No Lar Espírita

Edvaldo Kulcheski

Nas asas do tempo, a Humanidade planetária caminha rapidamente para o Terceiro Milênio, de cujo início estamos apenas a pouco menos de três anos.

Grande é a expectativa dos homens. A verdade é que a grande massa humana nada cogita a respeito: comem, bebem, gozam, sofrem e fazem sofrer, casam e procriam, separam-se indiferentemente, como se nada lhes dissesse respeito o tempo.

É justo, portanto, que as nossas atenções, fazendo eco com o Mundo Espiritual superior, estejam voltadas para o Lar Espírita neste instante deveras preocupante.

Conhecemos a importância imensa do instituto da família, cujas origens sagradas, consoante nos confidencia Emmanuel, estão na Esfera Espiritual, reunindo via de regra, na Terra, aqueles que se comprometeram no pretérito, tendo em vista suas carências evolutivas e a necessidade de cultivar e desenvolver, aqui a fraternidade real.

Não obstante preponderem nesse instituto sublime os elos do Amor fundidos no passado distante, as criaturas humanas, fazendo pouco caso das advertências de seus guias espirituais através da intuição e dos sonhos, fazem questão de manter suas atenções dirigidas para os interesses da materialidade a que obstinadamente se vinculam.

Que fazer para alertar a todos do perigo iminente da perda do direito de sua permanência na Terra, principalmente agora que ela se encaminha para uma nova e luminosa fase de sua evolução? É a fase preparatória da regeneração da Humanidade, em que tudo deverá sofrer alterações indivisíveis ao longo desses dez séculos vindouros de que tanto falam as profecias.

No caso do expurgo prenunciado e, possivelmente, já em realização, as lágrimas se derramarão na solidão dos ambientes desconhecidos aonde os exilados deverão despertar.

Na impossibilidade desse alertamento, é que o Mundo Maior volta as suas vistas para os trabalhadores da última hora, de que trata a parábola de nosso Senhor e Mestre Jesus, no âmbito da família espírita cristão.

É com os espíritas que o Senhor precisa contar para essa tarefa de alertamento dos homens. A técnica a ser adotada é a do alertamento indireto, isto é, através da exemplificação de uma conduta efetivamente cristã.

Nunca foi tão necessário o cuidado com a conduta no lar entre cônjuges bem como entre irmãos e, por extensão, entre a própria parentela. Mas é sobretudo no seio da família tipicamente espírita que a Espiritualidade Maior faz repousar as esperanças do Cristo, por duas razões fundamentais;

Primeira: compete aos espíritas exemplificar para o mundo dos homens um comportamento ideal de solidariedade humana, de paciência diante da dor e de confiança na Justiça Divina.

Segunda: nos lares espíritas poderão encontrar abrigo seguro as numerosas falanges que estão descendo à Terra por meio da reencarnação. Isto posto, a felicidade doméstica nãodeverá ter alicerce na dependência exclusiva do bem estar econômico, das condições de conforto e luxo, o que nem sempre está possível a todos em face das provas a que estamos submetidos. Dizia Saint Exupery que só há um luxo verdadeiro, o das relações humanas. E nos cabe acrescentar: relações humanas à luz do Evangelho.

Claro que a felicidade doméstica a que nos estamos referindo é a felicidade real, que não existe em função da fortuna e do luxo. É a felicidade verdadeira nascida do desenvolvimento espiritual, da fé viva e do verdadeiro amor que deve presidir à união dos seres em família.

É grave esta véspera de Nova Era de que tratam as profecias. Requer de todos nós muita confiança em Deus, muita oração e vigilância, muita coragem e renúncia. Que aqueles que estão destinados ao expurgo, por empedernimento do mal, apressentem a situação que os aguarda e revoltam-se contra a divindade, manifestando a sua rebeldia através de ações as mais nefandas, de gestos desatinados, numa palavra de loucura inconsciente, porquanto, como homens ignoram a realidade. Tem apenas a intuição da própria insegurança.

O Pai os reconhece como filhos em verdade ingratos, mas filhos. E a Suprema Bondade não os quer exterminados.

Respeitando-lhes o livre-arbítrio.

Assim o único recurso natural, óbvio, para vencer-lhes a rebeldia é o expurgo para mundos de condição evolutiva condizentes com o estado em que tais Espíritos se encontram. Muitos deles poderão ser lançados em mundos primitivos.

Aprenderão pela dor, aperfeiçoando-se no educandário das provas expiatórias, pois ninguém se insubordinará contra as leis do progresso e do amor sem a merecida correção no momento apropriado. E um dia, arrependidos, sofridos mais felizes e fortalecidos no bem, regressarão aos seus penates, como elucida o iluminado Espírito de Emmanuel. É a lei.

Daí, a necessidade de integração plena no seio de nossas famílias, numa ininterrupta interação de paz e de amor com as demais famílias que constituem a grande e inequívoca comunidade espiritista cristã, quer aqui na Pátria do Cruzeiro, quer em outras regiões de nossa orbe.

Ser espírita é estar consciente do papel ou função que lhe cumpre desempenhar com sentimento evangélico, valorizando a instrução, desenvolvendo a educação e implementando no lar as luminosas virtudes oriundas das mais pertinentes elucidações espirituais e morais.

O tempo urge. Reconhecendo-nos integrantes da grande família humana sob as bênçãos do Consolador, oremos no recesso do Santuário doméstico, em favor de todos aqueles que, neste instante sofrem a prova do exílio, e nos coloquemos, todos, em condição de amar e bem educar os nossos filhos à luz do Evangelho. É possível que dentre eles se encontrem alguns dos obreiros especialmente destinados às grandes realizações do Terceiro Milênio, cuja aurora já nos toca a alma, e nos faz bater forte o coração.

Não releguemos jamais a segundo plano a responsabilidade de cada um de nós para a realização do culto evangélico em nossos lares, nunca forçado como se fosse uma obrigação penosa, mas com alegria pela expressiva função que ele tem, propiciando a cada santuário doméstico a presença de Jesus.

Fonte: Revista Reformador n. 1987