A Pedagogia do Cristo

Alexandre Rocha

A recente desencarnação de um dos maiores pedagogos da atualidade, Paulo Freire, e a reavaliação de sua obra dá-nos oportunidade para fazer um paralelo entre a sua proposta pedagógica, malgrado suas posições ideológicas vinculadas ao materialismo histórico, e a proposta pedagógica do Cristo. Buscou Paulo Freire, no que chamou de "pedagogia do oprimido", título não só de seu método pedagógico, mas também de sua principal obra, provocar o processo de alfabetização (leitura do texto escrito) através da análise social do indivíduo em seu meio (leitura social). Em sua proposta pedagógica, o indivíduo deve aprender a ler o texto escrito tendo, antes, aprendido a ler a realidade social em que vive. Se há discussões em relação ao potencial transformador que esse processo pode provocar, são inquestionáveis os resultados práticos da pedagogia do oprimido. Mas, se não buscou intencionalmente nas fontes cristãs as bases de sua teoria, nem por isso deixam elas de lá se encontrar, redigidas pelos dois primeiros pedagogos cristãos, Paulo e João (excluído, obviamente, o Cristo, pela ausência de um texto seu), cada um interpretando a sua maneira os ensinos de Jesus. Estaremos neste artigo estudando especificamente o texto joanino, que nos apresenta um Cristo preocupado em, a partir da apresentação da necessidade física ou situação social do indivíduo (leitura biológica e social), apresentar a sua verdadeira necessidade (leitura espiritual).

Vejamos os exemplos:

No capítulo 4 de seu evangelho, João relata que Jesus, ao retornar à Galiléia, atravessa a Samaria. Em Sicar, cansado, senta-se junto ao poço que se acreditava dado por Jacó a seu filho José. Diz o texto que era cerca de meio-dia. A apresentação do evangelista é mais do que didática. Ali estão os fatores motivadores da necessidade física: o cansaço da caminhada unido ao sol quente do horário, e ali também está a solução para o problema: a água do poço. A passagem é por demais conhecida para que necessitemos dizer que ele pediu da água a uma samaritana, tendo sido ouvido com estranheza pela interpelada. (Os samaritanos viviam às rusgas com os judeus, desde o retorno destes do exílio da Babilônia. O fato de Jesus ter procurado uma samaritana, tanto quanto utilizando a figura do samaritano na parábola que fala do amor ao próximo são também significativos exemplos de sua análise social.)

A partir da necessidade física, a sede, Jesus desenvolve a sua paidéia (processo educativo), despertando a atenção do educando para a leitura espiritual: nós também temos necessidades não-físicas (e muito mais importantes que estas) e a satisfação dessas necessidades está no entendimento da mensagem que o Cristo estava a trazer. Ou não foi isso que ele quis dizer no texto relatado por João 4,10.13-14:

"Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: Dá-me de beber, tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva! [...] Aquele que bebe desta água (água do poço) terá sede novamente; mas quem bebe da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede. Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna".

A perfeição da analogia dá aos que o ouvem condições de fazerem a leitura espiritual. A partir desse momento, ele fala de sua mensagem não só à samaritana, mas a toda população de Sicar.

Outra passagem significativa para avançarmos em nossa análise é a célebre multiplicação dos pães, quando, após falar ao povo às margens do mar da Galiléia, vendo a multidão faminta, Jesus a atendeu em sua necessidade biológica, saciando a fome da massa a partir de apenas cinco pães e dois peixes (Jo 6:1-14). No dia seguinte retorna o Rabi a Cafarnaum para onde também segue a multidão. Lá o encontram e ouvem o discurso que viria justificar a atitude do dia anterior (Jo 6:26.34.51):

"Vós me procurais não por terdes visto sinais, mas porque comestes pão e vos saciastes. Trabalhai não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que perdura até a vida eterna, alimento que o Filho do Homem vos dará. [...] Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim, nunca mais terá fome e o que crê em mim nunca mais terá sede. [...] Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente."

Pouco depois, João nos traz mais um exemplo da pedagogia do Cristo (Jo 9:1-5): em Jerusalém, é-lhe apresentado um cego de nascença junto à piscina de Siloé, e Jesus não perde a oportunidade para mais uma analogia. Ali estava alguém que não podia ver a luz:

"Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo".

Dizendo isso, cospe na terra e a lama que se forma é colocada sobre os olhos do cego que, ao lavá-los na piscina, retorna vendo. Novamente a partir do que o povo considerava um milagre, o Cristo desperta a atenção do público para ouvir a sua mensagem, sempre em analogia ao fenômeno realizado.

Ainda outra vez o Cristo se utiliza desse expediente. Seguindo à cidade de Betânia (Jo 11:17-44), Jesus vai ao encontro de Lázaro, morto já há quatro dias. Interpelado, ainda no caminho, pela família por não ter chegado a tempo de impedir a morte de Lázaro, ele se utiliza de mais uma analogia para despertar a atenção do público para a sua mensagem:

"Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá."

Dito isto, segue até a gruta em que Lázaro fora colocado e, em passagem por demais conhecida de todos, trá-lo de novo à vida.

Vemos, pois, o Cristo diante da situação de sede, junto à samaritana, afirmar "Quem beber da água que lhe darei nunca mais terá sede". Ao se defrontar com a fome do povo, ele diz: "Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim, nunca mais terá fome". Perante o cego, o Cristo fala: "Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo". E,diante de Lázaro morto, conclui: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá".

Realizando seus “milagres”, além de exemplificar o amor ao próximo e atender às necessidades daquele povo sofrido, o Cristo aproveitava para, em sua pedagogia da libertação espiritual, ensinar o caminho para o que chamou de “Reino dos Céus”. Os resultados que até hoje observamos demonstram a excelência de seu método.