Médiuns Profissionais

João Alberto Vendrani Donha

Um dos cuidados de Kardec e um dos pontos básicos de seu método de trabalho era cercar-se de colaboradores insuspeitos, tanto do ponto de vista material, como do moral. No primeiro caso, coloca ele os médiuns que não auferem lucros financeiros; no segundo, os que não cobram em elogios, em promoção pessoal, os que não buscam, enfim, prestígio à custa de sua mediunidade. Nessa precaução, identificamos mais uma vez a perspicácia científica do Codificador. Numa época em que os grandes pesquisadores do psiquismo tinham "seus sonâmbulos" à disposição, médiuns esses muitas vezes sustentados ou assalariados pelos cientistas, Kardec só se servia, em seus estudos, de voluntários. Cercava-se de médiuns que se entregavam ao trabalho desinteressadamente, pelo único ideal de demonstrar à humanidade a verdade da sobrevivência.

Qual a importância dessa maneira de agir?

Todos nós sabemos que o fato mediúnico não ocorre à vontade do médium. É necessária a colaboração de uma inteligência independente: o espírito comunicante, provocador do fato. Pois bem, quando alguém tira seu salário de suas possibilidades mediúnicas, vê-se, esse alguém, na obrigação de produzir fenômenos. Se não produzí-los, não terá salário. Agindo dentro dessa obrigatoriedade, quando os fenômenos não ocorrerem ele providenciará, de maneira fraudulenta, sua ocorrência.

Mesmo em se tratando de sonâmbulos (atualmente, na parapsicologia, chamados paranormais), caso em que o fenômeno é anímico, há necessidade de condições favoráveis para a ocorrência dos fatos. Portanto, ainda aqui, o desinteresse é a melhor garantia de sinceridade.

Na maioria dos casos o médium, em sua origem autêntico, sincero e simples, é imediatamente cercado por pessoas gananciosas por dinheiro ou ansiosas por promoção. Essas pessoas começam a adjetivá-lo de "grande médium", "maior médium", ou a reputar-lhe um "grande e inexplicável poder". O pobre do médium convence-se disto tudo e começa, por sua vez, a tirar proveito próprio da mediunidade ou a permitir que outros, amigos e familiares, o façam. Algum tempo mais e ele começa a notar que os fenômenos não são tão regulares e dóceis assim, que vez e outra (principalmente depois que ele começou a ganhar com a mediunidade) os "fatos insólitos" não se verificam. A essa altura, o médium já está tão comprometido, com tantas apresentações, palestras e entrevistas marcadas, que prefere não voltar atrás e continua na tentativa de satisfazer os curiosos. Leva consigo, então, certos recursos, para serem utilizados caso o fenômeno não ocorra. Começa a fraudar.

Se uma fraude dessas é descoberta os adversários do Espiritismo generalizam estendendo a denúncia da fraude a todas as apresentações daquele médium e, o que é pior, a todos os fenômenos daquela natureza.

Portanto, nunca poderemos ser realmente espíritas, compreender a fenomenologia mediúnica, interpretar com tranqüilidade tudo o que se passa em nosso meio ou o que se faz em nome do Espiritismo, sem estudarmos seriamente Kardec, assimilando seu método e sua prática. E é com suas palavras que finalizo este artigo: "De tudo o que ficou dito concluímos que o desinteresse mais absoluto é a melhor garantia contra o charlatanismo" (Kardec, O Livro dos Médiuns, Cap. XXVIII).

Curitiba, Paraná
julho 2001
Centro Espírita Luz Eterna - CELE
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