Disciplinar Educando

José Francisco Costa Rebouças

É bastante comum nos dias de hoje, o comentário de pais, professores e, da sociedade em geral sobre o comportamento indisciplinado de crianças e jovens de todas as faixas etárias; palavrões, brigas, desrespeito aos mais velhos, desleixo, indiferença, preguiça, teimosia, iniciação sexual precoce, gravidez na adolescência, fumo, bebida, pichações, etc., entre outros tantos exemplos que podem ser citados, que caracterizam esse comportamento inadequado que infesta nossa sociedade em todas as suas camadas, não sendo privilégio de negro, branco, rico, pobre, sexo feminino ou masculino.

Infelizmente, olhando o problema de forma neutra e raciocinada, chegaremos à triste conclusão de que nós pais somos os grandes responsáveis pelo comportamento equivocado de nossas crianças e jovens, pois eles são tão somente o reflexo de uma sociedade desordeira que ajudamos a construir, investindo tudo na formação intelectual dos nossos filhos e esquecendo-nos de que eles são antes de tudo filhos de Deus, seres eternos, trazendo consigo tendências e aptidões, que devem ser lapidadas por todos nós responsáveis perante Deus pela sua educação e aprimoramento.

A formação moral, é normalmente relegada a segundo plano ou transferida para a escola, como se a escola tivesse a capacidade de substituir o papel de nós pais, na formação moral de nossos filhos, para que tivéssemos mais tempo para a busca desenfreada de aquisições da posse de bens materiais para nosso deleite.

Há, ainda, a situação das crianças filhas de pais separados, que empurram um para o outro a responsabilidade da educação dos filhos, e que por razões diversas nem sempre conseguem atender convenientemente as carências das crianças, e ainda colaboram para esse comportamento rebelde, pois se tratam em muitos casos de forma desrespeitosa na frete dos próprios filhos, com brigas infindáveis, ódios, disputas judiciais, desejo de vingança, atitudes tais que nada de positivo acrescentam na formação de um comportamento educado, como deveria ser.

Por conta dessa atitude irresponsável, a televisão assumiu na atualidade o papel de companheira e educadora de muitas de nossas crianças e jovens, que passam mais tempo assistindo a programas sem nenhum conteúdo moral e quase sempre recheados de pornografia e violências, do que em sala de aula ou com atividades úteis à formação de seu caráter como membro ativo da nossa sociedade.

Considerando essa variedade de fatores, que até certo ponto explicam os problemas apresentados por nossas crianças e jovens, não podemos esquecer também que eles são Espíritos reencarnados, trazendo tendências e aptidões desenvolvidas em vidas passadas e que os mesmos possuem afetos e desafetos no mundo espiritual, influenciando-lhes direta ou indiretamente o comportamento e como em regra geral somos devedores da Lei maior, essa influência é na maioria das vezes prejudicial, perniciosa, negativa.

Foi por essa razão que Deus, a Inteligência Suprema, entregou-nos esses espíritos em forma de criancinhas indefesas, prontas para que pudéssemos amoldá-las sob nossos cuidados desde cedo, para que cresçam e se desenvolvam de forma equilibrada, não somente no aspecto físico do pequenino ser, mais e principalmente no aspecto moral, espiritual, que é na verdade do que mais carece, motivo pelo qual aqui está de volta.

Por isso é que se faz imprescindível procurarmos desenvolver a disciplina no aspecto Preventivo, que é aquela trabalhada pelos pais desde a gestação, manifestando o sincero desejo de receber o futuro filho, acariciando-o desde sua concepção quando ainda na barriga de sua futura mãe, envolvendo-o em vibrações de amor e paz, estendendo-se por todas as fases do desenvolvimento biopsicossocial da criança.

À medida em que o pequenino ser vai crescendo, faz-se mister que os pais comecem a estimular em seu filho a disciplina externa que é necessária para estruturar a interna pois que a criança entregue a sí mesma dificilmente se disciplina, a presença e o exercício da autoridade paterna e materna é indispensável na construção da sua autonomia, destacando-se nessa fase a colocação de limites, de regras a serem respeitadas.

É agindo desde cedo no cuidado com a educação de nossos filhos, que evitaremos mais tarde o recurso duro da disciplina no seu sentido Punitivo, que é aquela aplicada nos presídios, nos lares onde os pais corrigem com violência seus filhos, nos países onde o crime é punido com outro crime (pena de morte, etc...), e que, inevitavelmente não promove, nem remove as causas da indisciplina.

O homem deve se espelhar no exemplo que nos dá a mãe natureza que possui uma disciplina sem a qual os mares invadiriam as regiões continentais, os continentes gelados se derreteriam, as cadeias alimentares entrariam em desequilíbrio, os planetas colidiriam uns com os outros e que o não seguimento das lições que recebemos por obra da vida incessante, nos leva a incorrer num grave erro de associar disciplina a surras e agressões, o que não é recomendado, pois esse tipo de postura já é violência e não disciplina.

Como bem descreveu a respeito dessa forma de disciplinar Pedro de Camargo no livro O Mestre na Educação, "Para bem agirmos em prol do saneamento, precisamos partir do seguinte princípio: o crime não é o criminoso, o vício não é o viciado, o pecado não é o pecador, o doente não é a doença. Assim como se combatem as enfermidades e não os enfermos, assim também se deve combater o crime, o vício, e o pecado, e não o criminoso, o viciado e o pecador".

Theobaldo Miranda Santos no livro Noções de filosofia da Educação, afirma: "os castigos ministrados com raiva até acentuam a revolta da criança. É necessário que ela perceba na correção de que é objeto o propósito de seu aperfeiçoamento”.

A verdadeira disciplina a ser desenvolvida por nós pais há de ser um dia aquela que leve com amor e carinho os nossos rebentos a Reparar, o mal que hajam praticados de maneira a corrigir o que errou, consertar o que quebrou, repor o que retirou, desculpar-se com quem ofendeu, fazendo sempre a ação contrária e correta a que foi considerada uma indisciplina, conscientizado do seu erro, e buscando de maneira adequada a extinção da ação negativa.

Esta é a única forma que entendemos como capaz de ir até as causas reais da indisciplina, que se localizam no Espírito Imortal que Allan Kardec, diz que residem no instinto de conservação exagerado e no desconhecimento do passado e do futuro do Espírito, só esse conhecimento pode minimizar a crença na superioridade individual, o orgulho e o egoísmo, que conduzimos em nosso cerne.

É com a disciplina reparadora que a criança conseguirá ser um adulto realizado, nas palavras de Joanna de Angelis, libertando-se de sentimentos de culpa, da censura social, estruturando sua disciplina interna e utilizando seu livre-arbítrio sempre para o bem, para o positivo.

Allan Kardec, diz-nos em O Céu e o Inferno, "Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas conseqüências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; mas só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa".

Finalizando, queremos enfatizar a necessidade urgente de investirmos cada vez mais na educação do espírito imortal, se pretendemos fazer da terra um mundo feliz, habitado por homens inteligentes e bons regidos pela disciplina da paz e do amor. Agindo assim, estejamos certos de que contribuiremos de maneira positiva para uma sociedade mais justa e equilibrada, solidificada nas ações nobres do respeito, do trabalho e da justiça, contribuindo para a saúde psíquica da nossa juventude e por conseqüência da nossa sociedade e por fim do nosso planeta.