Mediunismo e Mediunidade

Jorge Ândrea dos Santos

A organização psíquica, em sua trilha evolutiva, após deixar a fase animal de característica fragmentária, adquire degrau mais avançado onde o processo de conscientização define o seu atributo.

Na fase animal o psiquismo é fragmentário, não existe ainda um processo de raciocínio, entretanto, pode mostrar, aqui e ali, condições de treinamento em alguns parâmetros. É o que se observa em certas e determinadas atitudes animais, às vezes, surpreendentes; algumas delas inatas e próprias da espécie, outras tantas reveladas em adequados exercícios de intenso treinamento.

No reino hominal o psiquismo está como que reunido em todas suas já adquiridas qualidades. A estrutura psíquica dessa fase é a mais avançada no planeta, cujo processo de conscientização, aliada às experiências, se vai alicerçando com o despertar de novos e importantes fatores, onde a responsabilidade representa um dos seus mais seguros pilares. O homem, em seu avanço intelectual, alargando os conceitos do amor, adquire maiores horizontes dentro do processo evolutivo diante da responsabilidade dos seus atos.

Toda a organização psíquica, fragmentária ou já revestida do processo consciencial e em suas múltiplas e variadas amostragens, participa de fenômenos psicológicos comuns e de outros tantos, mais complexos, que transcendem às sensações da zona consciente, por isso, denominados de paranormais.

Assim teríamos os fenômenos psicológicos e parapsicológicos. Os primeiros, por pertencerem às percepções do nosso cotidiano, são perfeitamente conhecidos. Os segundos, transcendendo aos sentidos comuns, de difícil avaliação, são refutados pela maioria e considerados como anômalos ou patológicos.

A fenomenologia paranormal acompanha o psiquismo, mesmo em sua fase fragmentária; sendo claro e lógico que nesta fase haverá limites perceptivos. É o caso da percepção paranormal de certos animais, os de maior estrutura no campo da evolução, que participam, como exemplo, de fenômenos de vidência. Como o animal tem condições de perceber o encarnado, sob certas condições nota o desencarnado, embora não possuindo o senso critico de avaliação. O animal percebe dentro de seus componentes estruturais, dentro de suas possibilidades sem qualquer critério de raciocínio; para ele a visão é uma só, registrando o que vê sem maiores discernimentos. Pode acontecer, vez por outra, que a percepção animal tenha, instintivamente, e sem precisões, possibilidades de distinguir o acontecimento. Mesmo sem condições de avaliação do raciocínio, algo lhe diz que está tendo uma visão: muitos fatos, em animais domésticos, comprovam esta assertiva.

A fenomenologia paranormal torna-se mais bem compreendida na fase hominal, mormente nas organizações psíquicas mais amadurecidas, isto é, os mais bem lastreados pelas experiências que o processo reencarnatório propicia. Dentre os muitos fenômenos dessa classe, o mais rico e expressivo é o fenômeno mediúnico que, por exigir a tela psíquica consciente como palco de sua manifestação, será o próprio do reino hominal. O fenômeno mediúnico, observado na multiplicidade de mensagens que o mundo espiritual emite, não pode ser captado pela organização psíquica dos animais, pela sua condição de fragmentação. A estrutura psíquica animal não possui unificação de estruturas psicológicas; entretanto, os animais podem ficar ativados pelo campo vibracional do mecanismo em pauta, porém, sem condições de traduzi-lo. animais mais avançados na escala zoológica são tocados pelo evento, e, pelo modo com que se dá a percepção, não pode o fenômeno ser denominado de mediunidade, porquanto não existe o medianeiro específico, mas sim, uma " velada percepção" na dimensão espiritual. Nestes casos, o fenômeno poderia ser classificado, de modo abrangente, de mediunismo, ficando o termo mediunidade quando existe o mecanismo ideal do medianeiro próprio da espécie animal.

Assim, os fenômenos de mediunismo e mediunidade acompanham as diversas organizações psíquicas, animais e hominais, desde os seus albores, apresentando variações de acordo com a evolução do psiquismo.

O homem dos nossos dias, devassando os céus com aprimorada aparelhagem, decifrando com grande margem de acertos os infinitamente pequenos, tem, por obrigação, neste século de definições, de buscar nas fontes do psiquismo a multiplicidade dos fenômenos que aí se instalam. Os fenômenos mediúnicos, já comprovados por inúmeras observações e experiências, tomaram, realmente, bons impulsos após as bem catalogadas observações e experiências kardequianas que lhes deram um valoroso sentido científico.

Os observadores e cientistas interessados, que vieram após Allan Kardec, ampliaram as experimentações e relatos de tal modo que, nos dias de hoje, podemos asseverar, sem receios de erros, que o fenômeno mediúnico, conduzido em bases sadias, representa função desencadeadora de um especializado metabolismo a refletir na ampliação do lastro espiritual dos seres. Quando a função é correta e equilibrada, harmonioso será o resultado; quando incorreta e sem bases éticas ajustadas às reações daí resultantes, serão desalinhadas e doentias.

Devemos ver no fenômeno mediúnico a mais alta expressão psicológica do psiquismo e, como tal, somente exercitada após estudo, conhecimento e boa orientação. A Doutrina Espírita, bem compreendida e vivenciada, oferece o campo ideal de avaliações da referida fenomenologia; esta, por sua vez, contribui de modo especial para os alicerces do Espírito.

É de bom alvitre esclarecer aos iniciantes sobre a importância psicológica do processo, evitando sempre que a fenomenologia mediúnica se expresse em bases levianas e por aqueles que se desmandam em interesses vulgares, egoísmos desmedidos, desamor acentuado e, o que é mais grave, pelos que buscam posições de destaque em efêmeras vaidades. Por esses caminhos tortuosos só chegaremos às neuroses, compulsões e obsessões, cujas gradações serão proporcionais à intensidade dos abusos.

Os fenômenos psicológicos representativos da mediunidade, pela delicadeza e sensibilidade da sua estruturação, podem caminhar para posições negativas ou positivas; tudo na dependência das atitudes de realizações. Se o processo obedece aos parâmetros éticos desejados, é bem claro e justo que o mecanismo propiciará elevações com reflexo nos impulsos evolutivos dos seres; se o processo se efetua em práticas destoantes e desajustadas, compreende-se, perfeitamente, o estacionamento do ser, onde as respostas cármicas, quase sempre dolorosas, são o corretivo necessário antes de nova tomada de posição.

Tudo isto quer dizer que, diante de cada etapa reencarnatória, temos a nossa frente um imenso horizonte de possibilidades, onde a fenomenologia mediúnica representa excelente condição de aquisições evolutivas para as estruturas do Espírito, quando as suas propostas são bem compreendidas e obedecidas. Todo processo que pode determinar, com a prática do Bem, bons impulsos evolutivos, pode propiciar as grandes quedas, quando ativado em posições negativas.

Revista "Presença Espírita".