, um dia será socorrido por benfeitores do Espaço. Será, contudo, um espírito rebelde, trazendo consigo o amargor do desprezo e do descrédito que os homens lhe votaram. Indentificará os benfeitores espirituais como homens que irão tripudiar sobre sua desgraça, como aqueles que na Terra lhe atiravam a moeda sem se quer lhe tocar as mãos. Os abnegados amigos espirituais usarão então do recurso da regressão de memória: diante do infeliz começarão a surgir quadros de sua desgraça - homens escarnecendo de sua mistificação, em sua grande maioria. Mas, oh! Caridade, luz imorredoura na Eternidade de um espírito! aparecerá o quadro daquela pessoa que um dia ouviu o seu drama mentiroso, acreditou em sua triste história.

Apenas este quadro será Diante dos olhos enfurecidos suficiente para que o infeliz Espírito, reconheça a própria mistificação. O pranto convulsivo será o sinal deste reconhecimento; será o início de uma longa caminhada que o levará à regeneração. Pobre Espírito infeliz; pensava que toda a Humanidade era credora de seu ódio, mas encontrou alguém que lhe quebrou a cadeia de rebeldia: encontrou um elo - um único que não era feito de ódio: era só Amor. Esse elo chama-se: Caridade. E, com esse elo, o Espírito infeliz reencetará a formação da grande corrente que o levará à Perfeição.

Perguntamos: existe maior caridade do que aquela que indica ao filho perdido o caminho de volta à casa paterna? Meditemos, sobre o crédito incondicional que a Caridade dá a todos.

Paulo de Tarso, entretanto, limita esse crédito incondicional apenas à Caridade; ele não o atribui também à Fé. Pois, em matéria de Fé ou de crença religiosa, aprendamos com Kardec: "É preferível rejeitarmos 99 verdades do que aceitarmos uma mentira".

(O Clarim - Outubro - 1971)