Deus

Hyarbas Olavo Ferreira

1 - "O que é Deus" ?
"- Deus é a inteligência suprema, causa primária de todos as coisas"

A Idéia de Deus varia de indivíduo para Indivíduo, sempre em consonância com o estado evolutivo de cada um, a que lhe confere maior ou menor grau de compreensão. Assim, dentro de um mesmo grupo doutrinário, vamos encontrar as mais diferentes opiniões acerca da idéia de Deus, infinito, proferidas por seres de Inteligências finitas, diferentes entre si.

É pois, sensato, que nenhum ostente a pretensão absurda de compreender o Inconcebível. Que não seja isso, entretanto, motivo para cessar a pesquisa, o que seria absurdo maior. É remontando às causas que vamos descobrindo os mistérios, aproximando-nos mais o mais de verdade, tornando-nos sempre mais livres e felizes.

No princípio, Isto é, quando o ser se inicia no reino humano, "simples e Ignorante", a primeira idéia que tem do criador é mais ou menos intuitiva, e nasce do medo, do espanto. Vê Deus nas forças da natureza, nos animais bravios, nos próprios homens que lhes são superiores, nos astros, etc.

A experiência no plano físico, em reencarnações múltiplas, as lutas diversas a que se vê obrigado a participar, exercita no homem as forças do Espírito, alarga-lhe as faculdades Intelectivas. A medida que ele se agiganta em conhecimentos, decresce-lhe o temor, fruto da ignorância. No que antes acreditava, cegamente, principia a duvidar. A dúvida é o primeiro passo rumo à descoberta da verdade, porque. causando insegurança, impulsiona o ser em direção à pesquisa daquilo que o tomará senhor de si.

Ocorre, entretanto, que ao vislumbrar um obstáculo julgado lntransponível, a tendência natural é a simples desistência da tentativa de transpô-lo. Assim o Espírito, antes possuidor de uma fé cega, tradicional, principia a raciocinar, a duvidar da existência de Deus, o Deus que a tradição lhe legou. Duvida, a princípio, porque não consegue coadunar os conhecimentos adquiridos, com os fatos :

Ensinaram-lhe ser Deus infinitamente justo e bom. Que conhece o passado, o presente, o futuro. Que é equânime, tendo criado todos os homens em Igualdade de condições. E a experiência, os fatos, lhe comprovam o contrário. Vê as desigualdades de classes em todos os tempos; assiste a nascimentos de gênios, ao lado de retardados; ricos e pobres; sadios e estropiados.

Onde, pois, a Igualdade ? Onde a justiça ? E por que o homem já nasce sofrendo ?

Tudo, portanto, vai-lhe parecendo Incoerente, revoltante, alucinante. Não encontrando respostas para essas e muitas outras questões que afligem a humanidade, dentro doa estreitos e arcaicos conceitos adquiridos, opta pelo comodismo, pela negação.

Não nega, consideremos, a Deus, propriamente. Nega, sim, o deus que a Ignorância lho criara, antropomorfo ou com qualquer outra forma conhecida. Ficaria nesse estado de negação comodativa por todo o sempre, certamente, caso a própria lei não o Impelisse para a frente. A dor, que o impulsionou até o estado evolutivo em pauta, acicate-o de novo, vergasta-lhe a consciência, compelindo-o, ainda uma vez à pesquisa. Nasce, então, a primeira e grande certeza, baseada no raciocínio, escudado pela dor: a certeza na existência de um Criador incriado.

Persistem algumas dúvidas. Apagam-se umas para surgirem outras. Como conciliar todos as ocorrências da vida, principalmente aquelas dolorosas; os desregramentos dos sentidos, os maus pendores, tudo, enfim, que a humanidade rotulou de "mau", com a bondade Divina ? Por que Deus já não criou o homem perfeito, ou por que não lho protelou meios para evoluir, sem tanto sofrimento ?

Dúvidas desta espécie parecem retrogradar o Espírito, que às vezes se revolta, ameaçando a si próprio de novo aderir ao ateísmo. Mas não consegue. Uma coisa a razão e o sentimento já lhe demonstraram. Deus existe. Partindo dessa premissa, e depois analisando os Seus atributos, que forem compreensíveis pelo estado evolutivo atual, as outras incertezas Irão se dissipando. Aos poucos, a princípio. Mais e mais depressa, depois, em aceleração progressiva.

Aí, nesse estado Intermediário entre o espiritualista, de fé cega, e o materialista, pelo reclocínio, a primeira definição de Deus aceitável, seria : "A Causa de todas as causas".

Depois, pela associação de Idéias, vai-se concluindo e assimilando explicações mais próximas da verdade, muito embora a associação de Idéias requeira muita precaução. As comparações são necessárias ao nosso raciocínio. Mas, Idéias e comparações que servem a uma determinada época, parecem Inteiramente infantis, apócrifas, no futuro.

Os gafanhotos com cara de homem, dos quais se serviu João Evangelista, comparando-os aos aviões do primeira grande guerra, hoje, (1971) já não teriam a mínima utilidade comparativa. As Idéias, em sua maioria, brilham iluminando uma época determinada, para depois se apagaram no passado.

Contudo, há que haver uma causa para obrigar o homem a pensar, a perscrutar os enigmas da natureza, principalmente os que dizem respeito às origens remotas e à existência de Deus. Consideramos alguns enigmas, restam outros e, certamente, entre eles, haverá graus diversos. De um modo geral a causa que obriga o homem a pensar é a dor, nos seus vários aspectos. Todavia, existem outros tipos humanos, cujos destinos, na atual encanação, perecem colocá-los em posição privilegiada, sem sofrimentos dignos de nota e que, não obstante, abraçam o materialismo. Já passaram, em vidas pregressas, por muitas experiências, já possuíram a fé cega, Intuitiva e também chegaram no ponto de transição entra a primeira, que é temporária para todos, o a fé pela razão, mais sentimento, a única que faz jus ao nome.

Dividem-se, estes últimos, em dois grupos principais : os preguiçosos, acomodados por estarem as coisas materiais correndo-lhes de maneira satisfatória, e aquelas que adotaram para si a norma de Tomé : ver para crer.

0 privilégio, entretanto, é apenas aparente. Trata-se de um período de descanso. pelo qual passam todos os Espíritos. Períodos necessários ao refazimento de forças para encetar novas Jornadas e nos quais, também, se depara ao ser a oportunidade de testar a si próprio. Comprovar se elo já pode prescindir do aguilhão da dor, utilizando-se da própria vontade, para continuar evoluindo.

Esse período de paz relativa, da trégua, se verifica em todos de campos que nos são conhecidos : vemo-lo nas guerras; assistimo-lo no próprio organismo, que adormece para descansar; no transcorrer da própria vida de cada um, por mais atribulada que seja, que apresente etapas mais tranqüilas; nos forças da natureza, que ora se manifestam em fúria, ora se aquietam na calmaria, e assim sucessivamente, onde quer que a nossa observação intente demorar-se.

Quanto aos do primeiro grupo, aqueles que se acomodam, preguiçosamente, é certo que as circunstâncias futuras, imediatos ou remotas, de conformidade com o caso específico de cada um, propiciar-lhes-ão novas condições dolorosas, recambiando-os ao progresso compulsório.

Já os do segundo grupo, que solicitam provas materiais, que às vezes vociferam em altos brados desafiando as forças ocultas e desconhecidas, ocorrer-lhes-á o seguinte: cedo ou tarde, antes ou depois de terem sido visitados pela dor inexorável, não importa quando, compreenderão o verdadeiro significado de : "Tú, Tomé, creste porque viste. Bem aventurados, todavia, aqueles que não virem o crerem".

Pois a experiência lhes demonstrará que não baste ver, para crer. É necessário, sobretudo, COMPREENDER. Este é a palavra : COMPREENDER.

Com efeito, todos os acontecimentos com os quais nos deparamos o não compreendemos, com a passar do tempo vamos dando-lhes outras interpretações, mais compatíveis com o grau do nosso entendimento. É muito conhecida, por exemplo, a história de em certo cientista que, vendo o primeiro gramofone e ouvindo-lhe o som, e não podendo conceber como aquilo seria possível, se recusou a acreditar no que via e ouvia, preferindo atribuir o fenômeno a 'broque de ventriloquismo'. Assim também, quê quer um de nós, ao nos depararmos com ocorrências que não passamos compreender. Procuraremos explicá-las, sempre, de acordo com as nossas concepções anteriormente adquiridas. Porém, um dia saberemos : a fé se constrói do interior para o exterior; jamais. ao contrário.

(Do livro "Cumprimentando Kardec" de Hyarbas Olavo Ferreira)