Jesus

José Francisco Costa Rebouças

É muito freqüente no meio espírita a discussão sobre como Jesus o nosso modelo e guia se apresentou aqui entre nós, quando de sua passagem pelo nosso planeta.

Afirmam em sua grande maioria, que o codificador do espiritismo a esse fato não se referiu, preferindo analisar apenas a parte moral do evangelho que segundo entendem, é comum a todas as correntes religiosas.

É claro que como espírita que somos, não podemos deixar de discordar peremptoriamente de tantos quanto assim pensam, pois na própria codificação nós temos a resposta clara, e absolutamente esclarecedora que não nos pode deixar a mínima dúvida quanto ao assunto, vejamos o que nos fala a esse respeito o próprio Allan Kardec:

A Gênese

CAPÍTULO XV – Os Milagres do Evangelho

Superioridade da Natureza de Jesus

...Como homem, tinha a organização dos seres carnais; porém, como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida espiritual, do que da vida corporal de cujas fraquezas não era passível” ...( item 2).

“ A estada de Jesus na Terra apresenta dois períodos: o que precedeu e o que se seguiu à sua morte. No primeiro, desde o momento da concepção até o nascimento, tudo se passa, pelo que respeita à sua mãe, como nas condições ordinárias da vida. Desde o seu nascimento até a sua morte, tudo, em seus atos, na sua linguagem e nas diversas circunstâncias da sua vida, revela os caracteres inequívocos da corporeidade. São acidentais os fenômenos de ordem psíquica que nele se produzem e nada têm de anômalos, pois que se explicam pelas propriedades do perispírito e se dão, em graus diferentes, noutros indivíduos. Depois de sua morte, ao contrário, tudo nele revela o ser fluídico. É tão marcada a diferença entre os dois estados, que não podem ser assimilados.

O corpo carnal tem as propriedades inerentes à matéria propriamente dita, propriedades que diferem essencialmente das dos fluidos etéreos; naquela, a desorganização se opera pela ruptura da coesão molecular. Ao penetrar no corpo material, um instrumento cortante lhe divide os tecidos; se os órgãos essenciais à vida são atacados, cessa-lhes o funcionamento e sobrevém a morte, isto é, a do corpo. Não existindo nos corpos fluídicos essa coesão, a vida aí já não repousa no jogo de órgãos especiais e não se podem produzir desordens análogas àquelas. Um instrumento cortante ou outro qualquer penetra num corpo fluídico como se penetrasse numa massa de vapor, sem lhe ocasionar qualquer lesão. Tal a razão por que não podem morrer os corpos dessa espécie e por que os seres fluídicos, designados pelo nome de agêneres, não podem ser mortos.

Após o suplício de Jesus, seu corpo se conservou inerte e sem vida; foi sepultado como o são de ordinário os corpos e todos o puderam ver e tocar. Após a sua ressurreição, quando quis deixar a Terra, não morreu de novo; seu corpo se elevou, desvaneceu e desapareceu, sem deixar qualquer vestígio, prova evidente de que aquele corpo era de natureza diversa da do que pereceu na cruz; donde forçoso é concluir que, se foi possível que Jesus morresse, é que carnal era o seu corpo. Por virtude das suas propriedades materiais, o corpo carnal é a sede das sensações e das dores físicas, que repercutem no centro sensitivo ou Espírito. Quem sofre não é o corpo, é o Espírito recebendo o contragolpe das lesões ou alterações dos tecidos orgânicos. Num corpo sem Espírito, absolutamente nula é a sensação. Pela mesma razão, o Espírito, sem corpo material, não pode experimentar os sofrimentos, visto que estes resultam da alteração da matéria, donde também forçoso é se conclua que, se Jesus sofreu materialmente, do que não se pode duvidar, é que ele tinha um corpo material de natureza semelhante ao de toda gente”. (item 65).

“Aos fatos materiais juntam-se fortíssimas considerações morais.

Se as condições de Jesus, durante a sua vida, fossem as dos seres fluídicos, ele não teria experimentado nem a dor, nem as necessidades do corpo. Supor que assim haja sido é tirar-lhe o mérito da vida de privações e de sofrimentos que escolhera, como exemplo de resignação. Se tudo nele fosse aparente, todos os atos de sua vida, a reiterada predição de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das Oliveiras, sua prece a Deus para que lhe afastasse dos lábios o cálice de amarguras, sua paixão, sua agonia, tudo, até ao último brado, no momento de entregar o Espírito, não teria passado de vão simulacro, para enganar com relação à sua natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida, numa comédia indigna de um homem simplesmente honesto, indigna, portanto, e com mais forte razão de um ser tão superior. Numa palavra: ele teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e da posteridade. Tais as conseqüências lógicas desse sistema, conseqüências inadmissíveis, porque o rebaixariam moralmente, em vez de o elevarem”. (1)

Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram a existência. (Item 66).

(1) Nota da Editora: Diante das comunicações e dos fenômenos surgidos após a partida de Kardec, concluiu-se que não houve realmente vão simulacro, como igualmente não houve simulacro de Jesus, após a sua morte, ao pronunciar as palavras que foram registradas por Lucas (24:39): - "Sou eu mesmo, apalpai-me e vede, porque um Espírito não tem carne nem osso, como vedes que eu tenho."

Ante o exposto na própria obra da codificação, como espírita que nos dizemos ser, procuremos nos orientar pelos ensinamentos daquele que foi considerado como o bom senso encarnado, e estarmos atentos aos ensinamentos do insigne codificador, não nos deixando envolver por aqueles que querem de alguma forma encontrar brechas no trabalho incomparável e insuperável desse espírito que realizou toda sua obra com decência, dignidade, perseverança e maestria. Não temos razão para esse tipo de dúvida, pois se raciocinarmos em tudo que aqui foi colocado por Kardec, Jesus quando conosco esteve, também se utilizou do material que o nosso planeta lhe propiciava para sua tarefa de transformação da humanidade, sendo por isso modelo e guia para todos nós, mostrando-nos que é possível viver neste planeta tirando dele o melhor para a nossa elevação moral como espíritos eternos que somos, mesmo tendo ainda que nos valer deste instrumento ainda tão rude em termos de vida espiritual.

Não teria sentido algum fazer tudo o que Jesus fez usando de privilégio que se a ele fosse dado, estaria ferindo o princípio da igualdade apregoada pelos espíritos superiores a Kardec, onde afirmam em o Livro dos Espíritos que todos somos iguais perante a lei de Deus nosso pai e criador.

Sua superioridade se dava por conta do grau de pureza espiritual, pelo seu completo desenvolvimento intelectual e moral, e não por ter herdado do pai eterno um instrumento melhor que o nosso para seu deleite. Por isso tudo que a codificação nos dá de esclarecimento sobre esse assunto, cabe-nos uma simples pergunta: o que mais queriam esses nossos irmãos que o codificador dissesse a respeito de assunto tão claro?

Francisco Rebouças.