O Espiritismo segundo o Evangelho?

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Palestras e livros repetem textos do Novo Testamento. A obra de Kardec traz uma visão ampliada sobre os ensinos morais do Cristo.

Nas exposições doutrinárias rotineiras nos Centros e mesmo em muitos livros espíritas, nitidamente se percebe uma predileção pelos enfoques baseados no Novo Testamento. Algumas vezes, tais exposições nem fazem referência ao Espiritismo e à obra de Kardec. Em parte, esta tendência de esclarecimentos evangélicos é até esperada se levarmos em consideração a larga tradição cultural católica de nosso país.

Essa característica muito nítida no movimento espírita brasileiro fica clara quando se compara os livros e as ações espíritas de outros países. Não é uma crítica, mas o reconhecimento das diversas realidades históricas, culturais e de tendências religiosas.

Por outro lado, cabe um outro raciocínio. Como reencarnacionistas, precisamos entender com naturalidade que, muito provavelmente, esta é a primeira existência em que a grande maioria dos espíritas entra em contato com a Doutrina Espírita.

Tirando de lado o entendimento da situação que entendemos como material, ou a resultante da somatória das múltiplas experiências de vida, sem dúvida, cabe a reflexão sobre a atual oportunidade reencarnatória.

Na realidade, a tarefa dos espíritas e a finalidade das reuniões dos Centros Espíritas não se referem à mera lembrança da epopéia do Cristo e a repetição de seus sublimes ensinos. O objetivo da Doutrina Espírita extrapola esse cenário muito observado na seara espírita. Em nota de rodapé ao prefácio de "O Evangelho segundo o Espiritismo", o Codificador destaca "o verdadeiro caráter do Espiritismo e finalidade desta obra". Em seguida, na introdução realça o ensinamento moral do Cristo e explicita "...em resumo e acima de tudo, o caminho da felicidade que virá, uma ponta do véu erguido diante da vida futura". Entre tantas outras considerações, evidenciamos que após a primeira lei apresentada – a do amor -, Lázaro aponta: "O Espiritismo, vem pronunciar uma segunda palavra do alfabeto divino. Ficai atentos, pois esta palavra ergue a laje das sepulturas vazias; é a reencarnação, que triunfando sobre a morte, revela ao homem deslumbrado seu patrimônio intelectual" (A lei de amor, cap. XI, obra citada).

A leitura atenta da monumental obra de Kardec nos instrumentaliza com potentes lentes para a melhor compreensão dos textos evangélicos. O Espiritismo amplia o entendimento da missão e do pensamento do Cristo, haja vista o entendimento do capítulo "O Cristo Consolador" da obra citada. A certeza da imortalidade da alma, comprovada pelas manifestações medianímicas, como peça chave para a visão pluridimensional da vida, assegura-nos o entendimento da evolução, viabilizada pelas vidas múltiplas e a aceitação plena de um Criador.

Esse conjunto - de informações e de certezas – propiciado pela Doutrina Espírita é que deve ser transmitido para os freqüentadores dos Centros e para o público em geral que tem curiosidade ou está sensibilizado pelo Espiritismo. A ação dos espíritas deve avançar com relação a experiências reencarnatórias anteriores e ampliar significativamente a visão sobre a vida, indubitavelmente que respaldada na essência da mensagem cristã.

Dessa maneira, o expositor não deve ficar simplesmente repetindo e explicando parábolas e trechos evangélicos. Estes devem ser explicados dentro da ótica espírita, destacando-se o que os fatos e textos evangélicos significam dentro de uma visão pluridimensional e imortalista. E, inclusive, deve se respaldar e citar o pensamento de Kardec e de grandes mestres da interpretação evangélica como Emmanuel e Vinícius.

É chegada a hora de se divulgar a Doutrina Espírita, que inclui os ensinamentos morais do Cristo. Este é objetivo traçado por Kardec em "O Evangelho segundo o Espiritismo"!

(Dirigente Espírita Nº 53 - Junho/Julho de 1999)