O Pão do Espírito

Paulo Alves Godoy

E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram:
Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas.”
(Atos, 6:2)”.

Consumada a crucificação de Jesus, os apóstolos fundaram uma instituição assistencial denominada "Casa do Caminho", onde abrigavam e socorriam necessitados de todos os matizes.

Esse resfriamento na difusão da Boa Nova levou o grupo de apóstolos a urna reflexão mais profunda, com base naquilo que um dos evangelistas havia registrado: "Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram." (João 6:48/49). Em face de essa situação os apóstolos se reuniram em conselho e deliberaram pedir aos discípulos que escolhessem sete homens íntegros e capazes, a fim de atenderem à tarefa assistencial, liberando-os para a propaganda dos ideais cristãos.

Estevão foi um dos escolhidos para essa espinhosa missão, desempenhando-a até o dia quando foi violentamente retirado da "Casa do Caminho" e apedrejado, com a aquiescência de Paulo de Tarso.

É de relevante importância esta passagem contida nos Atos dos Apóstolos, mostrando

que não se deve procurar socorrer apenas com o pão material, uma vez que é o pão espiritual que sacia toda a fome de conhecimento, levando a criatura à reforma íntima que o Cristo definiu como sendo a conquista do Reino dos Céus.

É inegável que, se os apóstolos tivessem circunscrito suas atividades apenas à "Casa do Caminho" teriam equacionado os problemas de alguns poucos homens, porém, como decorrência a Humanidade teria ficado privada de uma série de ensinamentos, principalmente aqueles contidos nas Epístolas de João, de Pedra e de Tiago. '

O mesmo fenômeno ocorreu com relação a Jesus Cristo. Sendo o médico das almas é óbvio que a finalidade precípua da sua missão na Terra, foi dirigida no sentido de operar nos homens a cura espiritual, a cura de efeito permanente. Curando alguns poucos enfermos do corpo, o seu objetivo era atrair a atenção das massas, para que a semente generosa da sua Doutrina germinasse nos corações de uma quantidade muito maior de homens. O Mestre suspirava pelas curas de conseqüências morais, como o foram aquelas operadas em Maria Madalena, Maria de Betânia e em Zaqueu.

É indubitável que a assistência social dispensada pela "Casa do Caminho" constituía um aspecto importante no quadro da divulgação do Cristianismo, entretanto, o efeito nesse setor era bastante circunscrito e 'dificilmente passaria dos limites da região que lhe servia de sede.

A verdadeira propaganda somente poderia ser exercida através da palavra levada a todos os centros, e isso foi feito graças à inspirada deliberação dos apóstolos, que acharam "que não era razoável servir as mesas, em detrimento da divulgação da palavra de Deus."

A pregação dos apóstolos teve como cenário principal à cidade de Jerusalém, onde eles tiveram residência ordinária até o ano 60, entretanto, também fizeram visitas a outras cidades circunvizinhas, no mister de divulgar o Cristianismo. A tarefa de levar a palavra de Jesus a todo o mundo conhecido coube ao apóstolo Paulo, cuja missão transcendental se destaca mais e mais a nossos olhos, à medida que os séculos se esvaem.

Paulo de Tarso compreendeu a extensão das palavras de Jesus em torno do Pão Espiritual, e levou asa centenas de comunidades, não esquecendo Atenas e Roma, que eram as cidades mais importantes do mundo, naquela época.

O povo israelita vivia empolgado pela ocorrência registrada em Êxodo, Cap. 16, onde se lê que Deus fez cair pão do Céu para aqueles que estavam famintos no deserto, alimentando-os desta forma durante muitos anos. Apesar da produção desse fenômeno, os judeus nada haviam melhorado e após a solução do problema do pão, passaram a exigir de Moisés a solução do problema da água: "Por que nos fizeste subir do Egito, para nos matares de sede, a nós e aos nossos filhos e ao nosso gado?" (Êxodo 17:3).

Quando do advento de Jesus Cristo o mesmo povo ainda estava em pleno endure

cimento, procurando-o para dizer-lhe: "Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito. Deu-lhes a comer o pão do céu" (João, 6:31), o que levou o Mestre a esclarecer: "Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dará o verdadeiro pão. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. Eu sou o pão da vida, aquele que vem a mim não terá fome."

O pão verdadeiro, representado pelos ensinamentos evangélicos, é o pão do qual a Humanidade não' pode prescindir - o único que alimenta espiritualmente o homem, propiciando-lhe meios de sentir e viver aquilo que o Evangelho preceitua, apressando deste modo a sua evolução espiritual rumo a uma superior destinação e, equacionando os problemas de todos os matizes que o acometem.

Revista O Semeador – Abril de 1981