O Cristo Histórico e a Redação Original dos Evangelhos

Paulo Dias – Norma Tavares

Cristo Histórico

"E lhe porás o nome de Jesus"

1. Existem poucos dados históricos confiáveis sobre a existência de Jesus, de poucas referências fora dos evangelhos. Apesar disso podemos (segundo Renan) dividir em seis as fontes a nosso dispor: os evangelhos, os apócrifos, os historiadores, os pais da Igreja, o Talmude, a Michiná [Misnah; Mixená].

Entre 100 e 120 d.C. o historiador romano Tácito escreveu nos seus Anais, referindo-se aos cristãos --- nome que, segundo ele provinha de "Um certo Cristo, crucificado no reinado de Tibério, enquanto Pôncio Pilatos era procurador na Judéia" --- passagem hoje em dia considerada autêntica. Suetônio, Serapião e Plínio, moralistas romanos, também se referem a "Um certo Cristo".

2. Anda por aí uma "Carta de Públio Lêntulus" de duvidosa existência histórica, provável senador romano da época. Neste documento que teria sido achado no arquivo do duque de Cesarini (séc. XVII) este senador que se intitula "Presidente da Judéia" --- espécie de superintendente administrativo, descreve um homem reservado e sério, que nunca sorria e que "Pela sua majestade" comovia os circunstantes.

O nome Jesus, abreviado para Iosuá, aparece num ossuário do século II; era um nome comum, equivalente de "Josué". O nome jurídico de Jesus teria sido, provavelmente, "Iahosvah, de Nazirith, filho de Iussef".

AMBIENTE GEOGRÁFICO E SOCIAL

"Subindo ao monte, os ensinava"

3. A Palestina se divide em regiões, sendo as principais, Galiléia ao norte (um vale úmido e fértil ao redor do lago de Quineret ou Genesaré, com terras altas mais ao sul), Samaria no centro (região de colinas), Judéia ao sul (escarpas e desertos); a Judéia é bem árida, um planalto de altitudes elevadas. O relevo é bem acidentado, com depressões abaixo do nível do mar, logo ao lado de montanhas alcantiladas.

Compreende também: o Negueve (antiga Iduméia) mais ao sul da Judéia, no limite do Sinai; a Cisjordânia, a região de Gaza, o vale do Jordão.O vale do Jordão situa-se abaixo do nível do mar (Quineret, -200 m); o mar Morto, ponto mais baixo, a -400 m; o Hebron, ao sul de Jerusalém, ponto mais alto, a +1.000 m. Jerusalém fica a +800 m.

A extensão média é pequena. O país mede talvez de 200 km X 100 km. Talvez um pouco mais ou menos como o Estado do Rio e com a mesma conformação geral: de um lado o mar; ao norte, baixadas e serras; montanhas altas na região central; do outro lado delas um vale fluvial e, depois, além-vale, novas montanhas.

Sendo um país do Oriente médio, o deserto ronda por toda parte. De norte a sul o país é cortado por extensão de altas montanhas ou pouco mais baixas, não muito altas entretanto. O mar fica de oeste; o vale, de leste. Para nordeste e para o sul e além do vale, para todo lado, desertos e mais desertos.

Sendo de região temperada (sub-tropical), o clima não é tão rigoroso. Estações indefinidas, inverno chuvoso, por vezes cai neve nas regiões mais altas, Jerusalém, por exemplo.

4. No primeiro século era habitada por várias comunidades. Região de passagem, vários povos ali estavam, judeu no planalto, galileu no "Jardim" (heb. galil), idumeu no sul, palestino na faixa de Gaza, fenício ao norte, e sírio - este, mais para o interior e aquele, no litoral; samaritano na região central, árabe na Transjordânia (Peréia), beduínos um pouco por toda parte.

Diversos idiomas se falavam, principalmente, grego e aramaico.

O aramaico é semítico, como o árabe e o hebraico; aglutinante, com raízes tri-literais, por exemplo: d-b-r, 'palavra' (debar); '-d-m, 'homem' (adam). O grego é indo-europeu, flexivo, silábico; grego koiní, antepassado do grego moderno (romaico) e sucessor do grego clássico (ático); os evangelhos são a única obra literária em koiní.

Mais ou menos como nas ruas de comércio popular no Brasil, misturando o sírio-libanês com o nosso idioma (de estrutura semelhante ao grego; aliás, o português é uma síntese entre o grego, o latim, o hebraico e o árabe). São dois idiomas total e completamente contrários um ao outro. Um valoriza as vogais e outro, as consoantes; um valoriza os substantivos e o aramaico, os verbos.

Na Galiléia (heb. galilia, 'jardim de Deus'), falavam especialmente o grego; o aramaico ficava restrito aos lares. Na Judéia conservadora e nacionalista, falavam aramaico. O grego servia como idioma cultural, filosófico, literário, científico, idioma culto enfim, como o francês de hoje; o aramaico, que não era idioma natal dos hebreus, servia de veículo comercial, como o inglês de hoje. Os hebreus o haviam adotado a partir da invasão assíria (500 a.C) seguida de seu exílio à Babilônia, reduzindo o hebraico ao estado de idioma morto; e também porque as palavras em hebraico se consideram santas, havendo o temor supersticioso de pronunciá-las.

VIDA ECONÔMICA

"Dando graças a Deus, repartiu o pão"

5. A Palestina é região árida. Apesar disso, exportava azeite e trigo, vinhos e peixe seco, além de incenso, bálsamo e perfumes. As terras agrícolas eram reduzidas. Cafarnaum era um importante entreposto comercial na rota das caravanas e centro econômico de uma Galiléia fértil e produtora de vinho e trigo; Migdal (Magdala), ou, Tariches, era o centro da indústria de salga de peixe.

6. Economia de exportação, gerava miséria, razão dos numerosos levantes populares então acontecidos.

ORGANIZAÇÃO SOCIAL

"Bem aventurados os mansos, porque herdarão a terra"

7. Estava anexada ao Império Romano, subordinando-se à província da Síria, subdividida em várias regiões: Judéia, Samaria, Peréia, Palestina, Decápolis, Iduméia, Traconítis, Batanéia e Gaulanite, Abilene, Fenícia. Portanto, era habitada por diversas comunidades e povos, num espaço tão restrito.

ISRAEL

"Casa de oração para todos os povos"

8. Israel não passava de um regionalismo fenício que, entretanto, tomou feições próprias. Era a nação formada por judeus, galileus e samaritanos, regida pela Lei de Moisés (TORAH). Se auto-definia como teocracia governada por seus sacerdotes; em todas as culturas da região, historicamente influenciadas pela mesopotâmia, a classe sacerdotal era muito importante.

Como toda sociedade antiga, era sociedade de castas. Classes sociais fechadas, definidas pelo nascimento, imutáveis. Cada família, cada grupo de famílias, cada comunidade vicinal fazia suas leis próprias. Todas se reconheciam umas às outras em virtude de sua herança cultural comum, laços de parentesco, história. a casta era um agrupamento de famílias de mesma profissão e de parentesco, geralmente, ocupando juntas uma residência transmitida de geração em geração --- um "solar".

9. A vida quotidiana correria mais ou menos assim:

Nazaré. Numa pequena aldeia, Nazaré por exemplo, havia uma rua só, uns grupamentos de casa, cada uma --- a moradia de uma casta e, alguns poucos equipamentos públicos: uma escola comunitária, uma fonte ou poço, uma sinagoga, lugar de culto religioso e de preservação da cultura hebraica; uma pequena biblioteca. Na escola se concluíam os estudos primários, alfabetização e cálculo. Mais ou menos o lugarejo de interior brasileiro; ao redor do Lago de Genesaré havia muitos pequenos vilarejos como este: Corazim, Betsaidá, Gerasa, Tabga, Panias, etc.

Cafarnaum. Uma cidade média, Cafarnaum por exemplo, havia um mercado diante de praça central, e vielas, ruas e arruamentos diversos; muitas habitações comunais, um quartel com soldados romanos, coletoria de recolhimento de impostos, alfândegas para troca de moedas e pagamentos variados. Uma 'Ágora'em grego ou 'bazâr' em persa, o popular mercado; no caso de Cafarnaum, este mercado se localizava fronteiro ao porto, sobre a praça, donde partiam quarteirões em forma de tablado. Uma cidade média poderia conter várias sinagogas e escolas; a de Cafarnaum era imponente e acabava de se reformar pela mão do centurião Marcelo, cujo filho Jesus curou. Era a segunda cidade em Israel; Magdal era um pouco menor.

Jerusalém. Jerusalém, entretanto, poderíamos comparar ao Rio de Janeiro: um grande centro econômico, comercial, cultural, religioso. Era uma das principais cidades do Império. Sediava uma Legião, uma das divisões do exército romano. Outras cidades palestinas importantes, No período: Cesaréia Marítima (capital da província); Tiberíades (capital da Galiléia); Jopa (o porto principal da Palestina, situada no Mediterrâneo, a meio dia de viagem de Jerusalém).

ESTRUTURA IDEOLÓGICA E VIDA CULTURAL

"O Senhor vosso Deus é o único Deus"

10. Toda estrutura ou, toda produção espiritual, seja por outra, não-material de um povo é a sua cultura: arte, filosofia, crenças, costumes; tudo que este povo pensa, sente e cria. O judaísmo era o sistema cultural dominante em Israel. Devia conviver com a cultura helenística. O helenismo buscava a síntese, o 'cosmopolitismo', a cidadania do mundo. Por outro lado a cultura mesopotâmica, contraponto fatal do judaísmo, estava em decadência (como o Egito). A cultura mediterrânea da época estava empolgada, em alto grau, pela influência dos 'gimnossofistas' ou, budistas-jainistas, vindos da Índia; por exemplo, os essênios (que se baseavam em Pitágoras) adotaram alguns dos costumes jainistas: o Batismo. Por fim, Hillel passou a usar o batismo (que estava na moda entre os pagãos) como ritual de iniciação no judaísmo. A influência budista não deixou de atrair muitas almas ao judaísmo, ao essenismo, ao cristianismo (segundo Renan).

Os essênios eram ascetas radicais; parece que mesmo assim desenvolviam intenso trabalho social através dos Terapeutas, os médicos que eles formavam; 'terapeuta'em grego, essênio em aramaico (essaya), ambas as palavras significam 'médico'. A crença dos essênios está preservada nos Manuscritos do mar Morto, em que se acham até fragmentos do ensino de Jesus; segundo alguns, os últimos essênios já eram grupos totalmente cristãos; provavelmente, pelo menos João Batista era essênio.

11. Precisamos não entender no judaísmo uma abstração literária. Incluía posturas físicas como na ioga, e normas legais; práticas médicas, e recomendações morais.

Era uma cultura valorizando grandemente a Palavra. A maior parte da produção cultural era de literatura oral: o conto folclórico ou "hagadáh"; a poesia; o apólogo moral; a parábola (mashâl); a historieta; a fábula -- gêneros estes, então, largamente usados.

Existe uma história famosa em que Jesus, desconhecido pelos circunstantes, passa à frente de um cão morto e os presentes tapam o nariz, enquanto Ele exclama: "Que belos dentes, e semelhantes a pérolas!", ante o que o narrador conclui: "Deve ser Jesus, que somente ele acharia beleza num cachorro morto". Esta história é do folclore judaico.

Também a música e a dança eram muito cultivadas. Havia uma interdição ritual para o naturalismo em artes plásticas, e para a escultura; por isso, a geometria e os arabescos eram intensamente praticados. A Palestina era conhecida pela beleza dos tecidos e pela estamparia em algodão, linho e lã, de cores vivas, formas geométricas ou em tecidos listrados de grande beleza.

Segundo Lévi-Strauss a mitologia tem quatro níveis, a) geográfico --- descreve o país e reconta a História; b) social --- estabelece costumes; c) econômico --- regula atividades materiais e de produção; d) espiritual --- expressa as crenças. Assim, o judaísmo era um sistema tão filosófico quanto religioso, artístico e jurídico.

12. Os mais importantes nomes do judaísmo de então eram Hillel e Fílon.

Hillel da Babilônia, criador de uma doutrina toda de amor, brandura e fraternidade (hilelismo); reformava o ritual e abrandava o rigorismo moral (havia 613 mandamentos; 315, coercitivos). O judaísmo moderno, carregado de piedade e moralidade espiritual, muito deve à reforma de Hillel. Viveu até 12 d. C, portanto, Jesus o conheceu no Templo. Foi mestre (pai?) de Gamaliel, o mestre de Paulo.

Fílon de Alexandria, que viveu até 80 d. C, tentava ligar o judaísmo e Platão. Dizia, "Platão é Moisés que fala grego". João Evangelista conheceu e seguiu a sua filosofia; é dele o conceito de Logos, o Verbo criador, que traduz o hebraico 'ha-dabar'.

CULTURA POPULAR

"Era uma vez um semeador que saiu a semear"

13. Pouco ficou, e nos mostra a vida quotidiana do povo.

ALIMENTO - Frutas como tâmara, figo, damasco, nozes e pão (matsa, pita), do tipo árabe, redondo, ou como o pão integral. Pão de trigo para os ricos, de centeio para os pobres. Peixes, aves, pouca carne. Alimentação necessariamente frugal, num país árido. Jesus comia "opsion", pão com acompanhamentos, queijo, manteiga, frutas, coalhada --- como a nossa 'pizza'. Os palestinos tomavam vinho (fraco!) a todo instante. Um suco de uva danado de ruim!

MORADIA - Casas feitas de adobe (tijolo e palha secado ao sol). Por vezes, nem tijolo era, mas, simples massa de terra misturada a palha e gravetos. Algumas partes e mesmo, os alicerces podiam ser de pedra. Nas habitações coletivas da casta, chão de pedra ou terra batida; os quartos se multiplicavam em verdadeiro labirinto, entremeados de pátios ensombrados. Por vezes um cômodo só; servia de cozinha e de quarto, além de curral para o inverno.

Dormiam sobre peles ou, sobre estrados de madeira; conforme as gerações se sucediam, os quartos se ampliavam e a casa se melhorava.

FOLCLORE - Os contadores de histórias, repentistas, cantadores de desafio percorriam as cidades, tipo de cordelismo ambulante que ia de aldeia em aldeia divulgando o hagadáh (poesia oral); recurso este muito usado por Jesus, ao som de flauta, alaúde (kinneret) e adufe (tamborim). Existem exemplos de arte visual, de sabor ingênuo e primitivista.

HELENISMO

"Estava doente o filho de um centurião"

14. O Oriente Médio daquela altura, região profundamente civilizada, formava o eixo econômico do Mediterrâneo. Vivia do comércio de artigos de luxo, e da agricultura escravista. Principais centros, Egito, Grécia e Ásia (mod. Turquia). Principais parceiros comerciais, Mesopotâmia, Pérsia, Índia e China. Também o interior da África, com metais; e a Arábia, com incenso, possivelmente até mesmo a América, eram intensamente exploradas pelos comerciantes romanos. Trocavam azeite, trigo e vinho, por perfumes, tecidos, vidro (preciosíssimo!), cerâmicas, etc.

O helenismo era uma cultura multirracial e sincrética. Por um momento, houve grande homogeneidade de padrões culturais, e de costumes; isto aproveitou aos pregadores cristãos no seu deslocamento pelo mundo helenístico.

SEGUNDA PARTE

Tentativa de Biografia Histórica

"Nasceu em Belém de Judá"

15. Jesus teria nascido por volta do ano 7 a. C. Em março,abril, maio ou agosto, mais provavelmente, em março ou agosto. 28 de maio ou 19 de agosto são as datas mais prováveis.

Era o império de Augusto, cujo século (a "Pax Romana") marca o apogeu da civilização romana; seu governo dura de 27 a.C a 14 d.C.

A Estrela de Belém provavelmente foi uma "conjunção" astronômica entre Marte, Júpiter e Saturno, na constelação de Peixes, ocorrida 3 vezes entre 7 e 6 a.C.

Modernamente, começamos a aceitar que tenha havido mesmo um recenseamento naquela altura, entre 12 e 7 a.C, antes do outro, o de Quirino, até então o único registrado e conhecido.

Belém era uma escola de profecia e se aproximava da comunidade essênia, que funcionava em grutas próximas. Era o costume de as castas possuírem um terreno ancestral para celebrar os nascimentos e mortes, daí, talvez, o deslocamento de José para cumprir o recenseamento em Belém, antes do nascimento do menino.

16. Se Jesus foi levado ao Egito há de ter sido, provavelmente, para Heliópolis, --- sua capital cultural e sede de numerosa, antiga colônia judaica. Neste caso terá sido uma viagem de instrução filosófica para os pais. Sendo alto o padrão cultural do judeu médio, eles devem ter sido mais do que camponeses ignorantes; uma tradição acentua que José era rabino.

Com toda certeza Jesus freqüentou a escola comunal de Nazaré; há testemunhos inequívocos de que sabia escrever.

17. Ainda menino, depois do seu 'bar-mitzvah' --- que é uma cerimônia de iniciação religiosa para o adolescente --- esteve no Templo entre os doutores (5 d.C); ali, com certeza conheceu Hillel. Depois, reaparece como adulto; talvez tenha ido ao Oriente, onde existe uma tradição a respeito. De todo modo os sábios judeus visitavam, tradicionalmente, a Babilônia; ou moravam no deserto. João, Seu parente, tão inspirado quanto Ele mesmo, viveu ali, entre 7 a.C. e 29 d.C.

18. Jesus reaparece entre os anos 27 a 28, ou, de 28 a 29. Com certeza, estava em Jerusalém no ano de 29.

Morre entre os anos 29 a 33, entre 35 e 40 anos de idade. Mais provavelmente, 38 incompletos, numa certa sexta-feira véspera de "Pessach" (Páscoa), festa comemorativa da Libertação. Provavelmente, em 7 de abril do ano 30; ou mesmo, 3 de abril do ano 33, ambas, igualmente com bastante peso. As evidências do Evangelho, porém, parecem indicar o ano 30.

OS LUGARES

"Jerusalém, Jerusalém!"

19. Nazaré era uma pequena aldeiota perdida nas terras médias da Galiléia; ficava no alto, junto da estrada entre Samaria e Síria ("Caminho do mar, Galiléia das nações!"). Cerca de + 200 m de altitude.

Cafarnaum (aram. 'Kefarnomê'), na planície de Genesaré, entreposto comercial, entroncamento no rumo das caravanas ("Confins de Zebulon e Neftali!"). A Galiléia era o celeiro da Palestina; perto da cidade, o Monte das Bem Aventuranças e o Tabor, oferecendo belíssimo panorama.Fica a - 200 m.

O Lago de Genesaré, de Quineret ou de Tiberíades, em heb. Kinneret, lit, 'alaúde', abrangia inúmeras aldeias de pescadores, Corazim, Betsaida, Magdala (Marcos, num arroubo, irá chamá-las de komopólis, lit. cidades-aldeias); talvez um pouco maior ou menor que a baía de Guanabara.

20. Belém, povoado rural ao sul de Jerusalém, hoje, um subúrbio. Era moradia de pastores, essencialmente, um vilarejo de zona rural; havia funcionado ali, rezavam as tradições cabalistas, uma comunidade fundada por Moisés; era a cidade natal do rei Bem-Amado.

Em Jerusalém, a paixão e a morte. Alguns acreditam que o lugar mais provável do Seu sepultamento seja um, conhecido como "Sepulcro do Jardim". Quase nada resta daquela jerusalém do século primeiro, somente a Cidade Velha em algumas partes, a base do Templo ("Muro das Lamentações"), talvez, o Golgotáh considerado autêntico por alguns. A atual Cidade Velha é bizantina e árabe.

POR QUE JESUS MORREU?

"Tudo está consumado"

21. Talvez este assunto jamais venha a se esclarecer. Mas, podemos dizer sem dúvida: recebeu sua pena de morte no exato instante de tocar na soberba dos poderosos, ao purificar o Templo (Lc 19,28-48); o regime político vigente, baseado no terror, não podia suportar aquela confrontação.

LEMBRANÇAS DA MORTE

"Tornarei a vós"

22. Existem ainda alguns dos objetos que marcaram a Crucificação. Processo hoje mais bem conhecido, sabemos que é demorado e desgastante, pois que a vítima morre lentamente --- levando mesmo alguns dias, culminando por infarto e asfixia, colapso circulatório e respiratório; no final, geralmente, as pernas eram quebradas de marreta, para acelerar o fim.

Recentemente foi encontrado o corpo de um homem, o único da História inequivocamente crucificado. Semita, de nome Ezequiel, as pernas foram serradas, o calcannhar trespassado por um cravo, a que ainda se prende um fragmento de cruz.

A tabuleta que encimava a Cruz está em Roma; preserva algumas letras da inscrição; sabemos que pode ser autêntica porque se escreve da direita para a esquerda, mesmo em grego e latim (um falsificador não faria isto). Pode ser que ainda haja um dos cravos; são objetos de frágil evidência arqueológica, --- a tábua, pintada de branco e de letras vermelhas, está quase a desmanchar-se; o cravo foi derretido para compôr a Coroa austríaca. Diz a tradição que todos foram achados juntos numa cisterna abandonada do Gólgota.

23. Existe também o Sudário em Turim. Mostra um outro homem crucificado, são os dois únicos testemunhos deste gênero de morte. Um pano de 4 m X 1,10 m, de linho, mesopotâmico; autêntico. Do séc. primeiro, marcado pela imagem (de origem desconhecida) de um homem semita-caucasiano, judeu, piedoso, nazareno (ostenta sinais típicos desta condição). Alto (1,80 m), cerca de 35 anos. Morreu de infarto, muito provavelmente, após crucificado. Antes de morrer, foi açoitado por dois chicotes de tipo especificamente romano; recebeu na cabeça uma como coroa ou capacete de espinhos; teve ombros e costas esfolados por alguma coisa dura, áspera e pesada. Caiu ao transportá-la; quebrou o nariz e esfolou o joelho. Após a morte teve coração e pulmões perfuradaos por objeto ponteagudo que lhe abriu o lado, fazendo vazar sangue e soro, ainda estampados na figura.

O 'homem do Sudário' provinha do vale do Jordão, pelo menos, da Palestina às margens do mar Morto. Caminhava a pé e descalço, antes da morte. Neste pano existe sangue humano, poeira, pólen, areia e terra, marcas de fogo (sofreu incêndio) e de água: sofreu enchente. Ostenta a marca de um corpo, produzida por oxidação de origem desconhecida. Não é pintura, nem sangue. Não sai com lavagem. É superficial; não penetrou o outro lado do pano, nem mesmo, as derradeiras camadas da trama. Parece ligeira queimadura de ferro elétrico.

24. Em si mesmo, o pano tem uma história misteriosa. Apareceu na idade Média, na herança de um cavaleiro francês que estivera nas Cruzadas. Parece que passou por Éfeso, Constantinopla, França e Itália. Houve muitas guerras a seu redor.

FAMÍLIA E AMIGOS

"...Quem faz a vontade de meu Pai"

25. Jesus tinha irmãos? A casta judaica vivia em comum numa habitação parental; os primos se diziam irmãos. Porém, as tradições em favor de irmãos e irmãs, de Jesus, são fortes. Dois dos apóstolos, Tiago e Judas, se chamam "Irmãos do Senhor". De qualquer modo, aparecem no Evangelho os nomes de Simão, Tiago, Judas e José; irmãs também se mencionam.

Há uma tradição de inimizade entre Jesus e seus irmãos, aparentemente, não condizente com a realidade. Seja como for, sua casta era extensa: provavelmente, José e Alfeu (pai de Mateus) são irmãos; provavelmente, Maria e Salomé são irmãs (Salomé é a mãe de Tiago Maior e de João Evangelista).

É preciso entender bem esta noção de casta: cada família nuclear se ligava às outras de mesma origem (Lc 1:59 - 'singenía'); esta descendência era patriarcal (Mt 1:1); os filhos homens traziam suas esposas para o seio da parentela, por isso, Pedro e André moram juntos (Mc 1:29). Maria e Isabel moram separadas porque elas, e não seus maridos, são parentes (Lc 1:36).

(Mt 13:55) "Não é ele o filho do carpinteiro? Não se chama, a mãe dele, Maria? E os seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? E não vivem as suas irmãs todas entre nós?"

26. Podemos incluir na sua casta João Batista, Maria Salomé de Caná, Joana de Cusa (talvez), Tiago Menor, Judas Tadeu, Mateus provavelmente.

Embora de origem camponesa, a casta normalmente possui um pequeno tesouro, tipo de recursos comunais, que passam de geração em geração. Este pequeno tesouro deveu, talvez, ter sido posto a serviço da Boa Nova: é uma economia baseada na acumulação progressiva de uma riqueza sempre coletiva. O Evangelho menciona claramente que as mulheres da casta, ou, senhoras outras, amigas de Sua obra, seguiam a Jesus e o serviam, possuindo bens (Lc 8,1-3):

1. "Logo após, Jesus deambulava pelas cidades e aldeias, proclamando e anunciando as boas novas do reino divino, e iam com Ele os doze

2. "E algumas senhoras que haviam sido curadas de obsessores e enfermidades, Maria, chamada de Magdalena, da qual haviam saído sete espíritos menores,

3. "Joana, esposa de Cusa, procurador de Herodes, Susana e muitas outras, as quais O serviam com seus bens".

Dizem os Pais, em Nazaré funcionou (até o séc. VI) um tipo de museu ou centro de estudos, mantido pela família; deixaram descendentes e até se arrogaram uma posição de primazia na Igreja primitiva.

27. Certo é que Tiago Menor e Judas Tadeu eram filhos, pelo menos, de um parente de um dos pais do Mestre. Mateus, segundo Marcos, era filho do mesmo Alfeu; Maria Salomé era, talvez, parenta de Jesus. Teria sido casada com Zebedeu, provavelmente, sócio de Pedro (?); pai de Tiago Maior e de João Evangelista; ela esteve ao pé de Sua cruz.

28. José, sendo carpinteiro há de ter sido um daqueles artesãos independentes, raríssimos, de tanto valor --- graças à sua habilidade manual. Maria, segundo o costume, deve ter casado entre doze e quinze anos de idade; provavelmente estava com quinze, ao se tornar mãe pela primeira vez. Segundo a Tradição, José e Maria se conheceram no Templo, onde serviam; dizem outros que José devia protegê-la por dever de parentela, quando Joaquim (o avô de Jesus e pai de Maria) morreu. Mas isto não corresponde muito ao costume judaico; todavia, é possível.

José, ao casar-se, há de ter estado já com trinta ou mais, já adulto; mas eu penso que podia ser jovem: os camponeses não deviam se dar ao luxo de estudos rabínicos muito prolongados. Parece que morreu cedo; Maria desapareceu em Éfeso, muito idosa, aos cuidados de João.

29. Jesus teria se casado? Teria tido um amor, uma paixão? Certamente, mas os costumes da época interditavam a bisbilhotice na vida particular das pessoas célebres. Talvez, pode ser que não: ao morrer, tinha a idade consagrada ao casamento.

De todo modo o Evangelho nos revela Sua intensa vida emocional. Amoroso para com todos, extático às vezes, comovido quase sempre; de vez em vez, chora! Indignado, por uma vez ou outra. Todavia o Sudário, se é Jesus, nos mostra um rosto sereno.

30. A presença da mulher, na sua vida de Homem, era uma constante. Seja na pregação diária, seja na vida em família, o Mestre nunca está indiferente às mulheres, nem misógino; portanto, é um sujeito inteiramente normal. Sempre atento e solícito, sensível mesmo, ao carinho.

Contrariando o protocolo, conversa com a samaritana, em pleno campo e a sós; só isso já seria um escândalo. Repreende sua mãe em público. Aceita o afeto, o carinho espontâneo de uma pobre prostituta, em banquete de fariseus. Por duas vezes deixa-se acariciar em público, na cabeça e nos pés. Tudo isso demonstra sua espontaneidade e naturalidade, somente possíveis numa pessoa normal. Acredito que a sua sexualidade se desenvolve também em outro plano existencial.

Os discípulos quase todos eram casados e de filharada, muitas vezes, com família numerosa.

31. Jesus tinha amigos, em especial, a família de Lázaro em Betânia, aldeiota camponesa nas cercanias de Jerusalém, para o leste, a caminho de Jericó; era filho de Simão, e vivia com suas irmãs Maria e Marta; Ele nunca deixava de visitá-los.

Embora não vacilasse em denunciar os erros dos fariseus e escribas, energicamente se fosse preciso (como na purificação do Templo), também não se furta a amá-los, ensinar a eles, jantar em casa deles, conversar; mas com certeza prefere a companhia dos pobres e desassistidos.

32. Quanto ao trabalho, aparentemente, começou bem cedo; as crianças em geral começavam a trabalhar com sete anos, ajudando os pais no seu ofício. Depois de certo tempo, em saindo da carpintaria, provavelmente passou a trabalhar com Pedro; pelo menos é mostrado várias vezes no barco, com as redes. É de supôr que morasse com Mateus; em sendo seu parente(?), seria o natural.

A vida camponesa obedecia (como ainda hoje) a um ciclo invariante. Inverno, desacanso. Primavera, viagens e festas. Verão e outono, trabalho; devemos notar que era um povo trabalhador, capaz de iniciar a labuta às cinco da matina ainda mais quando, no verão, o sol se levanta às quatro e se deita às vinte e duas (em compensação, no inverno: às sete se levanta, às dezessete se deita).

Sábado, culto e sinagoga; resto da semana, roçado. Ao cair da tarde, por volta de entre dezoito horas e vinte e uma, é o serão: hora de filosofar, é a prece da tarde ('sheol'), são as histórias. É dentro deste ritmo que se desenvolve o Evangelho. Os pescadores saem cedo, muito cedo, ainda de madrugadinha; pescam cedo, vendem igualmente, cedo.

33. Na primavera, tempo de multidões; é o Ano Novo (na Antigüidade), é a Páscoa. no verão, Cafarnaum. No inverno, Jerusalém. No outono, trabalho.

Muitas vezes, Jesus se retira para orar. A oração e os Salmos desempenharam papel importantíssimo na vida deste Homem inspirado: fonte de reabastecimento de suaforça vital. Não é de se menosprezar, tendo em vista que sua única herança foi o "Pai Nosso" ou, talvez, a "Prece da Ceia".

TERCEIRA PARTE

A Redação Original dos Evangelhos

"Caríssimo Teófilo, muitos escreveram"

26. Os evangelhos estão escritos em grego 'koiní' representando documento histórico-literário único e específico deste tipo de grego. Nenhuma obra extensa, nenhuma outra obra está em koiní, a não ser documentos e cartas: o koiní, chamado grego neo-testamentário, repleto de palavras hebréias e formas aramaicas do idioma. Chega a ser possível reconhecer, no autor de Marcos, um habitante de Jerusalém, pela maneira como descreve os arredores da cidade.

27. Existem cerca de cinco mil manuscritos, nenhum deles original; alguns, todavia, de primeira cópia. Apresentam um mesmo Sentido, através de três 'Famílias de Textos', segundo a comunidade cristã e a época de que provieram.

No total, são cerca de dez mil variantes de texto, duas mil destas, --- as mais importantes. A maioria dos melhores manuscritos provém dos séculos terceiro ou quarto.

Quanto à linguagem em grego, Marcos é o mais popular, Lucas o mais correto; Mateus e João guardam linguagem intermediária. Quanto ao fundo hebraico, Mateus é talmúdico e João, filoniano-platônico.

COMPOSIÇÃO E REDAÇÃO

"De tudo foram testemunhas desde o princípio"

28. Provavelmente, alguns trechos começaram a se escreverem ainda em vida do Mestre: talvez os Sermões, "Da Montanha" e "Das Parábolas" e "Escatológico"; primeiro em aramaico, logo depois, passados para o grego. Talvez o mesmo Jesus tenha se preocupado com a redação grega do evangelho, apesar de nada haver escrito. A forma de "Sermões" pode ser uma influência dos primeiros livros budistas, que então começavam a se espalhar no Ocidente; registrados assim, em grandes fragmentos, os discursos de Jesus correram de mão em mão.

MARCOS

29. Marcos parece que é o mais antigo evangelho, e criador deste gênero literário. João Marcos era filho de Maria Marcos, talvez, sobrinho de Pedro. Ao que parece registrou principalmente as suas palestras a respeito de Jesus.

Seu livro, parece, foi escrito entre 50 e 70; os problemas de data em Marcos ainda não se resolveram, pode ser que seja de época bem recuada, antes do ano 50. Reflete o pensamento da comunidade romana para quem foi escrito. É o mais curto, mais biográfico, de idioma mais vívido; também, o de linguagem mais errada, porém, viva e colorida. Foi o mais mutilado de todos estando, hoje, inacabado e completado por um outro texto, pelo menos duzentos anos mais novo, inautêntico (Mc 16, 9-20).

Evangelho destinado a chamar nossa atenção para a humanidade de Jesus, redigiu-se primeiro como um exemplo de literatura popular oral judaica ("hagadáh") como nos repentes nordestinos e depois, posto por escrito. Tem estilo frouxo, rápido, nervoso; para coordenar os fragmentos, lança mão de palavras corridas, tipo "E LOGO" ou "E SAINDO" ou "ESTÃO CHEGANDO". Usa freqüentemente o indicativo presente como recurso narrativo, --- "E chega alguém perto d'Ele e, afirmante, diz", e por aí vai.

MATEUS

30. Levi Mattai era discípulo de Jesus. Coletor de impostos, talvez primo (parente, pelo menos) do Mestre. Seu evangelho nasceu de uma série, ou de uma coleção, de "Sermões" --- a que se acrescentaram dados biográficos recolhidos de diversas fontes. revela a visão dos judeus essênio-cristãos e dos Terapeutas. O estilo é bem talmúdico. Dizem que Mattá Levi passou uma vida de extrema severidade em sua velhice, tendo se transferido para a Etiópia, possivelmente no ano 44.

Seu evangelho tem uma idéia básica, "A Vinda do Reino de Deus"; foi composto aproximadamente entre 70 e 80, na Palestina, a partir de um original possivelmente aramaico, talvez o mesmo que hoje se conhece como "Evangelho dos Nazarenos".

LUCAS

31. Lucas (gr. Likânus) era médico grego de Antióquia, discípulo e colaborador de Paulo, autor também da palavra "cristão".

O evangelho que lhe atribuem foi escrito, talvez, entre os anos 80 a 90; deve refletir o pensamento da comunidade antioquena, a mais antiga entre os gentios, a mais vetusta das Igrejas e entre todas, ortodoxa por excelência. Também reflete os cristãos sírios e gregos, acostumados aos Mistérios e à Filosofia gregos ("Mistério", na época, é sobretudo um grupo filosófico qualquer). Antióquia, ao norte da Síria, era um das mais importantes cidades do Império Romano.

32. Lucas recolheu depoimentos diversos e estudou as muitas biografias anteriores, a fim de condensar e completar. Sua linguagem grega é quase clássica; terminologia exata, muitíssimas vezes; terminologia técnica, especialmente, em Medicina e Náutica, ou, na descrição das curas e 'milagres'.

Perceptivelmente, o autor deste evangelho era médico, e um homem culto, habituado a ler e escrever (confirmando, portanto, a provável autoria de Lucas). Ao mesmo tempo em que se faz um evangelho racional e científico, procura registrar e ressaltar a subjetividade de Maria; consta que Lucas procurou a mãe do Mestre, a fim de incluí-la em seus depoimentos. Aparentemente, foi composto durante a prisão de Paulo.

JOÃO

33. João (gre. Joannes) era discípulo e, talvez, sobrinho de Jesus. Era o mais novo dos discípulos. O evangelho que lhe atribuem foi escrito no final do século I, aos setenta anos de cristianismo, por volta de 90 ou 100. Reflete o pensamento dos cristãos ainda judeus, porém liberais e conhecedores de Fílon, o sábio judeu de Alexandria, ainda influente, pois morrera em 80. É a visão helenística e já um esboço de desenvolvimento doutrinário, de acordo com as preocupações da segunda geração cristã.

34. Sabemos que os cristãos da época se dividiam em geral em Escolas filosóficas ou, 'igrejas'; João agregava em Éfeso uma "Escola Joanina". Ali morava Maria; por isso podemos, sem grande esforço, imaginar o clima de intensa operosidade intelectual reinante naquele círculo. Esta escola teria funcionado bem uns duzentos anos e produziu este evangelho e o Apocalipse, que encerrou a Revelação cristã.

Pela sua influência no evangelho de João, maior do que no de Lucas, podemos perceber que Maria não era uma pessoa inculta; talvez, (melhor, com certeza) analfabeta no geral --- como de hábito para a mulher da época; sem dúvida, entretanto, uma pessoa de larga visão filosófica.

O evangelho de João está dominado pela idéia central do Logos, já presente em Marcos e, todavia, levado aqui às últimas conseqüências. 'Logos' é a Palavra criadora de Deus; João representa o evangelho interno, seja: enuncia aqueles temas reservados que os Apóstolos haviam silenciado, a fim de não caírem no ouvido errado, durante as primeiras perseguições.

A Segunda Geração, os Pais da Igreja, os Apócrifos

35. Os evangelhos de que dispomos hoje não pertencem a esta primeira fase e sim, à segunda geração, que corrigiu os originais. Existem outros evangelhos, todavia, os quatro mais importantes se reconheceram como tais --- não somente por se atribuírem aos apóstolos mas também por se destacarem na sua ideologia central; e porque revelaram uma concordância que, acertadamente, foi tida como inspirada, deveras. Dos apócrifos, os mais importantes se reuniram aos quatro, como: o evangelho dos ebionitas e o de Tomé, reunidos em Mateus; e o de Tiago, (hoje perdido) reunido em Lucas pelo nome de 'fonte Q'.

A família de Jesus manteve em Nazaré um museu, que foi visitado pelos primeiros Pais --- os escritores e apologistas que, a partir do segundo século, fizeram a doutrina cristã. Na segunda geração, o mais importante deles foi Inácio de Antióquia. No século quarto, Jerônimo compilou os manuscritos existentes numa só versão. A partir daqui houve duas vertentes textuais: a ocidental, de Jerônimo; a oriental, inspirada em Inácio. Somente Erasmo, no século XVI, reiniciaria os estudos textuais do Evangelho. Hoje, podemos dizer que estamos a oitenta por cento do original.

APÊNDICE

I. VIDA ECONÔMICA - Vários sistemas econômicos coexistiam, desde o pastoreio beduíno ao regime de 'capitalismo prévio' dos grandes financistas judeus; esta coexistência não era pacífica. Basicamente a economia se fundamentava no escravismo agrícola, em regime de latifúndio, para exportação de azeite, vinho, perfumes e trigo; dava realmente muito lucro, mas, gerava tenebrosos conflitos; por isso havia numerosos levantes. A pequena propriedade era rara; 50 % das terras se concentrava nas mãos de 5% da população.

II. ORGANIZAÇÃO POLÍTICA - Uma parte do país se subordina diretamente a Roma; outra depende, governada por reis de fachada, puramente. Cada região destas abrigava populações social e culturalmente distintas.

III. TEMPLO E SANEDRIM - O Templo era a instituição fundamental do país, Banco Central, único banco, Universidade, Supremo Tribunal, Trono e Parlamento. O 'cohen-gadiol' (heb. 'grande sacerdote'), alma de toda maquinaria social. Rei, juiz, sacerdote. O Templo desempenhava um importante papel financeiro, não por acaso, o cohen-gadiol era escolhido entre as principais famílias latifundiárias. A concentração de rendas era imensa, gerando contradições entre os camponeses endividados e os grandes proprietários.

IV. CLASSES SOCIAIS E PARTIDOS POLÍTICOS - Seis famílias detinham metade das terras cultiváveis; havia poucos proprietários independentes e comerciantes médios. Os 'am-ha'retz': lavradores e pequenos cultivadores, camponeses e sitiantes, servos independentes, operários e trabalhadores manuais, etc. formavam a massa popular de então. As elites se dividiam em dois grupos principais, saduceus e fariseus.

O Sanedrim, gr. Sinédrio, era um tipo de Parlamento ou Congresso Nacional, e Cúria.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (Leia!)

  1. O EVANGELHO DE JESUS - Mons. Galbiati, Ed. Paulinas; para um roteiro cronológico da biografia de Jesus.
  2. A VIDA DE JESUS - Ernest Renan, Lello (Port.); primeiro volume da sua 'História do Cristianismo'; uma das primeiras obras críticas.
  3. SABEDORIA DO EVANGELHO - Carlos Torres Pastorino, Ed. Sabedoria; a primeira tradução em português, do grego, das recentes edições críticas dos antigos manuscritos; comentada pelo autor; oito volumes.
  4. THE GREEK NEW TESTAMENT - Aland, Metzger, e outros, UBS; edição crítica de todos os manuscritos juntos e suas variantes.
  5. O NOVO TESTAMENTO interpretado versículo por versículo - Champlin, Ed. JUERP; muitas notas históricas e exaustivos comentários sobre o texto e os manuscritos, e qüestões gerais da doutrina cristã; seis volumes.
  6. JERUSALÉM NOS TEMPOS DE JESUS – Joachim Jeremias, Ed. Paulinas; estudo histórico sobre o quotidiano da Cidade no séc. primeiro.
  7. A PALESTINA NOS TEMPOS DE JESUS – Christiane Saulnier e Bernard Rolland, Ed. Paulinas; estudo histórico.
  8. O IMPÉRIO ROMANO – Haddas, col. LIFE de História; estudo histórico sobre o antigo Império e sua vida cultural e política; [ou outro livro sobre o assunto].

1, 6 e 7 são católicos não-dogmáticos; 4 e 5 são protestantes, não-dogmáticos, preparados para especialistas; 4 é inteiramente em grego, a não ser as introduções em inglês; 3 é espírita e espiritualista, tem uma abordagem esotérica bastante interessante; 2 e 8 são agnósticos; 8 não tem nada sobre Jesus; 2 é interessantíssimo.

RECOMENDAÇÃO ESPECIAL (Leia mesmo!)

  1. O ASSASSINATO DO CRISTO - W. Reich; é psicanalista, analisando Jesus com muita simpatia.
  2. O EVANGELHO À LUZ DA PSICANÁLISE - Françoise Dolto; uma interpretação psicanalítica da vida e dos milagres de Jesus; p. ex. a ressurreição do filho da viúva de Naim: sua morte era a negação dele mesmo e de sua mãe, da sexualidade do menino em crescimento para a puberdade; sua cura foi retomar a energia própria. Muito bom.

ETIMOLOGIA

I. Termos hebraicos:

II. TERMOS GREGOS

Os hebreus acreditavam na virtude mística das palavras e o nome expressava a alma das coisas e pessoas; os nomes próprios eram substantivos comuns, carregados das qualidades místicas que se desejavam transmitir.