“Milagres” Espíritas

Vinélius di Marco

Acabamos de reler interessante livrinho, de autoria de Dorothy Kerin, originalmente intitulado “The Living touch”, editado em francês com a de­nominação de “Une main me toucha” (“Uma mão me tocou”). Deixem passar o “mamão”, que a mim me “sabe” melhor que a indigesta contração “u’a”, tão em voga hoje em dia...

Professando a religião anglicana, Dorothy Kerin, ao narrar fatos puramente espíritas, preferiu considerá-los milagrosos, pois que obteve cura “diretamente de Deus, de Deus somente”, como se as curas propiciadas pelo Espiritismo tivessem outra origem. Depois de haver peregrinado penosamente pela vasta seara da Medicina, sendo desenganada, pois seu caso era considerado desesperador, diz ela, recorreu ao hipnotismo, a Espíritos benfeitores, à sugestão etc., sem alcançar a cura procurada, vítima que era da tuberculose conseqüente duma pleurisia.

Dorothy assinala haver sua saúde começado a declinar a partir da morte de seu pai. Quatro anos andou às voltas com os médicos e no quinto adoeceu de difteria. Mais tarde, uma pneumonia a encaminhou à pleurisia, que, então, marcou a parte mais acidentada e dolorosa da sua existência. Tuberculosa, sofrendo crises agudas de hemoptise, per­deu as esperanças de sobreviver, quando o último dos vinte e oito médicos lhe disse que era humana­mente impossível salvá-la. Uma peritonite tuberculosa lhe apontava o fim próximo.

Foi quando começou a ter visões estranhas. Pareceu-lhe ver Jesus e formas vestidas de branco, tendo cada uma um lírio na mão. Acreditou ouvir de Jesus: “Dorothy, não poderás vir agora”, isto é, não desencarnarás agora. Sentiu que deslizava no espaço e ouviu uma voz gritar-lhe : “Dorothy! Dorothy! Dorothy!” Então, respondeu: “Estou escutando. Quem é?” Nesse momento, viu-se envolvida em grande luz. Um anjo segurou-lhe a mão, dizendo: “Dorothy, teu sofrimento terminou. Levanta-te e anda!” “Ele passou suas mãos sobre os meus olhos — narra a autora — e eu me encontrei sentada no leito.”

Confessa não ter nenhuma explicação a dar sobre a sua cura instantânea. O Dr. Norman, que a tivera sob os seus cuidados, declarou a um repórter do “Evening News” que já havia perdido a esperança de salvá-la. “Suas enfermidades eram suficientes para matar meia dúzia de pessoas” — ajuntou. Ela apresentava os mais graves sintomas de tuberculose avançada, de diabete e outras complicações. A curva térmica acusava os resultados mais inquietantes, subindo algumas vezes a 105 graus Fahrenheit. Tudo isto foi publicado no citado jornal inglês; em sua edição de 20 de Fevereiro de 1902.

Em face da cura prodigiosa, o referido médico convidou várias sumidades da Medicina a realizarem rigorosos exames na ex-enferma e todos eles concluíram que ela estava curada, mas não podiam explicar como fora possível acontecer isso. “Quinze dias depois — acrescenta Dorothy Kerin — dois especialistas fie fizeram passar pelos Raios X e reconheceram o meu estado de perfeita saúde. O Dr. Murray Leslie recorreu às reações de Von Pirquet e de Calmette, mas ambas foram negativas. A partir desse momento, gozei de uma boa saúde, até o acidente que sofri em Paignton, em Setembro de 1913.”

Como nós sabemos, os fenômenos espíritas podem verificar-se em qualquer ambiente, seja ele católico, protestante, ateu, muçulmano, espírita, etc. O fato de haver a autora consultado “Espíritos benfeitores”, sem resultado, nada significa, porque tal­vez esses Espíritos não estivessem à altura da situação que a eles se apresentava. O fato de serem Espíritos não lhes confere onisciência e onipotência. Mas que ela foi curada através da intervenção espiritual, não há a mais mínima dúvida.

Tanto se tratava de manifestação espírita, que Dorothy Kerin narra, a partir da página 29 da edição francesa de seu livro: “No domingo, 11 de Março, fui despertada do meu sono por uma voz que me chamava: “Dorothy!” Sentei-me na cama e percebi ao pé do meu leito uma claridade maravilhosa, da qual emanava o mais belo rosto de mulher que se possa imaginar. Ela tinha um lírio na mão e veio colocar-se a meu lado, esclarecendo:

— “Dorothy, agora irás fazer o bem. Deus te salvou a vida para te atribuir uma missão importante e privilegiada. Graças às tuas preces e à tua fé, muitas doenças serão curadas. Consola os aflitos e incute a fé nos incrédulos. Conhecerás contratempos, mas superá-los-ás, pois és três vezes abençoada. A graça de Deus te será suficiente, pois Ele não te abandonará jamais.”

E concluiu: “Depois de fazer, com o seu lírio, três vezes, o Sinal da Cruz sobre mim, ela desapareceu. No dia seguinte, quando despertei, o quarto estava ainda impregnado do perfume de lírio.”

Compreende-se sem esforço que Dorothy Kerin era médium, dotada de muita fé em Deus e habituada ao recurso consolador da prece.

“A essa visão sucedeu um período de espera, durante o qual a minha alma aprendeu a se refugiar na paciência. Oh! Como foi difícil permanecer inativa e esperar, enquanto outros seres estavam mergulhando nas trevas espirituais e eu ardia do desejo de participar com eles da alegria dessa saúde e dessa felicidade que recentemente eu obtivera! Enfim, a hora soou e fui convidada a participar de diferentes reuniões e a relatar as minhas experiências.”

Em Outubro de 1912, Dorothy sofreu sério desastre de ônibus, sendo lançada à estrada. Atingida na espinha dorsal, sentia-se desfalecer quando, nesse mesmo momento, foi envolvida por magnífica luz azul e ouviu distintamente uma voz gritar-lhe: “Deus é Amor”. Acrescenta: “Em menos tempo do que estou gastando para dizer estas palavras, fui erguida do chão por mãos invisíveis até à plataforma do auto-ônibus e, toda alegre, escalei depressa os de­graus do veículo. Em seguida, o motorista procurou-me para saber se eu me encontrava gravemente ferida. Pude responder-lhe, com toda a verdade: “Não, e lhe agradeço sinceramente a atenção.” E continuei a viagem sem sentir coisa alguma.”

Muitas provas teve ainda a autora, todas intrinsecamente espíritas. Duma delas, conta: “Pouco tempo depois do acidente no local referido, passava eu de bonde pela ponte Vauxhall, onde o tráfego é intenso, quando, de repente, justamente atrás de mim, pesado caminhão veio atingir em cheio o veículo em que eu me encontrava, pegando-o de lado. Os vidros voaram em estilhaços e eu fui alvo de fragmentos. Mas saí ilesa, sem a menor contusão ou mesmo o menor arranhão.”

Cita o ataque sofrido de um ladrão, do que lhe resultou fratura da base do crânio e ruptura do tímpano do ouvido esquerdo. Teve uma visão de Jesus e salvou-se. Todavia, continuou a sentir dorida a cabeça e a surdez persistia. Pouco depois, era acometida duma crise de apendicite. Ia ser operada quando recebeu de novo a visita do Grande Médico e se sentiu feliz por não precisar mais de operação. Horas antes, a dor que sentia na cabeça se tornara mais intensa e durante toda a noite seu ouvido esquerdo sangrava abundantemente, tornando-se necessária a aplicação constante de tampões de algo­dão. Tornara-se totalmente surda e não ouvia som algum.

Nova visão começara. Ela se sentia como que transportada para fora do quarto, no espaço, cerca­da de legiões de Anjos, segundo sua expressão.

“Um deles se dirigiu a mim, dizendo: “Ainda tens confiança em Jesus?” Respondi afirmativamente e, elevando os olhos, vi um grande círculo formado por Anjos e ao centro dele apareceu Jesus, que me disse: “Fiz muitas obras notáveis, mas eles não creram. Disse-lhes que os tempos chegavam. Então, retornei à Glória a fim de reunir os meus eleitos. E colocarei em meu seio, como cordeiros, aqueles que se mantiverem fiéis. Que a minha vontade seja o teu repouso, e eu te conduzirei.”

“Muitas coisas — continua a autora — que não estou autorizada a divulgar me foram reveladas durante essa visão. Quando ela terminou, reencontrei-me sentada em meu leito. Todas as dores haviam desaparecido e o meu ouvido estava completamente curado. Os meus amigos não haviam saído do quarto e me disseram: “Estás curada, não estás? Nós também sentimos Sua presença”.

“Retirei os tampões do ouvido e, desde esse instante, a hemorragia cessou inteiramente.

“O Dr. George não poderia crer em seus próprios olhos, tanto me achou mudada, e me declarou em perfeita saúde.”

Evidentemente, se os fatos espíritas ocorrem em ambientes não espíritas, as impressões, interpretações e conclusões não podem deixar de trazer consigo os aspectos peculiares aos ambientes em que se verificam. Os católicos, protestantes e talvez outros falem em milagres. Se entendem por milagres os fatos que transcendem às leis naturais, discordamos, dentro da nossa posição simplesmente espírita, pois que tudo quanto sucede é perfeitamente normal e natural. Apenas não são tão comuns quanto ocorrências a que já nos habituamos a conhecer, analisar e qualificar. São tantas as leis naturais que permanecem desconhecidas da Ciência, que mais fácil se torna simplificar as coisas com a denominação de “milagres”.

Os casos citados por Dorothy Kerin, realmente interessantes, mas perfeitamente banais no conhecimento espírita, não foram milagrosos, apesar de ela ter afirmado a presença de Jesus em suas visões. Não negaremos a possibilidade de essa presença se dar, em casos excepcionais, se grande for o merecimento moral daqueles que a afirmam. A familiaridade com a sua igreja, sem dúvida, pode ter propiciado à autora a impressão de que estava cercada de Anjos e que Jesus a visitava com a fre­quência citada no livro. Mas pode também acontecer que ela, em virtude da sua fé e do seu alto espírito de religiosidade, tivesse mesmo sido contemplada com a presença real do Mestre. Tudo isso, porém, é secundário, porque, agora, o que interessa à finalidade deste artigo é deixar claro que todas as visões assinaladas em “Une main me toucha” não foram milagres, mas, simplesmente, manifestações espíritas. Sob este aspecto, o livro é realmente interessante, ainda que, em tese, não ofereça nada diferente do que já consta de milhares de obras e testemunhos espíritas.

Na visão a que nos referimos em último lugar, achavam-se no quarto outras pessoas, mas nenhuma viu Jesus nem os Anjos. Apenas sentiram, segundo disseram, a presença dele. Isto evidencia que Dorothy Kerin teve esse “privilégio” por ser médium e achar-se espiritualmente em condições de devassar o Invisível, tanto mais que a autora, segundo os documentos anexos em apêndice, teve uma vida verdadeiramente cristã e era dotada de grande fé. O testemunho dos médicos e enfermeiras que a assistiram, assim como de outras pessoas idôneas, demonstram de maneira irrefutável, uma vez mais, a espantosa realidade do Espiritismo.

(Reformador de agosto de 1964)