Espiritismo e Injustiça Social

Heitor Luz Filho

Apesar de Karl Marx haver marcado uma das maiores etapas na história do mundo, os fundamentos econômicos de sua teoria, mesmo havendo lhe granjeado uma universidade de conceitos, não trouxeram para a humanidade a desejada e necessária paz. Pelo contrário. Foi a partir de Marx que a luta se acentuou. Luta por uma chamada libertação econômica, mas que conduz, invariavelmente, os povos a uma outra forma de servidão política e cultural. Tentando igualar os homens pela posse eqüitativa dos bens materiais, acendeu a chama do ódio e do egoísmo. Desfraldando a bandeira da extinção de classes criou, nos países em que se implantou como regime de governo, uma nova classe, um novo tipo de burguesia política, pela inversão dos planos e categorias sociais. Em sua doutrina, mesmo sem cogitar do Cristianismo, apesar de não poder ignorá-lo, deu-lhe uma dimensão puramente linear ao negar a substância espiritual do homem e limitar-se ao interesse imediato no campo sensório. A sua ética, fundada no provisório, no imediatismo das condições materialistas e nos postulados hegelianos, transformou a raça humana num agrupamento de seres econômicos, em que o princípio cristão das individualidades coletivas é substituído pela coletivização do individuo, ou melhor, pela massificação operária. Pela supressão dos valores positivos que emanam do espírito ou, mais compreensivelmente, da alma humana, levou a própria sociedade aos descaminhos da desumanização. Situando o homem apenas na superfície de si mesmo como elemento de exigências estritamente primárias, colocando-o única e exclusivamente no plano biológico, Marx deu-lhe como roteiro, pela ausência de perspectivas, um catecismo de ódio. Acenando com a conquista dos bens exteriores como fim último, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, estimula um in­consciente individualismo pelo aguçamento da vaidade, do orgulho e dos fatores egoísticos imanentes na personalidade humana, anula no homem a ânsia pela conquista dos bens do espírito consubstanciados na fraternidade e no Amor. Ao contrário de Jesus, que afirmou não ser deste mundo o Seu Reino, pretendeu Karl Marx, escorado na dialética do materialismo histórico, encobrir a verdade transcendental que se contém na vida e no destino humano. Para o filósofo e economista, como para o político Lenine o homem é, apenas, máquina de produzir riqueza. Não lhes importam os valores éticos de sua formação espiritual. E se esses valores vierem, algum dia, de qualquer forma, opor obstáculos à implantação de sua ética, a solução será destruí-los, alterando-se e substituindo-se, inclusive, as estruturas políticas e sociais que os sustentam. Permanecendo no plano primário, entende o marxismo ser uma injustiça a desigualdade social. E, como injustiça, refletindo um desequilíbrio formal e substancial entre grupos humanos, deve ser reparada, mesmo à custa de sangue - pela violência e pela luta armada.

Injustiça social, como se verifica, encerra um conceito puramente materialista, emanado de uma ética divorciada da verdade cristã. Constitui-se, somente, como fenômeno restrito ao campo econômico, com as inequívocas derivações e inevitáveis conseqüências. E isso em que pese, por estranho, a adesão das religiões chamadas ortodoxas, como a Igreja Católica.

Essa identificação de conceitos que estabelece um inusitado paralelismo entre o materialismo marxista e a doutrina social da Igreja, como ressalta das inúmeras encíclicas - “Rerum Novarum”, “Mater et Magister” e “Populorum Progressio” - decorre do princípio teológico da unicidade da vida humana. Não admitindo a Igreja a preexistência do espírito, nem o marxismo, sequer a sua existência, não tiveram, todavia, um e outro, diversa alternativa senão a de atribuir os males sociais a causas atuais. Isto é, tanto para o ortodoxismo religioso. como para o marxismo, os desníveis humanos têm causa e efeito restritos, no tempo e no espaço, ao plano biológico - único plano em que repousa e se limita, para ambas as doutrinas, a existência humana.

Esse entendimento, porém, de injustiça social por parte da Igreja, não só é incompatível com o seu finalismo, como até resulta numa peremptória negativa dos atributos de Deus, ainda que se aceite, apenas em benefício de argumento, a teoria da unicidade da vida. Eis que, criada a alma humana por sopro divino no instante mesmo do nascimento do corpo material, as diferenças físicas e mentais, assim como as desigualdades sociais terão de ser levadas à conta exclusiva de Deus.  que, nascidos todos iguais, sem comprometimentos morais e espirituais de vidas anteriores, estariam os homens, feitos à imagem e semelhança de Deus, sendo objeto de tratamento discriminatório por parte do próprio Criador. E as desigualdades sociais, tidas pela Igreja e pelo marxismo, como injustiças, teriam lugar sob o olhar complacente de Deus que, por omissão ou até mesmo por sadismo, as estaria aprovando. E até a violência, na derrubada da tirania dos grupos econômicos, teria a chancela divina, como se lê na encíclica “Populorum Progressio”:

“Certamente há situações cuja in­justiça brada aos céus. Quando populações inteiras, desprovidas do necessário, vivem numa dependência que lhe corta toda a iniciativa e responsabilidade, e também toda a possibilidade de formação cultural e de acesso à carreira social e política, é grande a tentação de repelir pela violência tais injúrias à dignidade humana”.

“Não obstante, sabe-se que a insurreição revolucionária - salvo casos de tirania evidente e prolongada que ofendesse gravemente os direitos fundamentais da pessoa humana e prejudicasse o bem comum do país - gera novas injustiças, introduz novos desequilíbrios, provoca novas ruínas”.

Aí está a razão de tantos setores da Igreja confundirem ação evangélica com ação política.

Ninguém alcançará o Reino dos Céus se não nascer de novo, disse o Cristo. Essa é a lei da reencarnação, consubstanciada na doutrina das vidas sucessivas. É a pré-existência e a sobrevivência do espírito. É a lei da responsabilidade cármica a estabelecer um elo, uma relação de causa e efeito entre os fatos e atos das vidas passadas e a vida atual de cada um e da coletividade.

Assim, é com base e fundamento na reencarnação e no principio evangélico de que cada um receberá o que merecer e que a semeadura é voluntária, mas e colheita obrigatória, que a chamada “injustiça social” não pode ter guarida na doutrina espírita. Carmas individuais e carmas coletivos, a vida humana, quer dos indivíduos, quer dos grupos, reflete sempre, na sucessão dos dias, a realização das provas a que todos somos submetidos em razão exclusiva das ações e dos pensamentos nas vidas pretéritas.

Na realidade, pois, não há injustiça social. Há desníveis humanos que podem e devem ser reparados, não pela violência, mas pelo Amor e pela reforma interior do próprio homem.

(Revista Internacional de Espiritismo - Julho - 1969)