(In)Segurança Mediúnica

Paulo Roberto dos Santos

Folheando periódicos espíritas nota-se a escassez de mensagens recentes, de bom conteúdo e com a colaboração de médiuns ainda pouco conhecidos. A maioria são reproduções de comunicações antigas através de Ivone Pereira, Suely C. Schubert, Chico Xavier ou, as mais atuais, através da mediunidade de Divaldo Franco ou J. Raul Teixeira. Será que o movimento espírita está se tornando incapaz de produzir bons médiuns, competentes, confiáveis e seguros? Talvez sim se considerarmos que o movimento espírita de certo modo andou meio perdido em teorias e na casuística nessas últimas duas décadas e, possivelmente, descuidou da formação de novos médiuns dentro de padrões seguros. Por falta de formação mediúnica adequada, apesar de boa formação doutrinária, vemos por aí, dentro das casas espíritas, o crescimento do mediunismo e não da mediunidade, para usarmos aqui as expressões propostas por Emmanuel para a prática mediúnica sem conhecimento e com conhecimento.

Particularmente detectamos um empecilho que julgamos o mais grave de todos para a formação de bons médiuns.

Pode ser que a explicação não sirva para todos os recantos do país, mas vale pensar na questão do animismo, posta como um verdadeiro espantalho diante dos médiuns iniciantes e incutindo em suas mentes um verdadeiro terror diante da possibilidade da mistificação.

A quem caberia a responsabilidade por essa situação? A nosso ver aos orientadores dos médiuns que não explicam adequadamente o que é o animismo e qual a sua importância para a atividade mediúnica. Com isso, o médium noviço infere que o animismo é, por si só e sempre, um mal, algo que desqualifica o médium, e a insegurança na atividade de intérprete da Espiritualidade seguida de entraves outros postos pelo médium são conseqüência inevitável.

O resultado são comunicações medíocres, truncadas, convencionais e repetitivas onde nada de novo aparece. Levando as coisas ao extremo, desse jeito os médiuns se tornam dispensáveis, pois não precisamos de repetições daquilo que já está disponível na literatura espírita. Naturalmente, não estamos entrando aqui nas atividades de ordem desobsessiva, cujas características são diferentes, embora sofram os efeitos do problema exposto acima.

É importante lembrar que não existe comunicação mediúnica pura, totalmente sem a participação do médium. O que existe é uma participação maior ou menor do médium conforme as circunstâncias e a condição do intérprete e do Espírito comunicante. Portanto, as comunicações serão sempre anímico-mediúnicas em maior ou menor grau. Quanto menos o médium interfere melhor, pois maior será a pureza do conteúdo da mensagem. Pode ocorrer que a colaboração do médium seja essencial no caso de haver dificuldades do Espírito comunicante para com o idioma. Em muitos casos o médium traduz adequadamente o pensamento do Espírito com suas próprias palavras, sem interferir no conteúdo.

O problema da insegurança mediúnica se agrava quando o médium se deixa levar por seus próprios atavismos e condicionamentos. Sem perceber, passa a reproduzir falas de expositores que ouviu, mensagens que leu, livros que conhece, tudo dentro de suas preferências pessoais, sem poder dar a certeza de que há, de fato, naquele momento, um Espírito comunicante.

Num caso desses o animismo torna-se um grave entrave para as atividades do grupo, pois o que se tem é a comunicação do Espírito-médium atribuída a um Espírito-comunicante. É comum essa ser a porta para processos obsessivos que envolvem toda uma equipe prejudicando o trabalho.

Será possível uma reversão desse quadro, de modo a termos um número maior de médiuns de boa formação doutrinária e mediúnica? Sem dúvida. Basta que os cursos de formação de médiuns se preocupem em reciclar seus medianeiros, avaliando bem os erros de formação, especialmente no que se refere ao animismo, reforçando a segurança pessoal do médium através do conhecimento e da prática mediúnica.

Cabe ao médium checar a procedência da mensagem ou comunicação e à equipe o conteúdo. Nada de credulidade excessiva e nem de prevenção exagerada, ao ponto de inibir a ação dos médiuns em atividade. A atividade mediúnica acaba sendo necessariamente um trabalho de equipe, onde deve haver mais atenção do que prevenção.

Muitas obras recém publicadas de médiuns ainda pouco conhecidos são repetições de material já clássico na literatura mediúnica espírita. Isso não é um mal em si. São formas de reapresentar assuntos de interesse geral sob uma nova vestimenta e numa linguagem muitas vezes mais agradável e acessível ao grande público leitor.

Problemas de redação, estilo e linguagem podem ser corrigidos pelas editoras sérias, que querem oferecer ao leitor um bom material para reflexão. Esses novos médiuns poderão tornar-se excelentes colaboradores da Espiritualidade se receberem a formação adequada, o que não poderá ser feito por orientadores despreparados, desconhecedores da Doutrina ou simples aventureiros.

(Publicado no Jornal A Voz do Espírito - Edição 88: Novembro-Dezembro de 1997)