Fidelidade x Fraternidade

Edvaldo Kulcheski

A conjunção das relações humanas junto às práticas doutrinárias nem sempre consegue alcançar a harmonização desejável. Paralelamente ao exercício do amor e da fraternidade surgem conflitos, no campo das idéias, inalcançáveis pelo bom senso, que é a prerrogativa pessoal muitas vezes afastada da lógica universal.

Na conceituação psicológica de racionalização vamos encontrar o entendimento para muitas de nossas posturas distorcidas. Movidos quase que invariavelmente pelo orgulho e pela vaidade, sentimos enorme dificuldade de ceder de nossos pontos de vista e interpretações em favor de outras mais ponderadas. Como recurso de "sobrevivência" empregamos justificativas desconexas para a prevalência de posições inaceitáveis que acarretam conflitos, não somente internos, entre o "EU" e o "EGO", mas exteriorizados nas relações humanas. A simples interrupção das disputas ou o passar de poucas horas é suficiente para nos apercebermos das absurdidades que defendíamos. Mas, mesmo assim, preferimos o silêncio ao reconhecimento de nossos erros.

Essa postura, tão comum nas relações interpessoais, é móvel de incontáveis contendas em nossas casas espíritas, onde cada um imagina-se sempre como defensor da fidelidade doutrinária, sem emprestar ao próximo a mínima parcela da razão. Em um mundo como o nosso, onde o homem detém relativa parcela da verdade, não conceder, a si próprio, uma possibilidade percentual de erro em disputas ideológicas, é demonstração de imaturidade e imprevidência. Um rápido olhar em nossa história passada evidenciará a fragilidade de nossas posições, muitas vezes devastadas pelo tempo.

Movidos, assim, com embasamento instável - o das nossas próprias verdades - é que vemos companheiros faltarem com a fraternidade, desfraldando a bandeira da fidelidade doutrinária.

Não que devemos em nome da incerteza abandonar a preservação da pureza dos ensinos da codificação, mas, porque, é forçoso reconhecer, se na base do edifício do Espiritismo encontramos postulados solidamente fincados pelo codificador, ao subirmos pelos andares da vivência do movimento espírita nos deparamos inevitavelmente com questões inquietantes. Se assim, não fosse, não estaríamos observando as diferenças inumeráveis, e respeitáveis, que acontecem nas instituições de todo o país. Só o tempo e a conseqüente evolução do homem, que protagoniza a história espírita, definirão comportamentos mais estáveis e verdades mais absolutas.

Contudo, o exercício da fraternidade é questão resolvida pelo Mestre Jesus, que não deixou dúvidas quando afirmou: "Nisto todos conhecerão que são meus discípulos, se vos amardes uns aos outros". (João 13:35).

Abraçar o que já é definitivo, mantendo o debate em nível salutar e respeitoso, deixando à posteridade uma definição final sobre questões polêmicas, é sinal de sabedoria e prudência.

Não podemos imaginar o cotidiano de nossas relações nas atividades espiritistas sem que o amor seja o traço-de-união entre todos os adeptos. Já assistimos casos em que a verdade nos parecia clara, apesar da falta de entendimento entre ambas as partes. Quando os ânimos asserenaram e a voz da consciência assumiu o papel de guia individual dos contendores, a verdade brotou inestancável das próprias circunstâncias. Isto porque, pela força do progresso, ela emerge da ignorância para ofuscar com sua luz a visão dos orgulhosos ou para clarear a jornada dos que, com serenidade, por ela aguardam.

Obviamente que não fazemos a apologia da estagnação e da inércia, já que o homem é uma força da natureza que promove o progresso, mas que, quando voltado para o seu egocentrismo, pode obstaculizá-lo temporariamente.

Em um momento de transição como o que vivenciamos, onde valores antigos encontram a derrocada e novas opções são buscadas pelo homem que herdará a Terra, onde o choque de idéias caracteriza a diversidade das opiniões distribuídas pelo espectro de ações existentes entre o bem e o mal, a verdade e a mentira, a fraternidade é fator preponderante para a estabilidade e o equilíbrio nas relações humanas. E, sem estabilidade e equilíbrio, a nau do movimento espírita ficará sujeita à tempestuosidade do pensamento humano.

Observando os exemplos de Jesus, recordamos que no confronto de idéias, diante de irmãos exasperados ou agressivos, o Mestre adotava a opção da paciência e do silêncio. Na sua visita à cidade de Nazaré, narrada no livro "Boa Nova", de Humberto de Campos, Ele teve motivos de sobra para assumir uma postura revanchista diante das calúnias que recebeu, aliás, como queriam os apóstolos. Mas preferiu afastar-se, alegando que não se colhem uvas nos espinheiros.

Em "Obras Póstumas", encontramos mensagem do Espírito Inocente que parabeniza Allan Kardec afirmando: "Sabeis que responder a todos os ataques seria travar uma polêmica sem resultados. O vosso silêncio prova a vossa força..."

"... o Senhor dirá: Vinde a mim, vós que sois bons servidores, vós que soubestes calar os vossos melindres e as vossas discórdias, para que daí não viesse dano à obra".

Que, então, antes de vencermos as batalhas das ideologias, possamos vencer a batalha do personalismo inferior, sucumbindo com o orgulho e a vaidade, para que o Bem desabroche na convivência fraterna de irmãos, que, em verdade, somos todos diante de Deus.

Referência: Jornal Mundo Espírita, edição Junho/97 (João da Silva Carvalho Neto)