O movimento espírita e nós

Dalva Silva Souza*

Vitória – ES

A perplexidade ante os antagonismos dentro do Movimento Espírita é de todos nós. É difícil explicar porque pessoas que já possuem os conhecimentos facultados pela Doutrina Espírita ainda conservem pruridos de vaidade e atitudes personalistas. A causa principal dessa distorção é que somos seres humanos, e a esmagadora maioria dos homens resulta da encarnação de Espíritos em condições inferiores ou medianas de evolução, indivíduos esses ainda muito carentes de educação moral. Nós carreamos para o Movimento nossas imperfeições - essa é a grande verdade. A consciência disso nos ajuda a doar nossa quota de trabalho com mais humildade e paciência.

Jesus recomendou que nos amássemos assim como Ele nos amou, e informou, ainda, que seus discípulos seriam reconhecidos por muito se amarem. Não é possível, ainda, na Terra, um sentimento tão puro como aquele que Jesus exemplificou, mas precisamos fazer esforço para nos aproximarmos dessa realidade. Todos nós que nos colocamos sob a bandeira do Espiritismo cristão, desfraldada por Allan Kardec, devemos fazer o esforço de vencer os impulsos separatistas, ainda que venham disfarçados com a capa do louvável propósito de defender a pureza doutrinária.

Há companheiros que perdem um tempo enorme, e gastam energia, num sentido totalmente divergente daquele proposto por Jesus e por Kardec. Estão imbuídos de boa intenção, mas escolhem caminhos equivocados de ação, e apenas conseguem mostrar ao grande público um retrato negativo, que de forma alguma pode ajudar a difundir os princípios que abraçamos. Se manifestamos dessa forma a desunião dentro do Movimento, como vamos convencer as pessoas não espíritas de que somos discípulos de Jesus? A atitude agressiva de crítica não nasce do sentimento de amor. Se nos amássemos, saberíamos estar juntos em busca da mesma meta, alertando-nos reciprocamente quando nos surpreendêssemos em falhas. Quem pode gabar-se de nunca errar?

A agressividade e a combatividade que observamos em certos companheiros contra a FEB – Federação Espírita Brasileira traz-nos um sentimento profundo de tristeza. Não devemos ver a FEB como uma cúpula que, alienada da realidade, pretende dirigir os destinos dos centros espíritas. Essa percepção é totalmente equivocada. A equipe que dirige a FEB, embora as dificuldades presentes em todos os agrupamentos humanos, envida esforços para coordenar as atividades de âmbito nacional. É uma equipe formada de pessoas que se dispõem a doar uma parcela do seu tempo à tarefa de coordenar as ações que integrem as diversas instituições federativas estaduais que, por sua vez, também são dirigidas por equipes que se dispõem a coordenar ações integradoras das instituições adesas. O sistema que está assim implementado procura realizar, na prática, aquilo que Allan Kardec idealizou no Projeto 1868 (em "Obras Póstumas"). O trabalho dessas equipes é inteiramente voluntário, isso não se pode esquecer. Quem doa, assim, seu tempo e seu esforço, está movido pelo ideal de servir a uma causa, e essa causa é de todos nós.

Podemos acompanhar, pela revista "Reformador", os resultados das ações idealizadas e implementadas pelo CFN – Conselho Federativo Nacional e pela FEB, bem como considerar o acervo de trabalhos publicados e os eventos de caráter nacional e internacional realizados. Se já temos a noção da importância de levarmos ao grande público os conhecimentos que nos consolam e orientam, sabemos o quanto será benéfico que ajustemos nossas ações aos propósitos das instituições de caráter federativo. Vamos fortalecer o "Pacto Áureo", assumindo, junto às instituições, se temos algum cargo que nos situa na liderança de equipes de trabalho, o compromisso de realizar a unificação.

Que esteja longe de nós qualquer idéia de infalibilidade mas, se nos unirmos, como recomendou Kardec, formaremos o feixe de varas inquebrantável. Este é o grande desafio: superar nossas divergências e nos posicionamos ombro a ombro com aqueles que estão temporariamente incumbidos de coordenar o movimento em âmbito estadual ou federal.

Nós precisamos nos amar acima de tudo. Eliminemos de nossos corações o preconceito e os impulsos separatistas. Os adjetivos "roustanguista", "kardecista", "ubaldistas" e outros do mesmo gênero só congelam o pensamento em posições que não ajudam em nada a realizarmos a união, o feixe de varas inquebrantável. Esses adjetivos são apenas rótulos... Libertemo-nos dessas amarras! Arregacemos as mangas, e coloquemos mãos à obra. O tempo não pára; precisamos aproveitá-lo para realizar o máximo que estiver ao nosso alcance, no sentido de esclarecer e consolar os que estão em grandes dificuldades nesta época de transição, por causa da ignorância e da miséria material e moral. O inimigo a combater está dentro de nós mesmos: é o egoísmo que lança um intenso nevoeiro em torno dos nossos olhos, impedindo que vejamos com clareza o caminho que, para o nosso próprio crescimento espiritual, precisamos trilhar.

Somos Espíritas – este o adjetivo cunhado por Kardec para caracterizar aqueles que buscam na Doutrina dos Espíritos os subsídios para se melhorarem, lutando contra suas próprias imperfeições. Qualquer outro adjetivo não nos serve. Vejamo-nos como irmãos e vamos agir fraternalmente. A única felicidade possível é a de estar em paz com nossa própria consciência, pelo dever retamente cumprido, e isso só depende de nós mesmos.

* Autora do livro "Os caminhos do amor", edições FEB.

(Publicado no Dirigente Espírita no 64 de março/abril de 2001)