Tempos de Doutrina

Vanderlei Nunes Ferreira

Vivemos tempos de comemoração, de festa, de alegria, já se vão 200 anos do nascimento do Codificador, então nada mais justo que este jubilo que a todos nos toma. Entretanto, junto às comemorações, é tempo de reflexão, de exame firme de nossos posicionamentos.

Da proposta apresentada pelos luminares vem inserida em seu bojo a reeducação íntima que todos devemos proceder através da análise constante de nossos atos, sejam os externados ou não. Tempo para esta análise parece ser um dos problemas apontados por aqueles que gravitam na esfera desta Doutrina abençoada, outro seriam as contradições que sobre todos nós sopram seus ventos.

Então, dentro destes parâmetros, é hora de lançar olhar criterioso sobre estes temas.  Quando ouvimos de confrades a “justificativa” da falta de tempo, logo imaginamos tal antagonismo com a realidade que nos cerca.  Sem querer fazer justiça de valores, em nosso tempo a mídia com variados aspectos, invade nossas vidas com tamanha facilidade, gerando tal conformismo de nossa parte que chega a estarrecer.

Partindo deste conformismo inicial, cria nossa mente uma justificativa aceitável, e, inicialmente lógica.  Encontramos então os confrades que, a título de falta de tempo para a dedicação da leitura ou exemplificação exposta pela Doutrina, se dedicam ‘a exaustão da proposta materialista atual.  São novelas que se multiplicam e se repetem, são a busca do “conhecimento” extra na Internet, são os programas sociais exigidos por outros, são as “cobranças” dos companheiros de trabalho, são as fugas alienadamente justificadas pelo stress da vida e acrescidas de um sem fim de atividades extras.

Quando optamos por este comportamento diário, nossos compromissos com a causa acabam por afrouxar, ficamos afastados dos compromissos da Casa onde deveríamos estudar e laborar, para mais fortemente atuarmos decididos em nossas vidas em comum, desviamos então nossa atenção do principal e focamos apenas a superficialidade.  Achamos então que a cobrança no meio espírita é muito forte, que não temos a atenção desejada, que os confrades estão “radicais” e vamos então fazendo a “social” na casa espírita, e nos encontros regionais, sem valorizarmos a transformação planejada através do trabalho ainda no plano espiritual.

Encontramos assim no Cap.XX do Evangelho Segundo o Espiritismo, mensagem assinada por Erasto quando fala da missão dos espíritas, “...A hora é chegada em que deveis sacrificar ‘a sua propagação os vossos hábitos, os vossos trabalhos, as vossas ocupações fúteis. Ide e pregai...”, o tempo que tanto justificamos está sob nossa administração, e seu uso deve apontar para caminhos onde esteja a seleção de nossos ideais maiores e duradouros, já que asseverou Jesus que o reino oferecido não era deste Mundo.

Tema que também deve ser pensado é quanto as contradições dos trabalhadores da Doutrina, a começar pela falta de fé.  Tendo como ponto basilar que a fé deva ser raciocinada, todos propalamos esta verdade, mas quando trata de vivência, tudo fica mais difícil.  Temos fé na sobrevivência do Espírito e temos medo de morrer, muitos de “ver” os Espíritos, temos fé na evolução e conseqüente pacificação de nosso planeta mas ficamos incertos diante do quadro atual, temos fé no auxílio dos bons espíritos e praticamente não oramos.

Tais contradições e outras tantas encontram suas justificativas em vivências passadas, que no formatar dos conhecimentos do Espírito imortal necessita vencer passo a passo já que a natureza não dá saltos.  Mas isso não deve ser motivo para acomodamento de nossa parte, já que a razão de tal estado está em nós, quando deixamos passar as inúmeras chamadas de trabalho no campo do bem. Não basta apenas conhecer a Doutrina para se estabelecer bem, é necessário “que se colocasse mais interesse, mais fé nas leituras evangélicas; abandona-se esse livro, faz-se dele uma palavra oca, carta fechada; deixa-se esse código admirável no esquecimento; vossos males não provêm senão doe vosso abandono voluntário desse resumo das lei divinas. Lede, pois, essas páginas ardentes do devotamento de Jesus, e meditai-as”, mensagem inserida no Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XIII.

Diante dos desafios a enfrentar, esses apontados acima, devem ser trabalhados por nós e em nós, para agilidade do processo em elaboração.  A Nova Era, inserida no Cap.I do Evangelho Segundo o Espiritismo, é indicativo de esperança de nossos esforços,  já desenhando um mundo renovado em sua Moral, desde que os componentes deste mundo novo também a contenham.