Revelação e Evolução

Juvanir Borges de Souza

Mostra-nos a doutrina espírita que os ensinos do Cristo contêm, na maioria das vezes, mais de uma significação.

Algumas lições serviram de imediato àquelas criaturas simples, que O ouviram falar de estórias baseadas na vida diária. Ouviram e guardaram as palavras, procurando seguir os ensinamentos que elas encerram.

Outros aspectos, mais transcendentes, entretanto, ficaram velados nas parábolas, destinando-se aos que os pudessem entender no porvir.

Graças à Revelação Espírita, podemos hoje compreender muitas das palavras de sabedoria do Rabi da Galiléia, porque os Espíritos do Senhor descerraram o véu que cobria o sentido mais profundo, da sua Mensagem de Amor.

Por que assim aconteceu? Por que não teria dado Jesus, invariavelmente, o ensino claro, despido do véu da letra?

Muitos não compreendem, ainda hoje, a necessidade do ensino progressivo. De posse de tantas facetas da Verdade, graças à revelação gradativa que se processou neles mesmos, esquecem-se de que outros, vivendo contemporaneamente, não guardam a maturidade espiritual que lhes possibilite apreender o sentido esotérico da mensagem crística.

Lembremo-nos de que Jesus usou de linguagem apropriada às circunstâncias. Ao povo, indiscriminadamente, suas palavras, como que dirigidas a crianças, se revestiam de simplicidade. Aos doutores, mestres em Israel, procurou mostrar aspectos e sentido bem mais profundos que os admitidos pela interpretação corrente da Lei. Ao seu Colégio Apostólico reservava lições mais elevadas.

Todavia, mesmo os discípulos, Espíritos já qualificados para coadjuvar-Lhe a missão, evidenciavam dificuldade em compreender todos os ensinos. Os Evangelhos testemunham abundantemente as muitas indagações deles a respeito das lições que o Mestre lhes ia ministrando.

Não resta dúvida de que, os Evangelhos têm sido entendidos, ao longo dos séculos, precipuamente em sua feição literal; mas, com a Revelação dos Espíritos, a interpretação literal, tendo em vista o estádio evolutivo das gerações, de há muito não prevalece.

O Espiritismo — Terceira Revelação —, com suas raízes mais profundas fincadas no Evangelho do Cristo, não deixa de apresentar-se como doutrina essencialmente dinâmica, evolutiva. Codificado e apresentado ao mundo pelo missionário Allan Kardec, diz-se, com inteira procedência, que o Espiritismo, como Doutrina dos Espíritos, não termina com Kardec; antes, começa com ele.

A Codificação é a base sólida, firme, incontestável da Doutrina. Mas, assim como o Cristo não explicitou tudo, nem convinha que o fizesse, também o Consolador, por Ele prometido, e que aí está, assentou os funda­mentos, as grandes linhas mestras do majestoso edifício, deixando os detalhes para depois do mestre lionês. Os esclarecimentos e complementações continuam chegando. O intercâmbio entre os dois mundos, que jamais deixou de existir, com o advento dos tempos novos tornou-se fonte permanente de elucidação e assistência aos Espíritos reencarnados.

Espiritismo e Cristianismo, sendo uma só e mesma coisa, em espírito e verdade, têm em comum, dentre as inúmeras afinidades, o caráter evolucionista de seus postulados, o que lhes confere, na marcha gradativa, o poder maravilhoso de proporcionar, continuamente, novos conhecimentos ao Espírito eterno.

Daí porque o espírita convicto não teme o futuro. Nem nutre as preocupações que outros alimentam, em religiões e filosofias que se tornam pessimistas diante de certos acontecimentos e descalabros que atingem este orbe. O espírita, ciente de que a evolução, embora lenta, do ponto de vista moral, é uma das leis imutáveis, sabe, por isso, que todo mal é passageiro.

A verdade não se encontra totalmente revelada, em certas passagens evangélicas. Alguns acontecimentos futuros jazem envoltos em conjecturas, até que a Espiritualidade Superior, a serviço do Governador do planeta, diante de novas conquistas da Humanidade, nos campos da Fé e do Amor, julgue oportuno descerrar amplamente a cortina, para que jorre mais luz.

Novo enviado celeste virá à Terra. Não sabemos da época exata de tal evento. Todos os que aceitam a mensagem crística precisam estar vigilantes, para não se deixarem envolver pelos cânticos dos falsos Cristos e falsos profetas.

Compete a todos os seguidores do Cristo preparar os caminhos para o advento do Mensageiro que despojará todo o espírito da letra e que precederá a segunda vinda do Senhor.

Como disse o Batista, o precursor, precisamos, para isso, “endireitar nossos caminhos”, ou seja, os homens de boa-vontade precisam regenerar as estradas do mundo.

Para que alguém sinta a influência retificadora do Cristo, precisa retificar a própria estrada, modificando, no sentido do bem, os impulsos oriundos de hábitos de um passado delituoso, desfazendo as sombras que o rodeiam.

Precisamos todos afeiçoar a exortação do Batista às nossas próprias necessidades.

A evolução da Terra, do ponto de vista do adiantamento científico, é um fato inegável, por todos constatado.

Entretanto, para haver progresso verdadeiro, necessário acrescentar-se ao progresso científico, diversificado no campo das ciências físicas, da Medicina da Astronomia, das ciências aplicadas em geral, o aperfeiçoamento moral do homem. Aí está o grande desafio.

Os Espíritos Instrutores mostraram a Kardec, com toda clareza, a diferença entre a verdadeira civilização e o simples adiantamento tecnológico e científico, a responderem à questão 793 (“O Livro dos Espíritos 39ª ed. FEB):

“793 Por que indícios se pode reconhecer uma civilização completa?”

“Reconhecê-la-eis pelo desenvolvimento moral. Credes que estais muito adiantados, porque tendes feito grandes descobertas e obtido maravilhosas invenções; porque vos alojais e vestis melhor do que os selvagens. Todavia, não tereis verdadeiramente o direito de dizer-vos civilizados, senão quando de vossa sociedade houverdes banido os vícios que a desonram e quando viverdes como irmãos, praticando a caridade cristã. Até então, sereis apenas povos esclarecidos, que hão percorrido a primeira fase da civilização.”

A Geologia já comprovou as inúmeras transformações físicas da Terra, desde os tempos primitivos de sua formação até os nossos dias. Antes do aparecimento do homem, a crosta terrestre passou por modificações profundas, até que os elementos permitissem o aparecimento da vida orgânica.

O homem foi o último ser da escala animal a vir habitar a crosta terrestre. Antes dele, em milhões e milhões de anos, muitas espécies de animais e vegetais surgiram e desapareceram da face do orbe.

A evolução física do globo, portanto, é outro fato comprovado, e essa evolução continua a processar-se incessantemente.

Os Espíritos do Senhor já revelaram que nossa Terra se transformará em mundo de regeneração. Não podemos precisar o dia exato, nem o ano, nem o século em que se dará o evento, mesmo porque tal revelação é progressiva; mas, é certo que esse tempo se aproxima.

“Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém o  sabe, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, mas somente o Pai.” (Marcos, cap. XIII, v.  32.)

“Levantar-se-ão muitos falsos profetas que seduzirão a muitas pessoas; — e porque abundará a iniqüidade, a caridade de muitos esfriará; — mas aquele que perseverar até ao fim será salvo. — E este Evangelho do Reino será pregado em toda a Terra, para servir de testemunho a todas as nações. É então que o fim chegará.” (Mateus, cap. XX1V, versículos 11 a 14.)

A alegoria e as imagens encerradas nas palavras registradas pelos evangelistas estão bem evidentes. Tomadas ao pé da letra, deixaria de haver sentido no texto. Falando aos homens de então, acenando-lhes com a salvação, percebe-se que Jesus tinha em mente muitos desses Espíritos reencarnados, em futuro então distante. É o ensino para as gerações futuras, registrado intuitivamente pelo evangelista. O “Evangelho do Reino” é o da pureza primitiva, difundido por toda a Terra. É o reino da fraternidade e da paz, posto em prática por todos os povos.

Linguagem figurada, “é então que o fim chegará” não significa a destruição do mundo, como concluem os desavisados, mas a sua transformação em esfera mais feliz, o fim do mundo velho, onde impera o egoísmo, o orgulho, a incredulidade, as paixões aviltantes, os preconceitos de toda ordem.

Para quem tem “olhos de ver”, os Evangelhos, entendidos em espírito e verdade, estão a avisar aos homens sobre os acontecimentos de ordem física, mas especialmente sobre os de natureza moral que hão de suceder, até que seja implantado o Reino de Deus na Terra.

No que concerne à ordem física, a Natureza continuará transformando a Terra, até que atinja a condição de globo imerso em fluidos mais puros.

Acompanhando o aperfeiçoamento físico, as raças humanas serão renovadas, pela reencarnação de Espíritos melhor preparados. Parte dessa nova população da Terra Renovada será constituída pelos que já tenham aceito os caminhos indicados pelo Cristo, Espíritos que aqui habitam e que aspiram pelo Bem. Outra parte será formada pelos Espíritos oriundos de outros mundos, cujo adiantamento tenha chegado ao mesmo nível dos novos habitantes da Terra.

Os rebeldes, os que persistirem nas ilusões, os negativistas encarniçados no mal, a todos esses só restará o afastamento para outro planeta, cujas condições se coadunem com suas próprias condições morais.

É a esperada hora da “separação do joio do trigo”, quando o Senhor, que se reserva à colheita, lançará o joio ao fogo do sofrimento e das tarefas penosas, tal como se deu há milênios com os Espíritos que aqui aportaram, vindos de um Paraíso perdido, para lutas redentoras.

A irresistível lei do progresso, conjugada à infalível Justiça Misericordiosa, determinará a posição de cada um, “de conformidade com as próprias obras”.

O sinal do Filho do Homem, segundo as palavras de Jesus, que há de aparecer no céu, é o advento do reino do amor. É a Terra Regenerada, onde, em lugar do predomínio da materialidade, imperará o Espírito, com a compreensão de seu destino feliz, com a esperança sempre presente, a alegria diante das graças conquistadas. Então, o joio, que hoje se constitui em avassaladora massa, já não mais poderá perturbar as aspirações de fraternidade e de bondade, pois não mais crescerá.

Na prestação das contas, a Justiça do Senhor, como sempre, será eqüitativa; cada um receberá o equivalente ao próprio mérito, sopesadas as circunstâncias determinantes dos erros e acertos, a boa ou má-vontade de cada ser.

“Quando estas coisas começarem a suceder — disse Jesus — erguei a cabeça e olhai para o alto, pois que se aproxima a vossa redenção.” (Lucas, cap. XXI, v.   28.)

Redenção, no sentido evangélico, tem o significado de regeneração.

O advento do reinado do amor e da fraternidade já está sendo preparado pelos Espíritos enviados pelo Senhor à Terra.

O apressamento desse reino depende, em grande parte, de nós mesmos, dos esforços dos que têm boa-vontade para endireitar os caminhos.

“Passarão o Céu e a Terra, mas não passarão minhas palavras.”

As palavras de Jesus não ficarão sem cumprimento integral, eis que elas se constituem no caminho e na verdade.

É desconhecida a hora predita para a depuração da Humanidade. Por isso mesmo, os que crêem, os que esperam, precisam estar alertas. A vigilância é não só necessária para todos os atos de nossa vida como essencial ao exame de todos os acontecimentos previstos. Os Evangelhos enfatizam a necessidade da vigilância, vinculando-a à oração persistente. As parábolas da figueira, do servo fiel e do mau servo, das virgens prudentes e das virgens loucas são os chama­mentos de Jesus para que estejamos despertos em espírito.

Avulta a responsabilidade do aprendiz das verdades eternas — do espírita especialmente —, diante dos conhecimentos que a Revelação Nova lhe trouxe. Se a Justiça Divina é misericordiosa, não deixa de ser equânime, ao exigir mais daquele a quem mais foi dado.

Da primeira vez, o Mestre veio e uns poucos discípulos receberam-no com alegria.

A segunda vigília começa com a Era Nova. Ele virá pela segunda vez, então para presidir à colheita, “separar os bodes das ovelhas” e mostrar toda a Verdade.

“Tornada adulta, a Humanidade tem novas necessidades, aspirações mais vastas e mais elevadas; compreende o vazio com que foi embalada, a insuficiência de suas instituições para lhe dar felicidade; já não encontra, no estado das coisas, as satisfações legitimas a que se sente com direito. Despoja-se, em conseqüência, das faixas infantis e se lança, implica por irresistível força, para as margens desconhecidas, em busca de novos horizontes menos limitados.

É a um desses períodos de transformação, ou, se o preferirem, de crescimento moral, que ora chega a Humanidade,” (“A Gênese”, Allan Kardec, cap. XVIII, item 14. 18. ad., FEB.)

(Reformador – abril de 1977)