Criando espaços e tomando iniciativas

Wilson Garcia

São Paulo – SP

As possibilidades para isso são inúmeras e não há, por assim dizer, locais interditos ou se quisermos, atividades em que não se possa inovar para renovar, criar para descobrir, experimentar para produzir.

A tendência natural (ou artificial?) do ser humano é estabelecer comportamentos padrões e fixar modelos para suas ações. A doutrina espírita oferece uma oportunidade ímpar de desenvolver a criatividade e assumir novos comportamentos, sem ser preciso colocá-los dentro de um modelo fechado. Isso exige, contudo, a tomada de iniciativa, quase sempre contrária à tendência observável. E significa na prática assumir riscos, porque toda e qualquer iniciativa implica em conseqüências e responsabilidades.

Nas coisas do Espiritismo tem sido mais fácil seguir as trilhas já construídas pelos antepassados, mesmo que nem sempre tenha sido assim. E mesmo que a doutrina não seja tão antiga. Os primeiros espíritas tiveram que assumir os riscos inerentes à realidade de uma doutrina que não tinha senão uma elaboração teórica. Por isso, os primeiros centros espíritas foram obrigados a descobrir como realizar suas reuniões e foram, mesmo, levados a criá-las a partir de experiências que não tinham antecedentes. Em parte, ainda hoje isso acontece. A diferença está em que os centros espíritas que se foram hoje e mesmo aqueles que desejam iniciar atividades outras dispõem de experiências registradas.

Independentemente de ser bom ou ruim, uma das conseqüências observadas é que geralmente se prefere partir de fatos concretos, mesmo que experimentados por outros, a tomar caminhos de certa forma desconhecidos. Como em Espiritismo se lida com inteligências e não com fatos que podem ser repetidos indefinidamente, ao tomar por modelo a experiência alheia perde-se no mínimo a possibilidade de criar-se dentro de um espaço em que se vai viver. E se perde também a oportunidade de dominar esse espaço de forma mais segura. Por outro lado, ao se implantar modelos oferecidos por outros, costuma-se incorporar não só o que eles contêm de positivo mas também suas falhas e vícios.

As experiências alheias são válidas, mas o Espiritismo oferece também a oportunidade de desenvolver outras. A rigor, não há modelos definitivos em matéria da prática no centro espírita, mesmo porque a doutrina não se constitui ( e jamais deverá constituir-se) num corpo estabelecido, padronizado, ainda que esta seja uma tendência forte e possa ser observada no dia a dia de muitas de nossas casas. Até mesmo as reuniões públicas, hoje seguindo um certo padrão (prece-palestra-passe-prece) podem ser realizadas de modo diferente. E haverá vantagem nisso se esta experiência contribuir para quebrar a tendência à formalidade que também se estabelece quando se trata de uma relação do ser com a espiritualidade (Deus, Espíritos, etc.).

Temos insistido que o centro espírita é tanto um local de respostas quanto de perguntas. Talvez mais de perguntas que respostas, no bom sentido. O hábito, quando se estabelece, costuma esconder que podemos questionar (e devemos fazê-lo) de forma insistente, não só em relação às coisas corriqueiras mas especialmente às que exigem aprofundamento. Enganam-se os que imaginam que responder às dúvidas alheias representa o principal móvel do dirigente do centro espírita. Enganam-se acima de tudo por desconhecer uma realidade objetiva: poucas ou quase nenhuma resposta soluciona de fato as dúvidas e os anseios que se alojam no ser humano. A sabedoria maior está em encontrar respostas por si mesmo, através de um questionamento permanente. Quando o Espiritismo responde aos questionamentos, não o faz no sentido finalista, mas com a disposição de contribuir para o crescimento do ser, que em última análise será realizado pelo próprio ser.

O espaço de um centro espírita poderá ser mais rico à medida em que a criatividade se faça presente, levando à descoberta de novos caminhos e à formulação de uma dinâmica interna em que o formalismo empobrecedor é substituído por uma natural disposição de crescer. As possibilidades para isso são inúmeras e não há, por assim dizer, locais interditos ou se quisermos, atividades em que não se possa inovar para renovar, criar para descobrir, experimentar para produzir. A iniciativa tomada nesta direção poderá infundir em determinadas falhas, sem dúvida, mas poderá também desembocar em conhecimentos que de outra forma não seriam alcançados, o que vale muito mais do que qualquer possível insucesso. O que mais se deve temer em matéria de centro espírita não é o erro, mas a perda da oportunidade de estabelecer uma consciência clara para o real progresso do ser e da coletividade.

(Dirigente Espírita Nº 58 - Março/Abril de 2000)