Por Que Não Estudar a Bíblia?

Carlos César Barro

Tempos atrás, tive a oportunidade de apreciar alguns artigos publicados no periodismo espírita, falando a respeito das Escrituras Sagradas, naquilo que toca em sua utilidade para nós, seguidores de Allan Kardec. Até hoje, não compreendo a razão pela qual os estudiosos da Doutrina não deram seguimento às pesquisas empreendidas pelo Codificador em torno de tão importante compêndio. O movimento espírita deveria ser um ambiente onde a busca pela verdade pudesse ser uma constante, no entanto, não o é. Há quem faça o possível para valorizar os livros espíritas, desprezando o que de resto há. Escritores e dirigentes preconceituosos acabaram por dar à Doutrina Espírita um ar de infalibilidade, como se ela não trouxesse em si, erros naturais da condição humana. É a ortodoxia.

A principal justificativa para que se deixassem os estudos bíblicos de lado, seria a de que os livros sacros teriam sido "mexidos" por espertos copistas a serviço da Igreja. Ora, é bem possível que os dedos da criatura humana estejam presentes aqui e ali, dando um aspecto variável às narrativas existente nos textos antigos, porém, daí a mudar o sentido do texto, vai uma enorme diferença. Sabemos que existem edições bíblicas apócrifas, feitas por algumas facções da Igreja, onde andaram substituindo palavras para atender interesses religiosos de grupos mesquinhos. Porém, existem ótimas cópias do Antigo e Novo Testamento, que são mantidos há séculos com a mesma estrutura e podem ser objeto de análise racional.

Alguns estudiosos que se propuseram a contestar a Bíblia, e que são apontados por espíritas como os que colocaram em cheque suas revelações, nem sempre estiveram guiados pela razão. A maioria deles se prenderam em citações da face profética das Escrituras, um dos departamentos onde pouco ou nada se sabe em lugar algum. Afirmam que não há um lado iniciático na Bíblia. Por que motivo não haveria? Há suspeitas sérias sobre o assunto. Narrativas feitas ali pelos profetas, até hoje não foram interpretadas pelo racionalismo espírita, ou por quem quer que seja. Existiria mais conhecimentos do que nos foram revelados pelos Espíritos ou eles nos teriam dito todas as coisas? Cremos que não, pois foram eles que afirmaram ser a Doutrina progressiva.

Uma dos princípios em que se assenta o Espiritismo é o de não trazer em si mistérios, nem coisas que não possam ser tornadas públicas. Porém, isso não significa que tudo deva ser falado indistintamente às criaturas, que nem sempre estão preparadas para o conhecimento. Qualquer dirigente que conseguiu deixar o comum da parte prática do Espiritismo, sabe que há "segredos" do mundo espiritual que ele só compreende com o tempo de serviço, e que só podem ser ensinados a quem esteja preparado para isso. Não queremos dizer, que sejam coisas interditas a alguém.

Seria ótimo que os conhecimentos revelados pudessem ser explicados e aplicados de forma popular como pretenderam alguns. Mas a realidade não é bem assim. A simplória idéia de que "todos podem" já criou em nosso meio um significativo contingente de espíritas imperfeitos, orgulhosos e com suas cabeças cheias de fantasias ditadas pelo invisível, a quem subestimam com pretensa sabedoria.

Não é difícil compreender o princípio da revelação e do aprendizado progressivo. Basta que os comparemos às muitas fases vividas por um aluno na escola. Nada lhe é proibido, porém, tudo lhe é dado a seu tempo. O Espiritismo é um conjunto de ensinamentos da Espiritualidade e visa desenvolver o entendimento dos seus adeptos acerca das questões que circundam a vida e a morte. Cada um dos que o estuda tem uma visão mais ou menos clara acerca de suas leis e de seus princípios, segundo sua própria condição evolutiva.

Se a Bíblia trás em si ensinamentos ocultos, não se sabe. Há nela, indícios de que existam tais conhecimentos. O quadro dos profetas, por exemplo, não era constituído só de homens simplórios como desejariam os espíritas, para associá-los à humildade. Paira sobre João, a suspeita de que teria sido um filósofo e que a escola a que pertencia escrevera seu evangelho. Por esse motivo, suas narrativas seriam tão diferentes daquelas feitas pelos outros evangelistas. Se isso fosse verdade, possivelmente o Mestre recebesse uma assistência "oculta" desta escola e, segundo desconfiam, de alguns fariseus que lhe eram simpáticos, como José de Arimatéia e Nicodemos. Jesus Cristo, parece não ter sido somente um simples carpinteiro. Os reis magos, que o visitaram por ocasião de seu nascimento, possivelmente não teriam vindo à Palestina só para lhe trazer presentes. Evidente que podemos desprezar o que de antigo não tenha sido explicado, mesmo a maioria das profecias. O espírito de cada um é livre para se manifestar e se posicionar com bem entende. Só não é direito estendermos nossos limites pessoais aos outros. Há estudiosos que querem saber mais, que se propõem pesquisar o presente e o passado para compreenderem o futuro. Os que estão animados deste espírito devem fazê-lo. Cada um tem sua glória, diria Paulo.

Atualmente, observasse o aparecimento de um fosso entre o que pensa o movimento espírita e a realidade do mundo. Enquanto o pensamento espírita aponta numa direção, o mundo caminha noutra. Chegaram a ser ridículos os discursos realizados por alguns oradores espíritas, falando da chegada da era do amor e da fraternidade, quando caiu o muro de Berlim e o comunismo. O clima de "oba-oba" logo foi abafado pelas agitações sociais que se seguiram nos países de quase todo o planeta. E, é bem possível que essa falta de sintonia entre o pensamento doutrinário e a realidade do mundo seja fruto da escravidão a que se submeteram os espíritas neste século e meio de vida doutrinária.

A Bíblia poderia ter fornecido elementos para melhor se compreender o histórico processo evolutivo da humanidade. Se tivesse sido estudada sem preconceitos não estariam acontecendo coisas tão desagradáveis com os adeptos do Espiritismo. Mas, estudá-la de que forma? Bem, aí reside um problema: o espírita não estuda nem a sua Doutrina, como poderia estudar qualquer outra coisa? Eis a verdade: o movimento espírita é constituído por indivíduos que pouco conhecimento possuem da religião que professam. Isso nada mais é do que um retrato triste da realidade. É lamentável que em tantos anos, não se tenha desenvolvido o gosto pelo estudo do pensamento. Que os modelos pedagógicos propostos ao movimento não tenham fugido daquele encontrado nas escolas humanas. É triste vermos associarem a pobreza e a ignorância à humildade e à sabedoria.

Há algo que nós espíritas não compreendemos bem. Há uma íntima ligação entre as Escrituras Sagradas e o Espiritismo. Muitos de nós estamos ligados ao desenvolvimento do movimento de espiritualização do mundo não é de hoje. Estivemos caminhando ao longo de séculos, apegados à história religiosa da humanidade e somos responsáveis por muitas de suas alegrias e tristezas. O verdadeiro espírita sente vibrar-lhe as fibras do coração quando está frente aos fatos ligados ao cristianismo. Revolta-nos que pretensos filósofos de nosso tempo, ponham-se a condenar o que já nos foi vida em outros tempos.

Seria a Bíblia infalível? Não, ela não é infalível, como nada o é. Só Deus é infalível, pois que é plenitude. Porém, nós que estudamos os mistérios do espírito, podemos e devemos estudar os livros sacros. Eles são documentos antigos que nos auxiliam a compreender a sociedade humana, sua conduta frente à obra de Deus e o que pode nos trazer o futuro. A infalibilidade espírita vem sendo responsável pela cegueira espiritual que se esparramou pelo movimento, transformando-o num enorme organismo doente. Desenvolveu nos adeptos a preguiça e o apego às idéias prontas. Com isso, multiplicaram-se em nosso meio pessoas que se posicionaram como líderes sem realmente o serem. São companheiros que confundiram cultura com sabedoria, duas coisas distintas uma da outra. Não queremos com isso afirmar que não sejam espíritas esforçados. Porém, suas obras quase nada diferenciam-se daquelas que fazem os homens comuns. A proposta do Espiritismo é outra. Só ele possui uma ciência que pode auxiliar o homem espiritualmente, e deve procurar fazê-lo.

Não há solução para estes males a curto prazo. Se nos próximos anos, como afirmam as profecias, a humanidade engalfinhar-se com sua ignorância numa derradeira crise global, as sociedades espíritas poderão corrigir-se. Não pelo caminho do entendimento como seria o desejável, mas pelo do sofrimento e da provação.

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