Navegar em águas profundas

Octávio Caúmo Serrano

A imprensa espírita demonstra certa aversão ao discurso das reuniões evangélicas, sob o argumento de que os palestrantes querem desentortar o caráter das pessoas com a violência de um ferreiro dando forma ao metal. Seria uma agressão ao livre-arbítrio porque não aceitam que os homens sejam como querem ser.

Mas se eles pretendem continuar como são, o que vão fazer no Centro Espírita, perguntamos ? Os espíritas, que censuramos a conduta de irmãos de outras doutrinas, porque mantêm o fiel na ignorância evitando polemizar sobre dogmas que não podem explicar, não podemos fazer o mesmo!

Se considerarmos aqueles que vão ao centro só para resolver problemas pessoais, sem cogitar da própria modificação, não temos de perder tempo com estes. Façamos como fizermos e digamos o que quisermos, para estes será sempre a mesma coisa. Não estão interessados nas orientações, mas nas vantagens que o centro possa oferecer. Querem desenrolar a vida, melhorar a saúde, harmonizar o lar ou casar a filha. Pretendem receber sem nada oferecer. É como quem vai ao hospital em busca do tratamento. Não pretende ser sócio nem trabalhar lá.

Para falar da eficiência de um Centro Espírita, o analista não pode ser apenas acadêmico. É preciso conhecer as entranhas do agrupamento e acompanhar seus participantes, para aferir as modificações experimentadas,  que são sempre proporcionais às orientações que ali são oferecidas.

Poderíamos relatar, para citar vivência pessoal, vários casos de companheiros que chegaram ao centro e depois de algum tempo confessaram haver cogitado de deixar o grupo porque determinado dirigente era rigoroso. Exigente quanto ao silêncio, ao horário, ao comportamento, ao relacionamento entre todos, trabalhadores e assistidos, à assiduidade, aos estudos, e até quanto ao simples manuseio do livro retirado da biblioteca.

Parece absurdo, mas não sabemos sequer folhear um livro com a delicadeza e o respeito que merece, porque é uma fonte onde se bebe conhecimento.  Depois de lida uma obra, é comum haver páginas soltas, rabiscadas, cantos dobrados, quando seria mais fácil usar um marcador e fazer anotações à parte. Quanto maior for a sua vida útil,  a mais pessoas poderá servir.

Com o passar do tempo, esses descontentes mudaram de opinião. E a mesma confissão que fizeram quanto à repulsa que sentiam pela forma como o centro era dirigido, usam hoje para agradecer e relatar o quanto aprenderam com o rigor da direção. E esse progresso não ficou restrito às quatro paredes da Casa Espírita porque se refletiu na vida pessoal, familiar e profissional dessas criaturas. Houve uma transformação dessas pessoas, a partir de suas raízes. Não foi superficial, um simples envernizado.

No Centro Espírita, temos de dizer às pessoas que elas precisam melhorar no próprio interesse delas. Temos de insistir que o mundo material, necessário no nosso atual estágio, não pode ser o nosso patrão, porque se destina ao desenvolvimento do Espírito. Cansamo-nos em demasia por certos valores de uso temporário e não construímos o definitivo. Tudo pelo  corpo, nada pela alma. Temos de informar e, mais que isso, temos de mostrar que não apenas pensamos, mas vivemos. Ninguém convencerá ninguém com uma preleção sobre vícios, se ao final da reunião, ainda na porta do centro, resolver pitar o seu cigarrinho.

Não se pode ser hipócrita para encher a casa, para atender à vaidade do dirigente. O desenvolvimento do Espiritismo não deve ser produto de mentiras, falsidades ou tolerâncias levianas. Não temos na Doutrina Espírita uma meta material, mas um objetivo espiritual.

Se não pudermos ter uma casa grande, que seja pequena; se não puder ser própria, que seja alugada; se não for possível atender 100 pessoas, que sejam 10, mas sem trair os princípios que abraçamos. Se fizermos o inverso, nada construiremos. E mesmo que realizemos grandes empreendimentos materiais, nada edificaremos na obra espiritual.

É dever do espírita que divulga a Doutrina combater suas más inclinações e estimular os outros a que façam o mesmo.

Quem entender que o discurso é rigoroso e cansativo, paciência. Procure um lugar onde lhe digam coisas agradáveis e onde não tenha de assumir compromissos.

O Espiritismo  não tem de se adaptar às pessoas sob pena de cair no lugar comum e ser mais uma religião desacreditada, mística e de fachada; e caso resolva ceder, já não será mais o Consolador prometido por Jesus.

(Publicado no Jornal A Voz do Espírito - Edição 88: Novembro-Dezembro de 1997)