Formação de colaboradores no centro

Conselho Federativo Nacional de Portugal - 1998

Tema apresentado por Jorge Gomes em nome da Escola de Beneficência Caridade Espírita (Quinta do Arieiro - S. João de Ver)

Item do temário do CFN: Actividades associativas locais (lacunas a preencher em áreas como formação de colaboradores, etc.)

  1. Introdução

    É evidente que algumas associações já o fazem. Mas muitas outras não.

    Umas fazem-no bem... à sua maneira. Outras concretizam essa tarefa, de forma diferente, mas também... à sua maneira.

    Não importa se uma faz melhor que outra. O que é relevante é que o façam em consonância com Allan Kardec.

    Estamos a falar de formação de colaboradores no centro. Um assunto demasiado importante desde ontem.

    Após 1974, quando o direito de associação foi restaurado pela Revolução dos Cravos, quem ia frequentando o centro e se convertia em colaborador, como sucedeu com tantos de nós, não tinha outra formação que não fosse a do improviso.

    Hoje, graças a Deus as condições são bem melhores. Porque já é possível dispor de cursos sempre aperfeiçoáveis, com base didáctica e estruturação cativante.

    Parece haver dois caminhos, e na falta de talento para escolher melhores palavras: o dos antigos e o dos novos. O dos antigos parece identificar-se, salvo honrosas excepções, com o improviso e com o "vê como eu faço e faz o mesmo também". O segundo grupo parece querer organizar a formação do colaborador, avaliar discretamente a sua capacidade de assimilação e de trabalho, antes de pouco a pouco, após o ter preparado, o integrar nas actividades do centro.

  2. O calendário semanal de actividades e o grau de exigência de formação

    As actividades clássicas de qualquer centro geralmente desdobram-se neste plano de diversidade:

    1. Atendimento particular ao visitante do centro.
    2. Palestras (seguidas ou não de passe magnético, colectivo ou individual).
    3. Aula de infância.
    4. Aula de juventude.
    5. Reuniões mediúnicas (especificam-se em reuniões de educação mediúnica; de atendimento a espíritos desencarnados; e reuniões de desobsessão).
    6. Grupo de assistência social.

    O grau de exigência de formação em todas estas tarefas é elevado.

    É notoriamente mau deixá-las ao improviso de lançar para a tarefa quem apenas reúne em si próprio boa vontade e um ou outro conhecimento disperso.

    Numa escala de 1 a 5, na nossa opinião a necessidade de formar gente varia entre cada tarefa da seguinte forma, independentemente da responsabilidade em causa:

    1. IV
    2. III
    3. V
    4. V
    5. V
    6. III

    Deveria juntar-se o seguinte plano: um ano de Curso Básico para uma ou mais turmas de 15 a 20 inscritos (inscrição gratuita) cada, transitando cada turma para o ano lectivo seguinte, sendo neste segundo período de tempo ministrados, nos mesmos moldes, vários minicursos encadeados sobre cada tarefa específica desenvolvida no centro.

    Porque é fundamental fazer com mais consciência; ou seja, saber fazer...

    SABER FAZER
    Um bom pescador estuda para bem pescar.
    Um bom carpinteiro estuda para bem servir.
    Um bom engenheiro estuda para bem trabalhar.
    Um bom médico estuda para bem tratar.

    Quem abraça tarefa no centro espírita, embora não faça sentido ter salário, deve também ser um bom estudioso para ser mais útil.

    Por isso, o Centro Espírita terá que ter um plano de formação (dura 2 anos), formado por módulos sucessivos.

    Dá matérias básicas e fornece especializações.

    Allan Kardec já recomendava: «O espiritismo, bem entendido, é o meio único de... tornar-se, como dizem os espíritos, a grande alavanca de transformação da humanidade».

    («Obras Póstumas»)

    É necessário...

    «... um curso regular de espiritismo, no intuito de desenvolver os princípios da ciência e de propagar o gosto pelos estudos sérios. O curso teria a vantagem de fundar a unidade de princípio, de fazer adeptos esclarecidos, capazes de propagar as ideias espíritas (...). Considero esse curso como elemento de influência capital sobre o futuro do espiritismo e sobre as suas consequências» (Obras Póstumas»)

    Falou-se, linhas acima, de Curso Básico.

    O que é o Curso Básico?

    Um Curso Básico de Espiritismo é um programa de base didáctica, bem enquadrado na codificação espírita, onde são ensinadas as noções, conceitos e informações histórico-conceptuais estudadas e publicadas por Allan Kardec.

    O seu objectivo é o de, findo o ano lectivo, os inscritos compreenderem o que é o espiritismo, o que é a mediunidade, os pontos estruturais da doutrina e o seu enquadramento na vida, numa concepção científica, filosófica e ética.

    Os meios necessários para o êxito deste curso é uma sala acolhedora (de preferência com um projector de acetatos e um quadro de giz ou de canetas de filtro), com um ou dois (desejável) monitores formados para o efeito.

    A duração deve ser anual; por exemplo, de 01 de Outubro a 30 de Junho.

    O que são esses Cursos Específicos do segundo ano de formação?

    São minicursos, alguns deles baseados em apostilas compiladas pela Federação Espírita Portuguesa*, que ensinam sobre:

    Os itens educação da mediunidade e reuniões de infância e juventude, bem como assistência social, deveriam, a nosso ver, ser aplicados, no que respeita à sua formação, fora do plano bi-anual.

  3. Novas vertentes

    A Internet já chegou há muito. Este meio cresce vertiginosamente.

    Centros com pequenos auditórios (sejam eles de 500 lugares, de 200, de 100 ou 20) têm ao seu dispor, quase sem despesas, um auditório virtual que pode atingir um dia os milhares de audiência semanal, e abertos 24 horas por dia. Basta comprar um correio electrónico ou e-mail (4.500$00 de dois em dois meses), usá-lo num computador, e conceber e executar um conjunto de páginas (há quem as faça em casos especiais por preço muito acessível) para serem incluídas na Internet.

    As associações mais actualizadas estão a realizar as primeiras experiências neste campo: uma seara imensa.

    Depois do Curso Básico e dos Cursos Específicos no ano seguinte, será fácil encontrar quem oriente o movimento desta área tão acessível e riquíssima em matéria de comunicação.

  4. Consequências

    Hoje em dia, qualquer louco mais ou menos disfarçado pode ser dirigente de um centro espírita...

    Dizem os técnicos que as fronteiras entre esse tipo de alienação e a chamada normalidade são demasiado ténues para serem traçadas à risca.

    Basta a alguém encher de nomes os cargos de uma associação, constituí-la em notário, ter uma prática presumivelmente mais ou menos espírita, e aí está, quantas vezes, mais uma associação federada. Era assim até há uns poucos anos... O futuro, veremos.

    Pagam as associações idóneas por uma ou outra malformada nesta situação. Quase sempre, são derivadas de outros centros, que por exemplo perderam obviamente eleições e se retiraram para poderem ocupar os seus cargos de importância (subjectiva)...

    Será este um cenário de ficção? Já não sei se é.

    O futuro (equivale a dizer, o presente) pode ser muito preocupante.

    A nosso ver, uma ajuda ao controlo destas situações indesejáveis passa obrigatoriamente pela instauração dum plano como o que apresentámos nas associações federadas que ainda não o tenham organizado. Seria possível, assim, separar com tranquilidade e vagar o trigo do joio. É fácil, neste sistema, identificar qualquer "gato escondido com cauda de fora".

    Outra das vantagens deste plano é o de permitir ao longo, por exemplo, de uma década, formar (seriam 5 turmas) novos colaboradores/dirigentes da casa espírita, com maior número de candidatos idóneos. Seria muito difícil depois encontrar dirigentes septuagenários ou quase sem saberem a quem entregar o centro que dirigem quantas vezes desde que o fundaram. Não é estranho que as causas disso estejam supostamente fora das suas próprias opções de serviço?!

    Léon Denis escrevia que o movimento espírita será aquilo que dele os homens fizerem (mulheres incluídas também!). Allan Kardec recomendava a criação de cursos. Aqui lembramos: como é possível dar cursos sem que haja formação de monitores...

    Já existem apostilas, os recursos técnico-didácticos estão cada vez mais acessíveis, já existe gente com formação nessa área no movimento português.

    O futuro começou ontem e continua hoje. Depende das opções de cada um de nós.