Revelação versus Reinterpretação

Benigno Ferreiro Rodrigues

Em que pese o respeito e a admiração aos ilustres confrades espiritistas do lado de cá das trincheiras do Cristianismo Redivivo, a quem rendemos nossas mais calorosas homenagens, mister se faz, tecer algumas considerações ímpares a respeito dos trabalhos de divulgação doutrinária nos Centros declaradamente Espiritistas.

Há algum tempo visitamos Centros de diversas organizações administrativas, sobretudo, aqueles em cujas atividades verificam-se tendências exclusivamente espiríticas. Pois bem. Nestes mesmos Centros, observamos, salvo melhor juízo, um ajustamento inseguro em torno das obras básicas da Codificação.

Com efeito, notamos com certa freqüência que a iniciação espírita (desde que, e quando, realizada sob tal rubrica), a mais das vezes é efetuada por intermédio de apostilas suscintamente preparadas para tal finalidade, especificamente para os locais onde serão ministrados os respectivos cursos ou mesmo por outros Centros de Excelência que se prestam a interpretar a Doutrina Espírita sob a óptica particular dos seus grupos de estudos. Daí nos perguntamos se tal procedimento constitui informação segura ao principiante da Doutrina.

Além disso, verificamos ainda certa padronização dos trabalhos no âmbito das respectivas Casas, mais precisamente em relação as pessoas reincidentes dos chamados “tratamento de obsessões”, as quais acabam por engrossar inúmeras vezes as fileiras dos perturbados de toda ordem, embora acusem certa vivência nestes mesmos locais de atendimento. Forçosamente nos perguntamos novamente se isso não se deve ao fato de a Doutrina Espírita não estar sendo compreendida por tais pessoas de maneira satisfatória. E mais, se há ligação entre a iniciação doutrinária e a reincidência de pessoas nas filas de obsedados! Em havendo, quais seriam então as providências cabíveis? Será que o espiritismo bem compreendido e bem sentido não reduziria o número de obsedados reincidentes?! Meditemos pois.

É inegável, por outro lado, a contribuição dos prestimosos grupos de estudos em torno da divulgação das mensagens dos Espíritos. Todavia, perguntamo-nos mais uma vez, se realmente faz-se necessário reinterpretar as obras de Allan Kardec para efeito de entendimento da Filosofia, Religião e da Ciência Espírita, ao menos em suas linhas gerais. E se assim não o é, por que esses mesmos Centros declaradamente Espiritistas não iniciam os Estudos Doutrinários, preferencialmente, através das Obras Codificadas, sem prejuízo da adoção das obras complementares do mesmo Autor (Revista Espírita).

Talvez nossas impressões não sejam oportunas e esta é uma hipótese segundo a qual acreditamos não podermos nos desvencilhar por completo neste parecer. Daí porque sentimo-nos no dever de enfrentá-las sob o prisma de nossas próprias luzes, o que efetivamente não nos isenta de eventual refutação daqueles que desejam exprimir sua própria experiência a respeito do tema, refutação esta que, aliás, muito nos honraria.

Sabemos, sobremaneira, da necessidade da união dos seres em torno do fraternalismo cristão, mormente entre os Confrades Espiritistas de boa-fé, cujas frentes de serviços nestes mesmos Centros de Excelência, muito enobrecem à Causa Espirita.

As questões aqui levantadas, por seu turno, estão longe de determinar a este ou aquele dirigente um proceder sistematizado, tendo em vista tão somente o levante de quem quer que seja, contudo, a questão da iniciação doutrinária nas organizações administrativas de cunho espirítico demanda, a bem da verdade, reflexão isenta de todos os espiritistas sinceros.

No mais, nossas saudações aos confrades, desejando a todos, desde logo,

Muita paz!

Benigno.