Estudo Doutrinário

José Francisco Costa Rebouças

Desde o evento ocorrido em 18/04/1857, com o lançamento ao mundo do Livro dos Espíritos, que se faz necessário a todos nós o estudo de maneira metódica e sistematizada da notável obra, que veio desvendar os mistérios do mundo invisível, mas para isso não basta apenas seguir para a casa espírita e lá se reunir em conversas improfícuas a respeito de assuntos que em nada se assemelha a um grupo de estudos como tem que ser, conforme nos esclareceu o codificador no Livro dos Médiuns, Capítulo III - Do Método, quando nos assevera:

“Dissemos que o Espiritismo é toda uma ciência, toda uma filosofia. Quem, pois, seriamente queira conhecê-lo deve, como primeira condição, dispor-se a um estudo sério e persuadir-se de que ele não pode, como nenhuma outra ciência, ser aprendido a brincar.”

Por essa razão, é que toda casa espírita deve ter por meta principal a divulgação da doutrina espírita, e para isso, preciso se faz que o quanto antes, providencie implantar em suas dependências o estudos das obras básicas que compõem o pentateuco espírita, zelando pela fidelidade doutrinária ali contida, oferecendo a seus trabalhadores e assistentes, a oportunidade do esclarecimento fundamentado nos princípios cristãos que ela ensina.

Só alicerçados e fundamentados nos princípios espíritas é que pode o candidato a discípulo do Cristo, melhor servi-lo, tirando em primeiro lugar lições para seu próprio burilamento, pois como assegurou o Mestre de Nazaré, “conheceis a verdade e a verdade vos libertará”, partindo daí em diante em direção ao necessitado para também o informar das lições do evangelho, que por certo muito lhes serão úteis.

Deve também a casa espírita, promover seminários, congressos, workshops, ou outros quaisquer eventos que tenham por finalidade facilitar a compreensão doutrinária que professamos, não permitindo no entanto que nessas oportunidades o assunto previamente elaborado para o estudo, seja desviado de seu foco central, pois não faltarão aqueles que não se preocupam em estudar a doutrina e ainda servem de instrumento da espiritualidade inferior, interferindo no andamento das atividades doutrinárias com o fito único, de desviar a atenção dos participantes e dificultar-lhes a compreensão da matéria ali estudada.

Torna-se imprescindível que, os responsáveis por essa tarefa sejam pessoas com capacidade de observação, para no instante oportuno, interromperem a conversa paralela e retornar ao cerne do assunto estudado, para isso precisam ter prévio e sólidos conhecimentos da doutrina a fim de identificar a necessidade da interferência no momento adequado, não permitindo que os estudos sejam desviados da linha traçada para o evento em realização, não alongando discussões estéreis com assuntos que embora façam parte das lições da doutrina, não estão em análise na presente ocasião. E mesmo diante de todo o cuidado que tem que ter a casa espírita com relação aos seus estudos doutrinários, ainda assim não logrará a total isenção de forças contrárias aos seus esforços e anseios de tornar melhor a todos do grupo, em virtude do nível moral de cada um dos participantes a requerer atenção e carinho sem dispensar a disciplina e severidade que se fazem indispensáveis a qualquer grupo de estudos sérios, de dignas intenções, a esse respeito no mesmo Capítulo, anteriormente citado, encontramos as elucidações de Kardec, que não nos deixam a mínima dúvida sobre o assunto:

“Entre os que se convenceram por um estudo direto, podem destacar-se:

1º Os que crêem pura e simplesmente nas manifestações. Para eles, o Espiritismo é apenas uma ciência de observação, uma série de fatos mais ou menos curiosos.

Chamar-lhes-emos espíritas experimentadores.

2º Os que no Espiritismo vêem mais do que fatos; compreendem-lhe a parte filosófica; admiram a moral daí decorrente, mas não a praticam. Insignificante ou nula é a influência que lhes exerce nos caracteres. Em nada alteram seus hábitos e não se privariam de um só gozo que fosse. O avarento continua a sê-lo, o orgulhoso se conserva cheio de si, o invejoso e o cioso sempre hostis. Consideram a caridade cristã apenas uma bela máxima. São os espíritas imperfeitos.

3º Os que não se contentam com admirar a moral espírita, que a praticam e lhe aceitam todas as conseqüências. Convencidos de que a existência terrena é uma prova passageira, tratam de aproveitar os seus breves instantes para avançar pela senda do progresso, única que os pode elevar na hierarquia do mundo dos Espíritos, esforçando-se por fazer o bem e coibir seus maus pendores. As relações com eles sempre oferecem segurança, porque a convicção que nutrem os preserva de pensarem em praticar o mal.

A caridade é, em tudo, a regra de proceder a que obedecem. São os verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas cristãos.

Há, finalmente, os espíritas exaltados.A espécie humana seria perfeita, se sempre tomasse o lado bom das coisas. Em tudo, o exagero é prejudicial. Em Espiritismo, infunde confiança demasiado cega e freqüentemente pueril, no tocante ao mundo invisível, e leva a aceitar-se, com extrema facilidade e sem verificação, aquilo cujo absurdo, ou impossibilidade a reflexão e o exame demonstrariam. O entusiasmo, porém, não reflete, deslumbra. Esta espécie de adeptos é mais nociva do que útil à causa do Espiritismo. São os menos aptos para convencer a quem quer que seja, porque todos, com razão, desconfiam dos julgamentos deles. Graças à sua boa-fé, são iludidos, assim, por Espíritos mistificadores, como por homens que procuram explorar-lhes  a credulidade. Meio-mal apenas haveria, se só eles tivessem que sofrer as conseqüências. O pior é que, sem o quererem, dão armas aos incrédulos, que antes buscam ocasião de zombar, do que se convencerem e que não deixam de imputar a todos o ridículo de alguns. Sem dúvida que isto não é justo, nem racional; mas, como se sabe, os adversários do Espiritismo só consideram de bom quilate a razão de que desfrutam, e conhecer a fundo aquilo sobre que discorrem é o que menos cuidado lhes dá”.

Que nos mantenhamos em permanente vigilância, no intuito de levar a efeito o estudo da doutrina espírita, com a observância da disciplina, regularidade, seriedade, e acima de tudo a pesquisa nos conceitos e fundamentos do Espiritismo, para que a fidelidade doutrinária seja a bandeira que desfraldaremos com convicção e alegria na certeza da vitória final do bem que ele nos ajudará a alcançar.