Evangelho e Doutrina Espírita

Constâncio Alves

No décimo quinto ano do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, veio João Batista, filho de Zacarias, pregando pelo deserto. Interpelado pelos sacerdotes e levitas, respondeu-lhes que ele não era o Cristo, não era Elias e nem profeta; que batizava com água, até que eles conhecessem aquele que lhe foi preferido, aquele de cujas sandálias, ele, João, não era digno sequer de desatar as correias, aquele que batizava com o Espírito-Santo. E, então, lhes repetiu o que pregava às multidões: — “Convertei-vos, pois que o reino dos céus está próximo”, porquanto a ele se refere o profeta Isaías, dizendo: — Voz que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor; aplainai as suas veredas; todo vale será aterrado, abater-se-ão todos os montes e colinas; tornar-se-ão retos os caminhos tortuosos; planos, os acidentados; e todo homem verá a salvação de Deus.”

João trazia uma veste de pêlos de camelo e um cinto de couro em volta da cintura; alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Os habitantes de Jerusalém, de toda a Judéia e de toda a região circunvizinha do Jordão vinham ter com ele; e, confessando os seus pecados, eram por ele batizados no Jordão.

Vendo muitos fariseus e saduceus que vinham para o batismo, disse-lhes João: — Raça de víboras, quem vos preveniu que fugísseis da cólera vindoura? — Tratai de produzir frutos de sincero arrependimento, e não procureis dizer intimamente: “Te­mos Abraão por pai”; porque eu vos declaro que destas pedras pode Deus fazer que nasçam filhos a Abraão. O machado está posto à raiz das árvores: toda árvore, pois, que não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo. Eu, na verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que há-de vir, depois de mim, é mais poderoso do que eu, e não sou digno de levar-lhe as sandálias; ele vos batizará com o Espírito e com fogo. Traz na mão a pá e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro e queimará a palha em fogo inextinguível” (Lucas, III:1-17.)

O Evangelho reporta-se a três categorias de batismo: o da água, o do fogo e o do Espírito-Santo, O primeiro, isto é, o da água foi aplicado por João Batista; os dois últimos, segundo o testemunho do mesmo Profeta, são de Jesus.

João Batista fora, consoante a inconteste e positiva afirmativa de Jesus, Elias reencarnado, embora ele, tal como comumente acontece a todos nós, que não temos recordação de nossas existências anteriores, ignorasse, necessariamente, aquela sua encarnação pretérita.

O papel de João Batista, como ele próprio afirmara, consistia em preparar a ambiência para receber Jesus.

O ponto principal das suas dissertações era o de aconselhar a confissão íntima da culpa, seguindo-se-lhe o arrependimento e a regeneração a fim de receberem o Enviado Celeste. Nesse propósito, João ia batizando, no rio Jordão, aqueles que lhe acudiam ao apelo, os quais, através daquele símbolo, assumiam publicamente o compromisso de mudar de vida, de se transformarem, deixando hábitos pecaminosos e costumes corrompidos. Como tal, e Batista só aplicava o seu batismo em adultos. Notemos bem esta particularidade: em pessoas no uso completo da razão, que podiam prometer, por isso que sabiam perfeitamente do que se tratava e da responsabilidade que contraíam. E’ claro que ele fez sentir aos fariseus que o batismo da água não isentava ninguém das culpas cometidas, nem constituía, por si só, elemento de redenção; mas, apenas, importava na promessa solene, feita em público, de corrigir-se, dando novo rumo e nova orientação ao modus vivendi até ali adotado.

Os símbolos — estes ou aqueles — nada podem e nada valem por si próprios, isto é, em sua forma ou apresentação material. O seu valor está na idéia que encerram e no sentimento que despertam. Por isso mesmo, é necessário, antes de tudo, saber interpretar o símbolo, o que equivale a dizer, conhecer a idéia que ele encobre. As letras do alfabeto são símbolos, os quais têm grande significação e importância para os que sabem ler; para o analfabeto, porém, nada representam, nenhuma importância podem ter. O mesmo se dá, evidentemente, com o simbolismo em geral, sob todos os aspectos. Esta circunstância é que o Batista fez sentir aos fariseus, homens hipócritas e desleais que procuravam batizar-se formalisticamente, apenas para aparentar bons propósitos.

Como vãs serão as diligências e inúteis os ensaios procurando solucionar os graves problemas da vida, através de sofisticarias, ritualismos, artimanhas e sortilégios!

Em tal importam, em espírito e verdade, as advertências do Batista, dirigidas aos homens desleais e dolosos de todos os tempos, representados, naquela época, pelos fariseus e saduceus.

Ocupemo-nos, agora, das duas modalidades de batismo: a do fogo e a do Espírito-Santo. Vejamos em que consistem.

O que é da Terra é da Terra; tem o seu cunho próprio e inconfundível. Por sua vez, o que é do Céu é do Céu; traz o característico, a identidade que o torna distinto, inimitável.

O batismo da água é da Terra. João empregou-o alegoricamente, com o fim que já expusemos. Como criação humana, pode ser mistificado, adulterado em sua finalidade, pois tudo que é do homem está sujeito a essa contingência. Mas o que vem de Deus escapa às influências mundanas, impõe-se por si mesmo, é inalterável; não se confunde nem se expõe ao perigo dos desvirtuamentos e das deturpações.

Com as outras duas espécies de batismo — o do fogo e o do Espírito-Santo, tal coisa não se verifica, justamente porque são de origem divina. Aquele, o da Terra, pode ser manobrado pelos homens, a seu talante. O seu emprego pode ser usado e abusivo, por isso que é da Terra. Outro tanto, porém, não sucede com o batismo do fogo e do Espírito. Na sua aplicação, os homens não podem intervir. Trata-se de fenômenos regulados pelas leis divinas, leis naturais que tudo regem no Universo. Nesse setor, é defeso ao homem penetrar e intervir. Nem mesmo como intermediário lhe é permitido funcionar na aplicação daqueles batismos, cuja ação e cujo poder realmente purificam e redimem as criaturas.

Entremos, agora, na apreciação do batismo do fogo.

Chama-se de fogo ao batismo decorrente de uma situação séria e decisiva de que participemos, pela primeira vez, na vida prática. Dir-se-ia uma prova eliminatória em que tivéssemos de fazer valer toda a. nossa capacidade, todo o nosso valor, todos os nossos recursos de habilitação. O soldado, por exemplo, que estrela na. peleja, combatendo e sendo combatido, recebe o batismo de fogo. Assim, pois, este se configura nas lutas incruentas, nas provas e nas expiações que resultam da encarnação. A alma. que enverga a libré da carne é lançada na liça. Ela tem que porfiar para se afazer ao meio; tem que prever todas as necessidades reclamadas pela matéria e a elas prover; tem que suportar a bagagem que traz do passado, a qual forma o seu ambiente interior; tem que se pôr em choque com as suas companheiras de exílio cujas imperfeições e defeitos entram em conflito com as suas próprias imperfeições e defeitos tem que arcar com as contingências e vicissitudes próprias deste mundo, tais como a ilusão dos sentidos, a enfermidade, as ingratidões, a injustiça, a inveja, o ciúme, as perseguições, as rivalidades, os padecimentos físicos e morais, a separação dos entes queridos; e, finalmente, tem que enfrentar a própria morte.

A Sra. Anne Dooley também adianta que 90% dos pacientes tratados no Hospital de Porto Alegre são católicos romanos.

Explica, em linhas gerais, como funciona o hospital e, em seguida, sai com esta: “Ferrari faz a surpreendente (“astoníshing») declaração de que, em muitos casos, essas entidades (obsessoras) se revelam “inimigos em vidas anteriores que se vingam dos adversários que os prejudicaram em passadas existências”.

Cautelosamente, a articulista passa rapidamente sobre o assunto, dizendo que “Tenha ou não substância a sua teoria (a de Ferrari), sem dúvida que muito trabalho de alta categoria está sendo realizado no Brasil”. Acha que deveria ser designado um comitê de alto gabarito para estudar o assunto aqui, em nosso país. Termina o seu artigo de maneira muito curiosa, dizendo que o Dr. Wickland abriu a picada, na primeira metade deste século. “Quem, na segunda metade do chamado século científico, dará provas de igual coragem e lucidez?

Podemos responder com outra pergunta: Onde estão os que não acham surpreendente a afirmativa de Conrado Ferrari? Esses, dizemos nós, estão perfeitamente em condições de demonstrar coragem e lucidez. Há outra pergunta complementar a fazer: Como é que poderemos começar a entender o mecanismo do Espírito e da lei cármica sem a ajuda racional, evidente, lógica, da reencarnação?

Nem que fosse a propósito, para dar continuidade à questão palingenésica, aqui está neste mesmo número de “Two Worlds” a primeira parte (de duas) de um artigo de Alan Howgrave-Graham. Chama-se “Reencarnation: a rational view” (Reencarnação - uma opinião racional). O autor costuma colaborar com certa regularidade nessa revista. Tem 88 anos de idade. A redação já procura cercar o trabalho de certas cautelas, classificando a reencarnação de “vexed questíon”, a “vexatória questão”, ou ainda: “the highly controversial problem”, isto é, “problema altamente controvertido”.

Embora o trabalho conste de duas partes, a primeira dá para a gente ajuizar das idéias do Sr. Howgrave-Graham. Por exemplo: está convencido de que a reencarnação ocorre mesmo e que aconteceu pelo menos no seu caso particular. Adiante informa que, “apesar de numericamente bem frequente, é provavelmente, em base percentual, não a regra, mas, antes, a exceção” (!)

Acha-a uma “idéia interessante” e pouco mais que isso. Os que morrem quando ainda crianças só necessitavam daquele curto lapso de tempo “para algumas lições ou experiências suplementares”. E’ a sua opinião.

Menciona um caso - que apenas informa não ser o de Bridey Murphy - em que se verificou “uma aparente ressuscitação de memórias de uma vida anterior pela hipnose”. Num ponto podemos concordar plenamente com o autor, quando ele diz que os que rejeitam a idéia da reencarnação o fazem porque têm dela uma concepção deformada. Acham estes, por exemplo, que a cada vida assumem uma personalidade inteiramente distinta, além das “mudanças de parentes, ambiente, criação, ocupação e até de língua e talvez de pais, e que cada vez é uma entidade inteiramente nova como se acabada de nascer pela primeira vez. (Os grifos são metia.) Que o “eu” de hoje, 1963, pode desaparecer completamente como os anteriores e poderá ser seguido por outro inteiramente diferente, daqui a cem anos. Qual seria, então, o “eu real”? - perguntaria o anti-reencarnacionista. O de 1963? Porquê? E porque não o de 1760? Poderia, então, ser um arcebispo e agora um empregado de banco...”

O autor recusa todas essas noções (e corretamente, a nosso ver), esclarecendo que o ser é uno: “sou o que sou e nada mais. Meu corpo é meu, minha mente é minha, minha alma é minha.”

Em seguida passa a analisar um poema de Wordsworth, intitulado “Intimations of Immortality”, e que representa, em linhas gerais, suas próprias idéias. “Our birth - diz o poeta - is but a sleep and a forgething ...” “Nosso nascimento não é senão um sono e um esquecimento...; a alma que se levanta conosco, estrela da nossa vida, já teve seu pouso alhures e veio da distância infinda; não em total esquecimento, nem em sua nudez total; trilhando nuvens de glória, viemos de Deus, que é nosso lar!”

Sublime intuição dos poetas, leitor. Na paz dos seus gabinetes de trabalho, mensageiros do Senhor lhes sopram versos como estes.

Aguardamos a segunda parte do artigo do Sr. Howgrave-Graham, a fim de podermos discutir-lhe melhor as idéias.

W. M. Blewett, um leitor que se revela multo erudito, contesta uma parte do trabalho da Sra. Emma H. Britten, que “Two Worlds” vem publicando regularmente. O leitor deve lembrar-se de que não me sinto atraído pelos escritos da Sra. Britten, mas, na minha ignorância, não sei julgá-la e atribuo o defeito de apreciação a mim e não a ela. Já este não, que conhece o assunto e diz que o trecho publicado em Setembro “contém muitas estranhas afirmações”. Mesmo o principiante no estudo de religiões comparadas, diz o missivista, sabe que o Budismo emergiu do Hinduísmo, muito mais antigo, ao passo que a Sra. Britten declara que o “Budismo é a mais antiga mitologia das nações no dizer de São Paulo, é o derradeiro inimigo a vencer. A dor, portanto, sob suas múltiplas modalidades, constitui o batismo de fogo, de cuja ação ninguém escapa e cuja aplicação independe do concurso humano.

Importa dizer que ele vem de cima, atua como lei ou, de má vontade, com submissão cai revolta. Do da água, que é terreno, podemos fugir, mas, do de fogo, que é divino, não nos é dado fugir ou recalcitrar.

Isto corresponde exatamente ao aforismo jurídico que diz: Dura Lex sed Lex. A Lei é dura, mas é Lei, e a ela temos que nos submeter.

A influência do batismo da água é precária duvidosa; pode ser ou não ser eficiente, dependendo da sinceridade, do estado moral de quem o recebe. O poder do batismo de fogo é positivo; mais dia menos dia, nesta ou em subseqüentes reencarnações, a alma acaba sendo lapidada pela dor. A sua eficiência é infalível. Não há mal que não vença, não há vício que não debele, não há paixão que não dome, por mais furiosa que seja, por mais inveterada e radicada que se encontre. A dor vence e triunfa sempre, conseguindo o seu objetivo — que é o aperfeiçoamento e a espiritualização do Homem. Seu poder de transformação é incalculável. Sua força regeneradora é irresistível. A água lava, do fogo purifica. E purificar é mais do que lavar; evidentemente. Há sujidades e nódoas que a água é impotente para tirar. Ao poder do fogo, porém, não há imundície que resista. As escórias integradas no ouro puro da alma humana durante séculos e milênios, escórias que pareciam irredutíveis, por isso que inseparáveis da divina gema, acabam derretendo-se, revelando sua inferioridade e separando-se da centelha celeste, cuja natureza, então, se ostenta em todo o seu esplendor.

Eis ai, portanto, como se explicam as palavras de Jesus: “Eu vim a este mundo para atear fogo; e o que mais quero se esse fogo já está aceso.”

Dor, fogo bendito! batismo do Céu, potência purificadora das almas em expiação — bendita e bem-vinda sejas entre os homens!

Fogo original trouxe Jesus à Terra! Sim, fogo que se não apaga mais, uma vez aceso; fogo que abrasa os corações transformados em cadinhos ondeo egoísmo se transmuda em altruísmo, as rivalidades em cooperação, o ódio em amor; onde, um dia, se fundirão as raças e os credos, as escolas e os partidos, os pavilhões e os idiomas, formando uma só pátria uma só família: a Humanidade. Eis o milagre que o batismo de fogo produz!

Quem ousará negar semelhante prodígio, diante dos fatos consumados em todas as épocas da História, nos casos pessoais de conversão e santificação de pecadores?

Meditando acerca das considerações tecidas em torno do batismo de fogo, ficamos como que entre confusos e perplexos, quando ponderamos o fato de o Batista haver dito ser esse o batismo trazido por Jesus e levamos em conta que a dor sempre foi patrimônio da Humanidade em todos os tempos.

Tentaremos esclarecer esse ponto, procurando desvencilhar-nos desse cipoal dm que muitas vezes nos deixamos embaraçar devido à nossa teimosia em olhar para baixo, e não para Cima, isto é, para a Luz da Verdade. Apegamo-nos quase sempre à dureza das palavras, sem nelas procurarmos o espírito que as vivifica.

O sofrimento e o Homem são da mesma idade. Este jamais existiu sem aquele. Este mundo é a grande escola, onde as almas obstinadas aprendem e se educam através da dor. Jesus, notemos bem, é o Guia, é o Redentor, é o Mestre, é o Cristo escolhido e ungido por Deus para dirigir, ensinar e conduzir o Homem na conquista da, imortalidade, emancipando-se das encarnações e reencarnações. Por isso ele afirma com a autoridade que lhe é própria: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Demais, resta ainda considerar que Jesus veio dar à dor o seu devido sentido, mostrando-a como elemento de redenção. Emmanuel, em certo trecho do seu romance “Renúncia”, diz mesmo que a dor é o preço sagrado de nossa redenção. Sabemos muito bem que o amor equilibra, a dor restaura. E’ por isso que, seguidamente, ouvimos frases como esta: nunca teria acreditado em Deus, nem mudado de vida, se não houvesse ,sofrido”.

Por aí vemos de quanta valia é a dor no processo de nossa Evolução Espiritual.

No Sermão do Monte, o Mestre a incluiu entre as beatitudes, apresentando-a, portanto, como expressão da misericórdia divina e não como castigo. Bom é que esclareçamos o seguinte: — Deus não salva ninguém, como não condena a quem quer que seja, por preferências ou exclusões; antes, ensina a todos o caminho da salvação, e deixa a cada um a liberdade de segui-Lo ou não. A redenção não foi, em última análise, senão a transmissão da mais intensa luz, que torna bem visível aquele caminho.

O batismo é como o sinal de que nos foi mostrada a estrela que nos guiou os magos. E’ o mesmo que a circuncisão; o sinal de que nascemos no meio salvador, mas não de que nos venham dele forças ou virtudes que nos salvem, quer usamos bem, quer usemos mal do livre arbítrio que nos foi dado para aproveitarmos ou não aquele meio.

Jesus, pois, é verdadeiro Redentor, porque remiu o Homem da ignorância das verdades divinas, que são a condição essencial da salvação. Ele abriu as portas do Céu à Humanidade, e isto porque lhe ensinou o caminho seguro de subir ao Pai; não acabou com a culpa, seu papel foi o de ensinar, pelo exemplo, a amar a Deus e ao próximo, e a morrer pelo Bem, para ressuscitar na Felicidade. Assim, o batismo, repetimos, é um sinal de que o Espírito recebeu a Luz, por Ele trazida à Terra.

Reformador – Fevereiro de 1965