Necessidade do Espiritismo Sociológico

Humberto Mariotti

Todos os males que afligem a Humanidade têm suas raízes nos grandes problemas sociais. Importantes ideologias políticas estão empenhadas em solucioná-los; mas esses problemas, em vez de se resolverem, tornam-se cada vez mais graves, com o perigo de se converterem em catástrofes coletivas. No entanto, o esforço dessas ideologias merece o mais franco reconhecimento, pois demonstram elas estar vivendo esses conflitos sociais, sem iludi-los nem fugir de suas grandes realidades. O Espiritismo militante, entretanto, que representa toda uma ciência da alma, e dessa maneira uma perfeita sincronização entre o corpo e o espírito, ainda não demonstra um real interesse pelo estudo dos problemas sociais. Salvo alguns casos isolados, não existe na militância espírita uma continuidade ideológico-social, que nos permita assinalar um verdadeiro enfoque dos contraditórios fenômenos do presente processo histórico.

Acreditamos que a Filosofia Espírita deve penetrar nos fenômenos sociais com sua extraordinária sociologia, já que esta constitui uma verdadeira revolução, no que respeita ao conhecimento do espírito encarnado e de suas relações com as leis da sociedade.

Estas mesmas leis obrigam o Espiritismo militante a enfrentar as contradições sociais e econômicas, com sua visão espiritual do Homem e da História, com o que demonstraria a maneira por que o espírito rege e determina os grandes fatos políticos e econômicos. Se o Espiritismo permanecesse à margem da questão social, adotaria um critério evasivo perante as grandes coletividades humanas que sofrem, esperando sua definitiva redenção.

Por outro lado se desvalorizaria o pensamento sociológico dos que encararam de forma decisiva os temas sociais à luz da Filosofia Espírita. Como sabemos, o Espiritismo possui uma riquíssima teoria sociológica, e chegou o tempo de sua aplicação à sociedade humana. Além disso, ignorar que o Espiritismo tem um destino social seria desconhecer suas grandes linhas humanistas e a missão que lhe cabe em face à dor humana. Esse destino do Espiritismo é corroborado por seu caráter integral, pois um só fato social que ele não encarasse bastaria para fragmentar sua natureza de ciência universal, cuja missão é abranger todos os problemas da Humanidade.

Os que têm a propensão de circunscrevê-lo às experiências de laboratório negam o seu caráter transcendente, limitam e retardam o seu apostolado espiritual e social. O Espiritismo, segundo o critério kardecista, é um movimento fraternal que procura fundar no mundo uma associação de homens e espíritos, reciprocamente integrados nas grandes lutas pelo progresso e pela evolução. Sua militância social e fraterna dirige-se sobretudo aos tristes e necessitados, que sofrem sob o contraditório sistema econômico contemporâneo. Por isso, Kardec, referindo-se aos trabalhos e funções sociais da Doutrina Espírita, declarou: “E aos deserdados, mais do que aos felizes do mundo, que o Espiritismo se dirige.”

As questões sociais, que agitam o mundo contemporâneo, devem receber a contribuição da escola kardecista. Mas esta contribuição só poderá ser conhecida se a ação dos homens e mulheres espíritas incidir sobre os tremendos instantes por que passa o mundo. A Sociologia contemporânea procura situar a luta de classes dentro do Tomismo, do Marxismo ou do Comunitarismo, esta nova escola social surgida há pouco. Mas uma Sociologia, seja qual for, que não resolvesse também as situações éticas e psicológicas do indivíduo, jamais representaria uma solução para o drama geral que a Humanidade vive.

Léon Denis escreveu:

“Todas as doutrinas econômicas e sociais serão impotentes para reformar o mundo e minorar os males da humanidade, porque sua base é demasiado estreita e elas colocam apenas na vida presente a razão de ser, a finalidade, o objetivo desta vida e de todos os nossos esforços. Para extinguir o mal social é necessário elevar a alma humana à consciência de seu papel, fazê-la compreender que sua sorte depende dela própria, e que sua felicidade sempre será proporcional i à extensão dos seus triunfos sobre si mesma e sua abnegação para com os demais.

A questão social será resolvida quando o altruísmo substituir o personalismo exclusivista e estreito. Os homens se sentirão irmãos e iguais perante a lei divina, que reparte a cada um os bens e os males necessários à sua evolução, os meios de vencer-se a si mesmo e acelerarem a sua ascensão.(*)

Os fenômenos sociais são fatos que ferem a sensibilidade, o que significa que a evolução moral é de caráter espiritual. Fazer do Espiritismo uma idéia contemplativa, que espreita as lutas sociais sem nelas intervir com sua doutrina, seria desnaturá-lo, colocando-o longe da ação criadora dos espíritos progressistas.

Lembremo-nos de que a Filosofia Espírita ultrapassa a visão social das demais doutrinas, porque, além de apresentar uma Sociologia deste mundo, mostra ao Homem uma Sociologia palingenésica do espírito, vinculada com os mundos invisíveis: liga as vidas sucessivas do Ser, fazendo-as dependentes umas das outras. A ideologia espírita não procede como os demais sistemas, que se circunscrevem a um único centro: o da Terra, esquecendo-se da vida espiritual. A Sociologia Espírita reconhece um constante enlace entre o visível o invisível, interpretando o processo social como um fato histórico sujeito a influências metapsíquicas, que se desenvolve na interação dos espíritos encarnados e desencarnados.

(*) “O Problema do Ser, do Destino e da Dor”, Léon Denis.

Vejamos qual o parecer de Allan Kardec a respeito:

Quem tenha meditado sobre o Espiritismo e suas conseqüências, e que o reduza á produção de alguns fenômenos, compreende que ele abre à Humanidade um novo roteiro, mostrando-lhe, de passagem os horizontes do Infinito. Ao iniciá-la nos mistérios do mundo invisível, revela-lhe o seu verdadeiro papel na Criação. Desempenhando um papel perpetuamente ativo, tanto em estado corporal como espiritual, o Ser humano já não marcha às cegas; sabe de onde vem , para onde vai e porque existe.

O futuro se lhe apresenta, na realidade, isento dos preconceitos da ignorância e da superstição; já não é vaga esperança, senão uma verdade palpável, tão positiva para ele como a sucessão do dia e da noite. Sabe que seu Ser não está limitado a alguns instantes de uma existência efêmera, que a vida espiritual não é interrompida pela morte; que já viveu, que tornará a viver, e que tudo quanto avançar, -na Ciência e na Moralidade, pelo trabalho, lhe servirá para o futuro.

Em suas existências anteriores encontra a razão do que é hoje, e do que hoje conseguir ser poderá deduzir o que será amanhã.

Que importa ao homem o progresso da Humanidade, se acreditar que a atividade e a cooperação do individuo na obra geral da civilização ficam limitadas à vida presente, que nada foi e que ao nada terá de voltar?

Que lhe importa que no futuro os povos tenham que ser mais bem governados, mais felizes, mais ilustrados e melhores uns para com os outros?

Visto que o indivíduo não terá nenhum proveito com tais progressos, não são perdidos e inúteis para ele? De que serve trabalhar para os que virão depois, se não ira’ conhecê-los, se serão seres novos que, pouco depois, terão também de voltar para o nada?

Sob o influxo da negação do porvir individual, tudo se reduz, fatalmente, às mesquinhas proporções do momento e da personalidade.

Pelo contrário, que amplitude dá ao pensamento do homem a certeza da perpetuidade de seu Ser espiritual! Que coisa mais racional, mais grandiosa, mais digna do Criador se pode conceber, que essa lei em virtude da qual a vida espiritual e a vida corporal são dois modos de existência alternados, que têm por objetivo a realização do progresso? Que pode haver de mais justo e consolador que a idéia dos mesmos seres progredindo sem cessar, primeiro através das gerações, e logo de mundo em mundo, até à perfeição, sem solução de continuidade?

Todas as ações têm seu objetivo, porque, trabalhando para todos, trabalha-se para si mesmo e assim reciprocamente; de modo que nem os progressos individuais, nem os da totalidade, em nenhum caso são estéreis. Aproveitam às gerações e aos indivíduos que hão de vir, e que não são outros senão as gerações e os indivíduos que já foram, e agora chegados a um grau mais elevado de desenvolvimento.

Como vemos, o homem não é o resultado do acaso material, nem desaparece espiritualmente com a sua extinção corporal, segundo a concepção materialista da existência. A visão espírita nos mostra que cada ato e cada ação do ser humano tem sua repercussão sobre os fatos sociais e particulares: sua moral se une assim com o futuro; daí se conclui que o Espiritismo reconhece um verdadeiro encadeamento entre o particular e o coletivo, o oculto e o visível, isto é, que tanto o passado como o presente se unem entre si, graças à lei palingenésica, já que o homem de ontem é o de s hoje e ode hoje será ode amanhã.

Em conseqüência, se o homem espírita não iniciar a sua ação sociológica, ocultará com esse proceder c as grandes concepções sociais do Espiritismo. A Terra tem necessidade de uma Sociologia espiritual; a doutrina espírita deverá penetrar nas contradições humanas, já que ela nos trouxe o exato conhecimento das leis sociais. Só assim a Humanidade se acostumará a considerar a possibilidade de uma concepção espiritista da sociedade, sem nenhuma classe de dúvidas nem de vacilações.(*)

(*) O problema da Sociologia Espírita foi amplamente estudado num curso de Introdução à Filosofia Espírita, dado em 1964, no Clube dos Jornalistas Espíritas de 5. Paulo. A Edicel publicará esse curso, num volume próximo da sua Coleção Filosófica, a que pertence este livro. E publicará posteriormente o livro “Sociologia Espírita”, do grande pensador argentino, Manuel 5. Porteiro, atualmente em fase de tradução. (N. do Rev.)

O Homem e a Sociedade Numa Nova Civilização – Humberto Mariotti