Falar sobre Jesus

Ary Brasil Marques

De todos os temas que tenho abordado em palestras, o mais importante é falar sobre Jesus, a maior personalidade que já passou pelo planeta Terra.

Procurando subsídios nos livros e nos tratados existentes, verificamos de imediato que as pessoas, em geral, não conseguem definir Jesus de maneira correta. Uma grande parte da população acredita que Jesus é Deus, e o colocam como a Segunda Pessoa de uma trindade divina, tentando dar explicações à respeito da natureza de Deus. É uma tentativa totalmente vã, pois o homem, como ser finito e limitado, jamais poderá entender o infinito e o Absoluto.

Jesus aparece em milhares de obras de arte em todo o mundo, e é o personagem mais comentado da história. É tão importante que dividiu até o calendário. A história se divide em duas grandes etapas: Antes de Cristo e Depois de Cristo. Os grandes pintores e escultores procuraram retratar Jesus de várias maneiras, embora muitos enfocam sua figura como um ser sofrido, coroado de espinhos, vergado sobre o peso da cruz, massacrado, abatido. Muitas pessoas se lembram de Jesus com essa imagem de vítima, e esse não é o Jesus real. Jesus é um ser iluminado, lindo, forte, irradiando amor de uma forma ampla e total, como um verdadeiro sol cujos raios se direcionam para todos os lados e atingem a todas as pessoas do Universo, abraçando a todos, acariciando a todos, iluminando o caminho para todos.

Há pessoas que pensam em Jesus como o consolador, e elas estão certas. Jesus é realmente o nosso consolador. Ele está sempre enxugando nossas lágrimas, levantando a todos os caídos, curando as nossas feridas e as nossas dores físicas, morais e espirituais. Jesus não nos abandona nunca, Ele está sempre pronto a nos atender, a nos compreender, a nos consolar.

Outros há que pensam em Jesus como o redentor, e eles estão igualmente certos. Jesus é o redentor da humanidade. Ele veio para nos salvar. Aí há uma grande confusão por parte de quem ainda não teve o auxílio esclarecedor da Doutrina Espírita. É que a palavra salvação dá idéia de que a humanidade é dividida em dois grupos distintos: um, o grupo mais numeroso, composto de milhões e milhões de espíritos sofredores e condenados a um futuro tenebroso em local de suplícios criado por Deus para castigar os infiéis, os impuros, os máus, os que insistem em permanecer no erro e no pecado. Outro grupo, o dos eleitos, o grupo dos espíritos fieis, aqueles que se salvarão e alcançarão o céu. E Jesus seria o salvador, o redentor desse pequeno número de espíritos bons, felizes, cujo lugar ao lado de Deus (no caso, um velho barbudo e ranzinza que não admite que seus filhos falhem e os castiga com as chamas de um inferno eterno).

O Espiritismo nos vem mostrar a imagem real da vida, de Deus, de Jesus, de nós mesmos. Não somos aquelas criaturas rastejantes, infelizes, sempre temerosos da influência do demônio (outra figura mitológica que é utilizada principalmente pelos líderes religiosos como arma de pressão e de temor dos seus seguidores) ou ainda tementes de um Deus vingativo, cruel, parcial, que dá amparo aos seus filhos prediletos e castiga sem piedade aos demais que igualmente são seus filhos e que se são fracos e pecadores o são porque foram criados imperfeitamente.

Nosso querido companheiro Sebastião Miguel de Lima, expositor espírita, costuma dizer o seguinte: Filho de peixe o que é? É peixinho. E filho de Deus o que é? Seria deusinho? Sim, somos centelhas divinas, partículas de nosso Pai Celestial, e consequentemente TODOS temos dentro de nós as mesmas características e qualidades de seres maravilhosos, e, embora não sejamos perfeitos, somos perfectíveis.

O destino de todas as criaturas, o destino de TODOS os filhos de Deus já está irremediavelmente traçado. Todos nós chegaremos UM DIA à perfeição, uma vez que fomos criados para isso. De todas as coisas cujo final já está escrito, a única coisa absolutamente certa é de que ninguém, mas ninguém mesmo, escapará dessa fatalidade: TODOS SE SALVARÃO.

E como fica o papel redentor de Jesus se todos irão se salvar? Jesus nos explicou claramente essa questão, quando nos falou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida e ninguém irá ao Pai senão por mim”.

Começamos a entender o que representa Jesus em nossas vidas. Jesus é o caminho. O que significa Jesus como caminho?

Fomos criados simples e ignorantes. Deus nos deu o livre arbítrio para que pudéssemos agir por nós mesmos e através de nossas próprias experiências, de nossas ações, calcados em nossos próprios erros, irmos caminhando para frente, nos aperfeiçoando, até atingirmos a perfeição, a plenitude, a felicidade, meta de todos nós. O Pai Celestial nos concedeu inúmeros recursos que auxiliam a nossa caminhada, desde a criação de um ser inteligente, dotado de imensa capacidade de progresso, que tem dentro de si uma consciência capaz de nos mostrar claramente o melhor caminho a seguir, assim como colocou à nossa disposição um espírito amigo, um anjo da guarda, um mentor individual para cada um de nós, sempre pronto a nos amparar, a nos aconselhar, a nos proteger.

Mais do que isso, nos enviou o seu filho muito amado, nosso irmão mais velho, mais experiente, o Diretor Espiritual de nosso planeta, para nos mostrar o caminho mais curto para alcançarmos essa plenitude e essa felicidade a que todos estamos destinados.

E Ele veio. Nasceu entre nós. Viveu entre nós. Teve uma vida plena de exemplos de amor e de fraternidade, de solidariedade, de conduta. Em sua passagem pela Terra, fez centenas de milagres e demonstrou em diversas ocasiões a sua imensa superioridade moral e superioridade sobre os elementos da Natureza. Só que esses prodígios e essas maravilhas não foram os fatos mais importantes na vida de Jesus. O que foi realmente importante é o fato de Jesus abrir nossos horizontes, iluminar nossos caminhos, mostrar-nos o grande segredo da felicidade, o grande segredo da salvação.

Que segredo é esse? Em todas as épocas Deus enviou aos homens seus mensageiros e seus profetas, e as diversas religiões possuem enormes volumes de livros sagrados, todos eles repletos de ensinamentos e de orientação para que possamos alcançar essa salvação. Jesus foi o coroamento de todos esses ensinamentos, e nos mostrou, com sua incomparável capacidade de síntese, o caminho exato da salvação.

Jesus resumiu todos os milhares de volumes dos mais variados livros sagrados em uma única frase. Essa frase, essas palavras mágicas, que abrangem toda a sabedoria da vida e toda a cultura de milhões de anos, é a seguinte: Para alcançar o Reino dos Céus, os homens precisam unicamente amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmos.

Jesus não apenas disse-nos as palavras mágicas. Ele nos ensinou como fazer isso. Ele nos mostrou o que é necessário fazer para nos amarmos uns aos outros. E ele amou. Amou como ninguém. Distribuiu amor a todos indistintamente.

O seu papel foi o de imenso farol, iluminando nossos caminhos e mostrando a todos como poderemos alcançar a felicidade. Foi um educador por excelência, tanto que foi o único adjetivo que teve o seu apoio, o adjetivo de Mestre.

Jesus é considerado por muitas religiões como Deus. Jesus é Deus? O próprio Mestre nos esclarece isso. Em momento algum Jesus se considerou diferente, ou Deus. Ele sempre se referiu a si próprio como o Filho do Homem, ou ainda como filho de Deus. Jesus jamais aceitou qualquer outra qualificação, e o único título que ele admitiu foi o de ser chamado de Mestre. Realmente, Jesus foi em toda a sua vida na Terra o Mestre por excelência. Ele nos ensinou (e o fazia geralmente contando histórias do cotidiano da época, chamadas parábolas) tudo. Nos ensinou a lei maior, o caminho único que nos levará ao Pai Celestial, que é o caminho do amor.

O motivo pelo qual os homens consideram Jesus o próprio Deus, é a sua imensa superioridade moral sobre todos. Diante do Mestre, todos nós ficamos muito pequeninos, ressaltando-se as nossas imperfeições e inferioridades. Diante dele, somos tão pequenos que ele nos parece ser um Deus. Daí a confusão dos religiosos. Acresce-se ao fato as crenças milenares ligadas a uma possível natureza trina de Deus, dando origem à idéia da Santíssima Trindade. Os homens, dessa forma, tentam explicar a natureza divina. Claro que não conseguem essa explicação, pelo simples fato de que o homem, finito, não pode compreender o infinito, o absoluto.

Um dos ensinamentos maiores de Jesus está contido no Sermão da Montanha. Nessa belíssima página, considerada por Gandhi como a mais pura essência do cristianismo a ponto do grande estadista hindu dizer que se um cataclismo destruísse toda a sabedoria humana, com todos os seus livros e bibliotecas, se restasse apenas o Sermão da Montanha, as gerações futuras teriam nele toda a beleza e sabedoria necessárias para a vida. Acrescentou ainda Gandhi ser o Sermão da Montanha a coisa mais bela que ele havia lido.

Durante o Sermão da Montanha, Jesus nos ensinou a orar. Ele construiu, com um poder de síntese extraordinário, a oração que é utilizada por quase toda a humanidade, diariamente, a oração do Pai Nosso. Nessa oração maravilhosa, Jesus nos ensina como é a natureza de Deus, e nos mostra com toda a clareza que somos filhos de Deus, todos nós, portanto SEUS irmãos. Como filhos de Deus, é certo que herdamos de nosso Pai Celestial todas as características positivas, e que podemos, TODOS, pelas nossas próprias potencialidades, alcançar, um dia, a perfeição. É claro que essa perfeição é relativa, pois a perfeição absoluta é somente de Deus.

É ainda no Pai Nosso que o Mestre nos ensina o mecanismo do perdão, demonstrando a todos nós que não pode haver perdão se não perdoarmos, ao mesmo tempo, àqueles que nos ofendem.

Jesus é, portanto, o caminho. Ele é também a verdade e a vida. É a verdade porque todos os seus ensinamentos representam a verdade, e todos eles estão embasados na mais perfeita lógica e no amor mais profundo. E o Mestre não apenas ensinou. Ele exemplificou, ele mostrou em sua vida terrena como devemos fazer para galgarmos os degraus, até chegarmos à perfeição.

Não é fundamental a religião que professamos. Todas elas levam o homem a Deus, uma mais depressa, mas todas chegarão lá. Ou melhor, todos os homens chegarão, com religião ou sem ela.

Só a conduta e a prática do bem e do amor ao próximo poderá nos facilitar a caminhada, evitando que tenhamos que passar pelo cadinho purificador da dor. Sabemos que a menor distância entre dois pontos é a linha reta. Jesus nos ensinou o caminho reto. Sigamos por ele e seremos felizes.

A verdade nos é dada em partes, e pessoa alguma pode se dizer detentora de toda a verdade. A verdade é para muitos aquilo que crêem. Algumas pessoas imaginam Jesus segundo suas crenças e maneiras próprias de ver. Em nossa opinião, a crença de alguns espíritas (felizmente muito poucos) de que Jesus não teria vivido em carne e osso na Terra e de que ele teria utilizado um corpo fluídico, peca pela base. Jesus esteve realmente encarnado na Terra, com corpo físico carnal, e se assim não fosse toda sua vida e ensinamentos seria uma fraude, uma inverdade.

Dentro os ensinamentos de Jesus, o perdão aos inimigos é o mais difícil de ser cumprido. E isso pela razão muito simples que julgamos que para perdoar, temos que abraçar aos nossos inimigos, conviver com eles, dar-lhes beijinhos e oferecer a outra face sempre que eles nos agridem ou nos perseguem. Não é isso que Jesus quis dizer.

Há uma diferença muito sutil entre amar e gostar.

Amar é, devemos fazer a todas as pessoas, independentemente de raça, de credo, de condição social, de religião, etc. Incondicionalmente.

Gostar, como ainda somos espíritos atrasados e inferiores, incapazes de gostar das pessoas a que não somos afins, ao perdoar um inimigo temos que simplesmente amá-lo, à distância (uma vez que ainda não temos a capacidade de nos aproximar dele sem risco para nosso perdão). Temos que orar pelos que nos odeiam, nos comprazer quando a sorte lhes sorri, não fazer em hipótese nenhuma comentários desairosos sobre o mesmo (se não conseguirmos falar bem, silenciemo-nos), respeitar, tratar com consideração e educação quando cruzarmos com eles (não precisamos conviver, dar beijinhos, nada disso). Um dia, quando nosso amor estiver dentro dos parâmetros de Jesus, ai sim poderemos conviver naturalmente com todos. Por ora, vigiemos nossa boca e nossos pensamentos, oremos pelos que nos odeiam. Procuremos transformar nosso ódio em amor. Aos poucos, de longe, devagar. Na realidade, amar aos que pensam como nós, aos de nossa grei, aos de nosso círculo, é muito fácil. O importante é amar o patrão desalmado, a sogra inconveniente, o motorista que joga seu carro sobre o nosso no trânsito, o colega de trabalho que quer puxar o nosso tapete, o religioso de outra maneira de pensar que nos ataca e nos agride, etc. etc.

Jesus nos deu a receita. É o único caminho. Ou amamos, ou sofremos até aprendermos a Amar. Não é ameaça, nem castigo. É apenas a lei, a lei de causa e efeito, que está agindo para nos ajudar a operar nossa mudança. E Jesus é esse caminho.

Terminamos essa análise dizendo que muito mais que os prodígios e milagres, a vinda de Jesus à Terra foi o grande milagre. Para descer até nós, Jesus precisou se violentar, se reduzir. Assim como um escafandrista que para descer ao fundo do mar precisa se cobrir com um pesadíssimo escafandro e vencer enormes barreiras de escuridão e dor, Jesus teve que vestir um corpo grosseiro, reduzir sua imensa aura de luz e penetrar no escuro tenebroso de um planeta inferior.

Resumindo tudo o que falamos, Jesus é o redentor, o consolador, o diretor planetário, o Profeta, o Mestre. O caminho de luz que ele nos traçou é o roteiro que temos que palmilhar. Esforcemo-nos, cada dia, para nossa melhora, buscando interiorizar os ensinamentos do Mestre em nosso coração. Que esses ensinamentos possam sair de dentro de nós em trabalho, em amor, em solidariedade, em fraternidade, permitindo que por eles consigamos transformar, em breve, nosso querido planeta Terra em um planeta mais feliz, mais humano, mais belo.

Que Jesus nos ilumine e ampare!