A incoerência espírita e a taxa de manutenção da Casa

José Muniz de Souza

Causou um grande alvoroço no meio espírita quando a notícia se espalhou. A Associação Espírita “Luz de Cáritas”, que se propõe divulgar um Espiritismo puro, como tem feito nos seus vinte anos de existência, ter passado a cobrar uma pequena taxa, em dinheiro, para manutenção da casa.

Antes de abordar o assunto, precisamos referir-nos sobre a Instituição pré-falada, aliás, sui gêneris, porque fundada a pedido do Espírito Cáritas, apresenta vários médiuns de cura, que incorporam os espíritos dos Doutores Adolfo Fritz, Bezerra de Menezes, Camilo Salgado, Nakamura, etc., e atendem o público para promover o socorro de doentes com enfermidades que a medicina ortodoxa não alcança, e, além do atendimento médico-espiritual oferecido, desenvolve também, os trabalhos de esclarecimentos e desobsessão, dentre outros.

O trabalho desobsessivo é realizado com método próprio, ensinado pelo Espírito Cáritas, contando com o apoio de uma caravana de aproximadamente cinqüenta espíritos iluminados. A eficácia de tais trabalhos é altíssima. Tem-se observado pessoas acometidas de graves crises obsessivas, que já buscaram socorro em vários outros centros de atendimentos, mas não lograram êxito, que ficam rapidamente curadas com a “Desobsessão” da “Luz de Cáritas”.

Os confrades, a primeira vista, assustam-se, dizendo que isso é um absurdo, e argumentam que Espiritismo deve ser dado de graça, porque de graça o recebemos, e assim afirmou Jesus.

Ora, ora, sabemos disso. Aliás, trata-se do Capítulo XXVI do Evangelho Segundo o Espiritismo, porém, parece que quem não entendeu bem o contido no citado capítulo são os que se alvoroçaram em críticas à Associação, pois aquela Instituição continua firme, dando de graça o que de graça recebe.

Para que compreendamos bem, lembramos que recebemos de graça a mediunidade, as orientações do alto, as intuições, a presença dos Espíritos Caravaneiros, dos Espíritos médicos, enfim, todos os socorros espirituais, por isso os rapassamos de graça. Mas, como não se pode realizar sessões desobsessivas em praças públicas, ou em local ermo, torna-se evidente que precisamos de um prédio material, com conforto, recursos hídricos, luz elétrica, cadeiras, mesas, livros, geladeira, ventiladores, que implica em impostos, limpeza, organização, papéis, computador, etc., etc., e isso tudo custa dinheiro. Se custa dinheiro, não recebemos de graça, portanto não podemos dá-los de graça. Lógico e justo que as despesas materiais sejam rateadas entre os freqüentadores. Afinal, querer receber de graça o que é oneroso para uma associação, é uma atitude, se não desonesta, insensível. Aliás, é típico do freqüentador espírita, se calar, fingir que não sabe que a Instituição tem despesa, deixar que os administradores dêem seu jeito, enquanto muitos são endinheirados, pois comparecem de automóveis importadas de último tipo, esnobam morando em edifícios de luxo, esbaldam-se em passeios turísticos caros, ou fazem ofertas altíssimas quando estão diante de sacerdotes de outra crença, mas não lembram de trazer nem mesmo um rolo de papel higiênico para a casa espírita.

Os freqüentadores do Espiritismo, em geral, fazem uma idéia ilógica e errônea, mas a seu favor, de que os espíritas que propalam tanto a caridade têm obrigação de lhes dar tudo, inclusive o que não faz parte da recomendação do Cristo, que são os custos materiais da casa. O erro estaria na implantação do Espiritismo no Brasil, que fez questão de deixar de lado suas raízes verdadeiras, incentivadas pelo próprio Kardec na Sociedade Espírita de Paris, onde todos os que freqüentavam pagavam uma taxa para manutenção da Casa.

A Luz de Cáritas passou vinte anos oferecendo os seus socorros ao público, e tentando contar com a compreensão, o bom senso e a boa vontade dos freqüentadores para que custeassem as despesas materiais, que são feitas em benefício do próprio público, mas chegou a um ponto de atingir o esgotamento. Muitos curados, muitos beneficiados, muitos que deixavam de gastar grandes somas em remédios e viagens de curas ao exterior, ao sul do Brasil, nos pagamentos de planos especiais de saúde, mas ninguém, mesmo sendo exortados, se tocava com as necessidades materiais da Casa.

Foram promovidos lanches, que alguns trabalhadores doavam, brindes, carnês de contribuição, que pouquíssimos aceitavam contribuir com o mínimo de dez reais mensais, mas apenas seis(6) pessoas se propuseram contribuir.

Observamos que do grande fluxo de pessoas que procuravam a casa, bem como os que procuram outras instituições espíritas, agiam e agem como aves de arribação. Chegam, descansam-se, alimentam-se, curam-se e logo partem. Só regressam noutro verão, quando são novamente visitados por outra enfermidade. Deixam as despesas que provocaram para os dedicados espíritas de boa vontade. Estes sim, agem como verdadeiros mendigos, pedindo de casa em casa, objetos usados para realizarem bazares e angariar fundos para manutenção da Instituição, na mais pura intenção de que estão fazendo o máximo para ajudar o necessitado. Necessitado? De quê?

Mais tarde a ave de arribação voltará, sorridente, cumprimentando a todos, pedindo novamente socorro, e receberá de novo, mas novamente sumirá ao se sentir satisfeita, deixando os banheiros sujos, a conta de luz a ser paga, a água a espera, as paredes e bancos necessitando reformas. Algumas até reclamam, exigindo bancos estofados como viram nas igrejas reformadas, no intervalo em que ficaram distante do convívio espírita.

É incrível, mas é muito difícil encontrar um empresário que se disponha a ajudar qualquer Casa Espírita, mas sempre estão ajudando as outras religiões. Porém, muitos deles quando precisam, buscam socorro no Espiritismo, mas, trazendo aquela idéias equivocada de que o Espiritismo tem que lhe dar tudo, inclusive a parte material, que não recebe de graça.

Todo Centro Espírita deve ser uma Associação, segundo nosso Código Civil em vigor. Associação é uma instituição jurídica que precisa impor taxa de contribuição a cada associado ou freqüentador para mantê-la, conforme diz a Lei.

Todo aquele que procura ajuda na Associação “Luz de Cáritas” é convidado a associar-se, posto que uma Associação é fundada para prestar socorro aos seus associados. E é esse o objetivo jurídico de qualquer associação existente no Brasil. Para associar-se, como conseqüência, é preciso pagar uma taxa de responsabilidade do associado, que se destina a manutenção da casa. Como a pessoa quer freqüentar a Casa mas não deseja associar-se, então, justo será que ela pague a taxa de manutenção com validade de trinta (30) dias, doutra feita o associado é que estaria pagando as despesas que não deu causa. As despesas que o freqüentador deu causa, na parte material, mais uma vez lembramos, nada têm a ver com o Espiritismo, portanto, não podemos dá-las de graça, pois não as recebemos de graça.

O que seria condenável é se os recursos angariados fossem usados em benefício próprio dos dirigentes, mas isso não ocorre. Os recursos são da própria Instituição, contabilizados, e nela empregados. Aproveitamos o ensejo e lembramos que igual comportamento tem um grande palestrante espírita, que viaja por todo o Brasil, sempre vindo a Belém, e cobra por suas palestras para sustentar a Instituição que dirige. Ninguém até hoje o censurou. Alegam que não é para ele, portanto está certo. É o mesmo caso da Luz de Cáritas.

Temos constatado a grande precariedade que enfrentam os Centros Espíritas de todo o Brasil, principalmente em nossa Capital – Belém –PA. Todas as Casas Espíritas deveriam cobrar uma taxa de manutenção de seus associados, e de quem as freqüenta, para ter uma sede bonita, bem acabada, tanto quanto é a do “Luz de Cáritas”. Mas por que não o fazem? Certamente por medo da opinião pública. Se cobrassem estariam cobrando os custos materiais, porque seus trabalhadores continuariam, como fazem na LC, nada recebendo pelo socorro espiritual que prestam.

Por outro lado, não somos contra, se um grupo de pessoas abnegadas resolver se reunir, custear todas as depesas de uma Associação, para prestar socorro a todos, indistintamente, sem nada cobrar da parte material. Isso depende de cada associação. Porém, se isso ocorrer, não será bom exemplo, pois contribuirá para que as pessoas abastadas continuem se aproveitando da boa vontade das outras, não aprendam a disciplinar o convívio social perfeito, onde se deve dividir tudo igualitariamente numa sociedade, principalmente as despesas. Além do mais, servirá para incentivar a omissão, que já é praxe, e dificultar a subsistência de um cem número de Centros Espíritas que apresentam construções velhas, toscas, feias, sem conforto, quando merecem um prédio de boa apresentação para divulgação da Terceira revelação de Deus.

Data venia, é de grande incoerência discordar da cobrança da taxa de manutenção como se faz na Luz de Cáritas. Que os discordantes usem a razão ao invés de o coração e não confundam alhos com bugalhos, querendo dar de graça o que nem deles é, que é a parte material.

A Associação Espírita Luz de Cáritas dá de graças, apenas o que de graça recebe. Não podemos dar de graça o que não nos pertence, senão, que administradores seríamos nós? Porém, há um outro esclarecimento a fazer, é pequeno o número, mas existe, algumas pessoas que mostraram à “Luz de Cáritas” que estão vivendo dias dificílimos financeiramente, por isso, foram dispensadas do pagamento da taxa de manutenção.

José Muniz de Souza

espírita e advogado, diretor – executivo da Associação Espírita Luz de Cáritas

e-mail: jose-muniz@uol.com.br